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Medicação
Natal vai distribuir medicamento sem comprovação científica contra a Covid-19
Proposta é a de adotar a ivermectina, um antiparasitário, como medida profilática contra doença, porém sem comprovação científica sobre a eficácia contra a infecção do novo coronavírus; Prefeitura do Natal anunciou a distribuição de mais de 1 milhão de compridos do remédio nas unidades básicas de saúde do município e em Centro de Profilaxia
Redação
01/07/2020 | 05:05

O ginásio Nélio Dias, na zona Norte de Natal, vai abrigar ainda esta semana um centro de profilaxia e tratamento para a Covid-19. Segundo o prefeito de Natal, Álvaro Dias (PSDB), que também é médico, a proposta é a de distribuir no local a ivermectina, um medicamento antiparasitário, como medida profilática contra doença. No entanto, não há comprovação científica sobre a eficácia do fármaco contra a infecção do novo coronavírus.

“Vamos iniciar um trabalho de distribuição em massa da Ivermectina, com todo o acompanhamento médico necessário. Está comprovado que esse medicamento é eficaz na prevenção do coronavírus e vamos usar essa arma em nosso favor para vencer a guerra contra essa pandemia”, explicou Álvaro Dias, em publicação no Twitter.

A criação do centro de profilaxia foi aprovada pelo Comitê Científico de combate à Covid-19 Município. O colegiado é formado por representantes da classe médica da capital. Após anuência dos especialistas, em reunião que ocorreu no último domingo (28), a prefeitura municipal decidiu adotar a ivermectina como medida profilática contra a doença viral.

Segundo o titular da Secretaria Municipal de Saúde, George Antunes, serão adquiridos 1 milhão de comprimidos de ivermectina. O fármaco será distribuído no centro de tratamento do Ginásio Nélio Dias e nas unidades básicas de saúde. A distribuição, ainda de acordo com o município, será feita mediante prescrição médica.

O infectologista e imunologista potiguar Fernando Suassuna, entretanto, é um dos entusiastas do uso da ivermectina. De acordo com o médico, que vem a estudando há alguns meses, em laboratório, a medicação, em até 48h, “consegue eliminar 97% dos vírus dentro das células e 94% no sobrenadante das células. Seria uma ação efetiva e rápida”, comentou.

No entanto, apesar do uso do medicamento já ocorrer em diversas partes do Brasil no controle da Covid-19, a ivermectina não tem comprovação científica de eficácia contra o coronavírus. Até o momento, um dos poucos estudos relacionados com o fármaco foi produzido em abril pelo Biomedicine Discovery Institute (BDI) da Monash University, em Melbourne, na Austrália. A análise mostrou que a droga tem atividade antiviral contra o vírus causador da Covid-19. No entanto, as pesquisas preliminares foram feitas apenas “in vitro”, em análises laboratoriais, sem a promoção de testes em seres humanos.

Além disso, os pesquisadores australianos apontam que o medicamento não deve ser usado em seres humanos para combater a Covid-19 sem testes clínicos. “O potencial uso da ivermectina no combate da Covid-19 continua sem comprovação. A utilização depende dos resultados de testes pré-clínicos e ensaios clínicos para o progresso dos trabalhos”, detalhou a pesquisa.

Segundo informações da Liga Acadêmica de Medicina Tropical e Infectologia da Universidade Federal da Paraíba (Lamti-UFPB), para inibir a replicação do coronavírus, nas análises laboratoriais, a concentração plasmática do medicamento precisa de 2,2 mil nanogramas por mililitro (ng/ml). A instituição aponta, no entanto, que dois comprimidos de ivermectina têm apenas 25 ng/ml.

Desta forma, segundo o comparativo feito pelos pesquisadores paraibanos, para conseguir impedir o contágio, o indivíduo teria de ingerir 176 comprimidos de ivermectina. “Essa posologia seria inantingível. Sem contar que 98% da dose administrada de ivermectina é excretada pelas fezes sem sofrer absorção”, aponta a Lamti-UFPB.

O médico infectologista Alexandre Motta, que atua no Hospital Giselda Trigueiro, unidade de referência para o atendimento de pacientes com a Covid-19 no Estado, também condena o uso profilático do medicamento em pacientes acometidos com infecção do novo coronavírus. “Desperdício de recursos públicos de algo sem comprovação científica que vai gerar nas pessoas uma falsa sensação de proteção e uma elevação dos níveis de contaminação”, pontuou.

Segundo a bula do medicamento, a droga não pode ser usada por pessoas que sejam alérgicas (ou tenham conhecimento de que alguém da família tenham tido reação semelhante) ao seu princípio ativo ou a qualquer outro componente de sua fórmula. Além disso, alguns indivíduos podem sofrer com diarreia, náuseas, dor abdominal, falta de apetite, entre outros.

Procurada pela Agora RN, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aponta que a ivermectina está registrada apenas para o combate de infecções causadas por parasitas. Sobre a prescrição para a Covid-19, o órgão informa que a utilização não está registrada contra essa doença, sendo, desta forma, não reconhecida pela agência como eficaz contra ela.

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