Barco à deriva e os tubarões
Embora a sutileza não seja o forte destes tempos, não há como negar que os sinais continuam existindo. E eles indicam para uma sucessão de desembarques do governo federal. Nesse caso, os primeiros serão últimos e os últimos, os primeiros.
Não entendeu? É simples.

Imagine um barco à deriva em alto mar. Os primeiros a entrarem nele, quando a grande embarcação naufragou, foram beneficiados com os lugares mais seguros; os últimos estão na borda, impossibilitados de dormir para não cair na água.
À medida que o tempo passa e o sol escaldante se impõe (e a sede com ele) quem está na borda ou se impõe para trocar de lugar ou se resigna a permanecer onde está à espera de um bom momento para abandonar o barco.
De sorte que só haverá abandonos, deixando ainda mais confortáveis os privilegiados e desconfortáveis os esquecidos ou preteridos. E, como sempre são os incomodados que se mudam, a tendência é o barco ficar para poucos.
Quais os sinais disso?
Eles são muitos, mas os recentes definem claramente o momento do atual governo ao entrar no seu ano decisivo – ou se renova no poder ou será removido pelo voto popular.
No Chile, o candidato da extrema direita vencido por larga margem de votos se apressou em reconhecer a derrota e desejar sorte ao vencedor.
Mas não é assim que o presidente brasileiro, o único a demorar mais de um mês para reconhecer a vitória de Biden nos EUA, deve se comportar.
Existem extremistas de direita piores e melhores, mais bem preparados e menos bem preparados. Ao Brasil coube isto.
Voltando ao barco que está à deriva, aqui e ali já é possível distinguir ocupantes que já se jogaram no mar, antevendo o fim de seu projeto pessoal de poder.
Um bom exemplo é o escritor Olavo de Carvalho, “guru” do bolsonarismo, que declarou nesta segunda-feira, 20, durante uma live, sentir-se usado por Bolsonaro que fez dele um “poster boy” para se eleger, ou seja, “garoto propaganda”.
“Depois disso até meus amigos que estavam no governo ele tirou”, desabafou o ideólogo, referindo-se aos “alunos” e ex-ministros Ricardo Salles, Abraham Weintraub e Ernesto Araújo, sem mencionar Ricardo Vélez, o primeiro chefe da pasta da Educação logo no começo do governo.
“O Brasil vai se dar muito mal, não venham com esperanças tolas”, vaticinou. “Existe uma chance (de voltar), mas muito remota. Se Bolsonaro acordar, e eu não sei como fazê-lo acordar”, acrescentou.
Outro indício de gente ao mar apareceu no horizonte nas últimas 24 horas.
A subprocuradora geral da República, Lindora Araujo, considerada até então uma bolsonarista de carteirinha, deu sinal verde para a continuidade da investigação sobre os ataques de Bolsonaro às urnas eletrônicas em 29 de julho.
Aqui e ali é só reparar. Barcos à deriva e gente saltando deles.