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Editorial
Negação da realidade
Redação
14/04/2020 | 14:26

Nada se compara ao novo coronavírus na história recente das pandemias. E o Brasil não dispõe de armamento em quantidade e qualidade para enfrentar esse inimigo épico.

Com um sistema de saúde doente há muitos anos, seria um duelo menos desigual se pelo menos estivéssemos prontos para realizar testes em massa – o que é muito aquém de ser uma verdade.

Então, neste momento, podemos estar nadando em meio a um oceano de tubarões sem nos aperceber do perigo.

Em meio ao despreparo histórico, com milhões de pessoas vivendo sem saneamento básico, acuada pela violência urbana e pelo desemprego, com uma economia reagindo com o vigor de um voo de galinha, eis que somos colhidos por um novo vírus da família corona, descoberto ainda no começo dos anos de 1960.

Se, durante a chamada gripe espanhola (1918), a falta de preparo científico da época permitiu que milhares de pessoas morressem no Brasil e milhões no mundo, a curta duração da pandemia foi mais dura nas cidades à beira mar, onde desembarcavam navios.

Diferentemente do novo coronavírus, que veio a bordo de aviões.
Presente das camadas mais abastadas, que gentilmente o legaram para a grande maioria pobre da população, onde a transmissão sustentada, a exemplo do que já acontece nos EUA, promete ser especialmente dura entre as populações negras, onde permanecem indeléveis os traços da desigualdade social.

Na América, os hispanos também passaram a integrar uma parcela substancial de casos por razões óbvias. Sem condições de permanecer em isolamento social, os pobres precisam sair para garantir o pão de cada dia.

Por isso, não é fácil manter isolamentos sociais, nem aqui e nem em nenhum outro país do mundo, exceto se for um desses raros recantos de igualdade entre as classes, como países nórdicos ou uma Alemanha, onde a pandemia foi encarada como um problema seríssimos desde a primeira hora – e a testagem de casos foi massiva.

No Brasil essa luta ainda tem um ponto contrário e inédito – virou campo de batalha entre um presidente da República negacionista da pandemia e o conjunto quase completo dos governadores dos estados, colocados como inimigos de um fantasioso teatro de operações, onde ânimos exacerbados em nada ajudam o esforço de guerra.

Com batalhas virtuais sendo travadas no plano internet e pessoas estimuladas todos os dias pelo presidente a irem às ruas, passamos não só a ampliar riscos palpáveis, como nos colocamos deitados no meio de uma rodovia repleta de carros.

Ao contrário da gripe espanhola, tivemos a primazia de acompanhar o que acontece em outros países em tempo real.
Depois não se alegue ignorância.

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