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Relatos
Médica potiguar fala sobre os dramas do trabalho em UTI para casos de Covid-19
Afastada do trabalho após ter se infectado com o novo coronavírus, a intensivista Camila Costa conta sua experiência durante pandemia em Natal. 'Nunca achei que pudéssemos ter alguma doença que fosse transformar tanto o mundo”, disse
Ana Lourdes Bal
01/06/2020 | 05:00

“Nunca, em 18 anos de formação e 24 anos atuando em hospitais, achei que um dia pudéssemos ter alguma doença que fosse transformar tanto o mundo”, diz Camila Costa, médica que atua em Unidades de Terapia Intensiva (UTI) durante a pandemia do coronavírus em Natal. Além disso, ela também atua em dois serviços privados em Natal e acompanha todos os pacientes internados de um plano de saúde na cidade.

Ela conta que as UTIs atuais não são as mesmas de três meses atrás. “Os espaços adaptados para atender aos pacientes portadores e com suspeita de Covid-19 têm uma energia diferente”, fala.

Pelas recomendações do Ministério da Saúde, o dimensionamento mínimo em uma UTI é de um médico para cada dez pacientes e também deve haver um diarista que passe visitas diárias para auxiliar o plantonista em tomadas de decisões.

“Ser intensivista é uma tarefa árdua, que denota uma carga horária de trabalho muitas vezes exaustiva. 12, 24 horas seguidas de plantões… Muitas vezes são plantões que não dormimos durante a noite devido à quantidade de intercorrências e admissões. Eu comecei a dar plantões em UTIs na residência médica e me lembro que foi paixão a primeira vista. Poder salvar doentes críticos e recuperar pessoas de um estado muito grave e dar a elas a chance de um retorno a sua vida normal”, descreve a médica.

“Infelizmente, nós também temos que aprender a lidar com as perdas, os insucessos e essa sem dúvida é a parte mais difícil de trabalhar numa UTI”, complementa.

Desde março, os médicos foram alertados sobre a gravidade da pandemia, então, foram realizados treinamentos e protocolos específicos com eles para evitar a contaminação e diminuir as chances de contágios. Porém, reforça a médica, sabe-se que a maioria das pessoas é assintomática. O problema é que essas pessoas podem continuar disseminando o vírus. O aumento de contágios tem reflexo no número de pessoas que necessitarão de atendimento hospitalar.

“Tanto os equipamentos de proteção individual (EPIs) foram padronizados, como também técnicas de sedação e para diminuir a eliminação de aerossóis (gotículas de saliva e secreções do trato respiratório), que são muito comuns nessa doença e no ato de intubação”, explica Camila.

Com a experiência durante este momento, a profissional de saúde conta que pessoas que chegam após mais de dez dias, geralmente, tem um maior risco de apresentar inflamações pulmonares mais graves e podem ter insuficiência respiratória. Porém, sabe-se que a maioria das pessoas é assintomática. O problema é que essas pessoas podem continuam disseminando o vírus. “Todos os dias que entro em um leito Covid, eu me emociono de alguma forma. Na sexta-feira passada, eu estava de plantão na UTI Covid de um dos hospitais privados que trabalho, passando leito a leito com o telefone e fazer videochamada com os familiares”, relata.

Com a ação, os parentes podem ter notícias dos internados e também podem vê-los. “Isso gera uma emoção muito grande. Um mix de angústia em não saber se aquela pessoa será uma sobrevivente da doença e também de emoção em realmente ter empatia naquele momento”, desabafa.

A doutora explica que há muita satisfação ao dar uma alta e ver pessoas que estavam em um quadro grave, de volta à vida. Mas também há aquelas pessoas que chegam andando e que, em poucos dias, acabam chegando a óbito. “Até agora, nos meus plantões só houve um óbito, mas isso já me deixou abalada. Imagina os colegas que tem 4, 6, 10 óbitos em um dia em um único hospital”, afirma.

“Minhas filhas me pediram chorando para largar meu trabalho”

Durante a entrevista realizada no dia 23 de maio, Camila contou que vários dos seus colegas, médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem e outros que estão na batalha contra a doença, estão adoecendo. Alguns, com sintomas leves. Já outros, estão bastante graves e com uma evolução fatal.

Entretanto, ela se somou ao número de profissionais que acometidos pela doença. No último dia 29, a médica entrou em contato com a reportagem com uma foto de um teste com resultado positivo para coronavírus. “Mais uma soldada ferida, espero que não abatida”, disse ela. A médica agora está descansando em casa, contou estar sentindo dores no corpo e febre. Além disso, está isolada dos seus familiares, mas nenhum deles teve sintomas.
“O isolamento dos familiares é o mais difícil”, afirma.

Camila mora com seu esposo e suas duas filhas, de 11 e 15 anos. “Não aguentaria de forma alguma nesse momento estar longe da minha família. São eles que me erguem quando estou mais cansada, que me dão resiliência para ser forte e aguentar a rotina extremamente exaustiva com as inúmeras horas de trabalho”, relata.

Ela diz que não vê seus pais desde a metade de março. Pelo medo dela ou algum integrante da família serem assintomáticos, prefere não arriscar. “Por muitas vezes, minhas filhas me pediram chorando para eu largar meu trabalho durante essa pandemia. É entristecedor vê-las preocupadas e sofrendo com medo de perder a mãe”, encerrou a médica.

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