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Relato
‘No dia em que acharam o corpo, eles estavam comemorando a chegada aos EUA’, conta irmão de brasileira abandonada no deserto por amigos
Sozinha, sem comida e água, Lenilda Oliveira acabou morrendo. Leci Pereira conta que colegas apenas pediram desculpas e assumiram ter agido errado
O Globo
18/09/2021 | 14:10

Enquanto o corpo de Lenilda Oliveira era encontrado pela policia americana numa área de deserto ao sul da cidade de Deming, no Novo México (EUA), no último dia 15 de setembro, seu irmão Leci Pereira conta que os amigos de infância que a acompanhavam na travessia ilegal pela fronteira americana, mas a abandonaram sem água ou comida, comemoravam a chegada em solo seguro americano.

 

Leci revelou que chegou a ter contato com eles, mesmo depois de tudo o que aconteceu. Ele, é claro, os culpou pelo que aconteceu com a irmã e cobrou explicações. Segundo ele, os três reconheceram que a deixaram à própria sorte, mas isso não impediu uma comemoração.

— Eu torço muito para que eles sejam punidos um dia. Eram todas pessoas conhecidas, amigos de infância. Pediram desculpas, assumiram que agiram errado. Mas nada além disso. No dia em que acharam o corpo, eles estavam lá comemorando num grupo de WhatsApp — afirmou Leci.

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Ele reforçou que a irmã morreu buscando dar uma vida melhor à sua família.

— Ela morreu lutando, querendo ser alguém. O nosso país hoje está tão difícil que, mesmo ela sendo uma enfermeira formada aqui, ela ganharia mais trabalhando de faxineira para os outros lá nos EUA. O nosso país precisa mudar essa política; em lugar da roubalheira, da corrupção, por que não muda e dá dignidade para o cidadão brasileiro? — desabafou.

 

‘Confiou por serem amigos de infância’, diz irmão

Leci pediu para a irmã não fazer a travessia, mas ela “confiou” por estar indo com amigos de infância, afirma.

— Os outros três estão lá no destino deles, trabalhando. Eu fico revoltado porque acho que a gente não pode abandonar nem um animal, que é crime. Como podem abandonar uma pessoa? Ela confiou nos companheiros, ficaram 30 dias juntos numa casa, ela mandava vídeo toda feliz, e na hora que ela mais precisou deixaram ela e foram embora. Imagina você sozinha no deserto olhar e ver que os colegas foram embora, que está sozinha, e vai morrer. É triste. Essa é a minha revolta.

Vaquinha para traslado

Nas redes sociais, as filhas, ainda muito abaladas, criaram vaquinhas, tanto no Brasil, quanto nos EUA, onde pedem ajuda para que consigam repatriar e enterrar o corpo da mãe. Até esta sexta-feira, já tinham conseguido arrecadar R$ 6 mil, com ajuda de quase cem pessoas.

Segundo Leci, no entanto, que tem lidado com as questões burocráticas junto a uma empresa de imigração que contratou, a tendência é que o corpo da irmã ainda demore a ser liberado pelo IML local.

— Até agora o corpo está lá no IML, e a gente não sabe quando vai ser liberado. Eu conversei com a empresa, e vamos ter que esperar o laudo da polícia ser concluído ainda antes de o corpo ser liberado. Então, já estamos mobilizando ajuda, as vaquinhas, fazendo o que dá para ajudarmos esse processo, pagarmos os custos do traslado. Todo mundo de pé e mão quebrados, sem saber o que fazer, mas temos que nos apoiar.

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