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Covid-19
Mesmo reconhecendo que a pandemia não acabou, Boris Johnson anuncia fim de medidas de restrição na Inglaterra
A partir do dia 19, não será mais necessário usar máscaras ou manter um metro de distância no país; impulsionados pela variante Delta, casos aumentaram 146% nas últimas duas semanas
Redação
05/07/2021 | 16:21

Todas as medidas de restrição para conter a Covid-19 serão suspensas na Inglaterra no próximo dia 19, anunciou o premier Boris Johnson nesta segunda, traçando a última etapa do desconfinamento britânico após 16 meses de limitações. O alívio, que alguns especialistas teme ser precipitado e excessivo, coincide com um aumento de 146% nos novos diagnósticos no país, impulsionado pela variante Delta, cerca de 60% mais contagiosa.

A decisão sobre o desconfinamento será confirmada no dia 12, mas não há qualquer indício de que o governo irá voltar atrás: daqui a duas semanas, salvo uma reviravolta brusca, não será mais obrigatório usar máscaras ou manter um metro de distância, por exemplo. Boates e teatros poderão reabrir, e a recomendação para o trabalho remoto será abolida, assim como os limites para aglomerações.

O próprio premier reconhece que a pandemia esta longe do fim, começando sua entrevista coletiva com o alerta de que os novos casos podem duplicar nas próximas duas semanas, chegando a 50 mil por dia, e que será necessário se “reconciliar com mais mortes”. Ainda assim, ele disse crer que a campanha de vacinação britânica já está suficientemente avançada e deve continuar a evitar uma piora drástica das internações e óbitos.

— A pandemia está longe de terminar, e certamente não acabará até o dia 19 — disse Boris, afirmando que é hora de “aprender a viver” com o vírus. — No entanto, deveremos ser honestos com nós mesmos. Se não reabrirmos nossa sociedade nas próximas semanas, quando seremos ajudados pela chegada do verão e pelas férias escolares, então quando poderemos voltar ao normal?

O alívio vale apenas para a Inglaterra, que concentra 55 milhões dos 66 milhões de habitantes do Reino Unido, já que Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte estabelecem seus próprios cronogramas de restrições.

Como um todo, o país já aplicou ao menos um dose em 66,7% de seus habitantes. Quase metade da população já recebeu as duas doses — uma das maiores taxas do planeta e a segunda maior do continente europeu, atrás apenas de Malta. O plano é que, nas próximas duas semanas, todos os adultos já estejam aptos para se vacinar e ao menos dois terços tenham tomado as duas doses.

— Eu não quero que as pessoas achem que este é o momento para ficar eufórico. Estamos muito longe de não precisar mais lidar com o vírus — disse Boris, afirmando que diretrizes futuras sobre regras mais brandas para viagens ao exterior e diretrizes para a volta às aulas deverão ser anunciadas ao longo da semana.

Policiais realizam operação de resgate e busca no local de um deslizamento de terra causado por fortes chuvas no distrito de Izusan em Atami, Japão Foto: KYODO / via REUTERS
Policiais realizam operação de resgate e busca no local de um deslizamento de terra causado por fortes chuvas no distrito de Izusan em Atami, Japão Foto: KYODO / via REUTERS
Parada do Orgulho LGBTQIA+ em Bogotá, Colômbia Foto: JUAN BARRETO / AFP
Parada do Orgulho LGBTQIA+ em Bogotá, Colômbia Foto: JUAN BARRETO / AFP
O presidente francês Emmanuel Macron cumprimenta o presidente italiano Sergio Mattarella nos jardins do Palácio do Eliseu durante uma visita oficial a Paris Foto: LUDOVIC MARIN / AFP
O presidente francês Emmanuel Macron cumprimenta o presidente italiano Sergio Mattarella nos jardins do Palácio do Eliseu durante uma visita oficial a Paris Foto: LUDOVIC MARIN / AFP
O presidente dos EUA Joe Biden posa para uma selfie com convidados após fazer um discurso durante as celebrações do Dia da Independência no gramado sul da Casa Branca em Washington Foto: ANDREW CABALLERO-REYNOLDS / AFP
O presidente dos EUA Joe Biden posa para uma selfie com convidados após fazer um discurso durante as celebrações do Dia da Independência no gramado sul da Casa Branca em Washington Foto: ANDREW CABALLERO-REYNOLDS / AFP
Pessoas se abraçam durante implosão do edifício que desabou parcialmente em Surfside, Flórida, ao norte de Miami Beach, EUA. Ainda há busca por vítimas Foto: CHANDAN KHANNA / AFP
Pessoas se abraçam durante implosão do edifício que desabou parcialmente em Surfside, Flórida, ao norte de Miami Beach, EUA. Ainda há busca por vítimas Foto: CHANDAN KHANNA / AFP
Densa fumaça escura
de uma explosão em uma fábrica de plásticos é vista ao lado de estátua de Buda, em Bangcoc, Tailândia Foto: LILLIAN SUWANRUMPHA / AFP
Densa fumaça escura de uma explosão em uma fábrica de plásticos é vista ao lado de estátua de Buda, em Bangcoc, Tailândia Foto: LILLIAN SUWANRUMPHA / AFP

