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Marcelo Hollanda
Muito filé mignon, picanha, salmão e caviar em 2022: é o que deseja o Ministério da Defesa ao povo brasileiro
Confira a coluna de Marcelo Hollanda desta sexta-feira 31
Marcelo Hollanda
31/12/2021 | 08:41

Um 22 repleto de picanha e salmão
Muito filé mignon, picanha, salmão e caviar em 2022. Muita bebida boa também que não seja cachaça servida em latinha ou em ‘burrinho’. É o que deseja o Ministério da Defesa ao povo brasileiro.

Se custar caro, é só recorrer à verba da covid.

Dito e feito: R$ 535 mil em itens essenciais à sobrevivência humana, segundo apurou uma auditoria do TCU (Tribunal de Contas da União). A Folha obteve o relatório da Selog (Secretaria de Controle Externo de Aquisições Logísticas) num cochilo do governo, que se esqueceu de colocar 100 anos de sigilo sobre ele.

A investigação sobre supostas irregularidades na aquisição de gêneros alimentícios desde 2017 acertou em cheio nas Forças Armadas e em seus gastos com comida justamente em 2020, ano 1 da pandemia.

Comércio fechando as portas, gente morrendo à penca nos hospitais e em casa, enquanto isso, picanha e ‘birita’ de 12 anos rolava à solta junto com cloroquina para dar conta da ‘gripezinha’ que assolava o país.

Não fique em casa. Qualquer problema, as Forças Armadas oferecem um excelente convênio médico e muita picanha, bacalhau, salmão, camarão e bebidas alcoólicas… Para os oficiais, é claro, já que nunca se viu um soldado raso consumindo essas iguarias.

Crianças sem aula e sem merenda e hospitais abarrotados de gente não mereceram o mesmo tratamento. Mas o Ministério da Defesa, sim.

Quando se esperava uma redução geral de despesas como resultado do trabalho a distância das repartições públicas, eis que não. Com a seguinte explicação oficial: alimentar o Exército, a Marinha e a Aeronáutica.

A análise autorizada pelo ministro Walton Alencar Rodrigues, do TCU, relator do caso na corte, constatou que, dentre os órgãos superiores dos três Poderes, a Defesa foi a que mais gastou com compra de itens considerados não essenciais (de luxo vamos combinar).

Parte do dinheiro para essas aquisições de primeira necessidade veio da ação orçamentária “21C0 – Enfrentamento da Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional decorrente do Coronavírus”.

A rubrica foi criada em 2020 para custear políticas públicas de saúde de combate à covid. Um escândalo completo.

Polidamente, em seu relatório final, os técnicos do TCU registraram a ausência de critérios objetivos, justificativa razoável ou motivação clara para a aquisição de camarão, caviar (isto mesmo!), picanha e bebidas alcoólicas.

“Além de não servir à finalidade a que se destina, a contratação desse tipo de insumo fere o princípio da moralidade previsto no art. 37 da Constituição Federal de 1988, o qual está diretamente relacionado à integridade nas compras públicas”, diz o relatório.

Não fosse cômico, seria trágico. Só que é cômico e trágico ao mesmo tempo.

Resposta
Em nota, a assessoria de imprensa do Ministério da Defesa disse apenas que atuou no enfrentamento da pandemia. “(…) foram empregados cerca de 34 mil militares em todo o território nacional em atividades como desinfecção de locais públicos; distribuição e aplicação de vacinas; campanhas de doação de sangue; entrega de kits de alimentação e de higiene; transporte de pacientes, oxigênio e de itens de saúde”, afirmou a nota publicada pela Folha. 34 mil militares muito bem alimentos – faltou dizer. Duro acreditar que o salmão e o caviar tenham ido para todos. “Por fim – argumenta a nota -, cabe destacar que os questionamentos solicitados estão baseados em relatório preliminar, que ainda será apreciado por ministros do Tribunal de Contas da União, no qual esta pasta já apresentou os devidos esclarecimentos.”

Fome é fome
Segundo o IBGE, 55% da população brasileira, quando acorda pela manhã não sabe se vai comer durante o dia. Destes, 10% não conseguiram comer o suficiente para se manter em pé. São 19 milhões de brasileiros em situação de fome no País, de acordo com dados de 2020 da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Penssan). A comparação com 2018 (10,3 milhões) revela que são nove milhões de pessoas a mais nessa condição.

Política de Estado
Lembrem-se os desmemoriados que, quando assumiu, Bolsonaro extinguiu o Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), que tinha a atribuição de propor ao governo federal as diretrizes e prioridades da política de segurança alimentar e nutricional. Sabe como é: cálculo político sempre prevalece sobre políticas de Estado.

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