Terceira dose em setembro

O passo derradeiro do desconfinamento estava previsto para o dia 21 de junho, mas foi adiado diante do crescimento dos casos no país. O Reino Unido registra hoje uma média de 24,5 mil diagnósticos diários, mas as mortes e internações não crescem na mesma proporção: o coronavírus mata em média 17 britânicos por dia. A maciça parte dos internados, disse Boris, continua a ser pessoas não vacinadas.

As vacinas usadas no país são eficientes contra a variante Delta: segundo uma pesquisa preliminar divulgada em junho pelo sistema de saúde inglês, as duas doses da Pfizer-BioNTech evitam internações em 96% dos casos e as duas injeções da Universidade de Oxford-AstraZeneca, em 92% dos pacientes.

Uma injeção única, no entanto, teria apenas 33% de eficácia para conter novas infecções, o que levou o governo a acelerar a aplicação da segunda dose. No último dia 14, havia reduzido o intervalo entre os inoculantes de 12 para oito semanas para todos com mais de 40 anos. Nesta segunda, anunciou que o mesmo valerá para as faixas etárias inferiores.

Em paralelo, Boris confirmou que o governo irá aplicar doses de reforço em todos com mais de 50 anos ou com comorbidades a partir de setembro, na antecipação dos meses de outono e inverno. Não se sabe ao certo por quanto tempo as doses anti-Covid conferem imunidade, mas já em muitos países já se discute a necessidade de novas doses para reforçar a resposta imunológica, algo que pesquisas vêm mostrando ocorrer.

— Queremos estar na linha de frente das doses de reforço contra a Covid-19 para reduzir ao máximo possível a probabilidade de perda de protção devido ao enfraquecimento da imunidade ou de novas variantes — disse Jonathan Van-Than, vice-chefe médico da Inglaterra na semana passada.

Decisão precipitada?

Antes mesmo de Boris anunciar os detalhes do desconfinamento, especialistas e grupos sindicais já demonstravam temores de que as concessões do governo fossem demasiadamente lenientes. Apenas algumas poucas restrições permanecerão em vigor, como a obrigatoriedade do autoisolamento para quem testar positivo e o uso de máscaras nos postos de entrada no país.

Ao Financial Times, Stephen Webb, presidente da Sociedade de Tratamento Intensivo, disse temer que a ênfase do governo na responsabilidade da população pode causar certo descaso na população. A seu ver, é necessário manter um nível de alerta, e que o governo sinalize para as pessoas que a “Covid ainda é muito infecciosa e mortal”. Já Katherine Henderson, presidente da Faculdade Real de Medicina de Emergência, disse que o plano do governo demonstra um nível excessivo de “triunfalismo”.

— Se o governo ceder completamente a responsabilidade, nós teremos problemas — afirmou à rádio BBC Stephen Reicher, um dos conselheiros científicos de Downing Street. — Para que as pessoas ajam com responsabilidade, a informação é crítica, mas os recursos também (…). Meu medo é que quando o governo te diz para agir com responsabilidade, pode parecer que eles estão dizendo que não levarão a responsabilidade deles a sério.

Já o sindicado Unite, que reúne 1,4 milhão de funcionários do setor de transportes, emitiu um apelo para que o governo repense o fim da obrigatoriedade do uso de máscaras nos transportes públicos. Segundo o grupo, a decisão oficial é “absolutamente ridícula” e um “grande ato de negligência”. Também em entrevista à BBC, um representante do sindicato da Associação Médica Britânica concordou:

— Não faz sentido parar de usar máscaras em ambientes públicos fechados, como no transporte público — afirmou Chaand Nagpaul, o presidente do órgão. — E, no que diz respeito à “escolha pessoal”, lembrem-se que o uso de máscaras em público não protege predominantemente quem a usa, mas aqueles ao seu redor.

O líder da oposição, o trabalhista Keir Starmer, também criticou a decisão. Para ele, algumas medidas legais, como a obrigatoriedade das máscaras no transporte público, deveriam ser mantidas.

— É irresponsável simplesmente descartar todas as proteções quando a taxa de infecção está subindo — afirmou.

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