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Coluna
Marcelo Hollanda: Do comediante ao autocrata
Veja a coluna de Marcelo Hollanda da edição deste sábado 26 do Agora RN
Marcelo Hollanda
26/02/2022 | 10:17

O presidente da Polônia, Volodymyr Zelensky, está mais para Jair Bolsonaro do que para Vladimir Putin. E por quê? Ele é um comediante por formação profissional e, como o presidente brasileiro, às vezes fala coisa engraçadas e incompreensíveis; enquanto isso, o mandatário da Rússia é um premeditado e o que ele diz tem consequências sérias. Cada passo que Putin dá é cuidadosamente planejado, enquanto Zelensky continua representando e Bolsonaro falando bobagens ou ficando calado quando deveria dizer alguma coisa. Vejamos.

Mesmo vencido sem dificuldade pelo gigante aparato soviético, Zelensky não hesitou em mandar distribuir armas aos civis, proibir a fuga de ucranianos de 18 a 60 anos do país e resistir até a morte. Menos de 48 horas depois pediu arrego para Putin e quer negociar, inclusive abrindo mão da possível entrada de seu país na Otan.

Essa posição ele já negociava há dias via o presidente da França, Emmanuel Macron, ao mesmo tempo em que chorava ter sido abandonado pela Otan, que já tinha descartado um confronto direto com os russos. Zelensky agiu como um verdadeiro Bolsonaro. Todo mundo sabe por que Putin resolveu avançar sobre a Ucrânia em função da ganância da Otan sobre os países ligados à ex-União Soviética depois da queda do muro de Berlim. Até as pedras sabem que o autocrata russo pensa da unificação da Alemanha na condição de ex-agente da KGB na parte Oriental.

Mas, voltando à tese da semelhança de Zelensky com Bolsonaro. Colocar o dos outros na reta – para usar uma expressão chula, mas eficiente – é a especialidade de Jair Bolsonaro e também a do presidente ucraniano, ao que parece. O resultado triste é que quando os primeiros tanques Estrela de 12 toneladas entraram nesta sexta-feira em Kiev, capital da Ucrânia, amassando tudo que viam pela frente, não houve resistência significativa até onde se sabe.

Quem foi armado com seu estilingue para as ruas, aceitando a exortação de Zelensky, ou está preso ou está morto. Convenhamos, Bolsonaro é um Zelensky brasileiro, embora seu alter ego esteja grudado em Putin, aquele cujos dotes masculinos e misóginos o presidente brasileiro tanto aprecia e cultiva. Só que Jair está a léguas de distância de Vladimir e bem pertinho do comediante Volodymyr, cujo personagem na televisão era um presidente bobão, porém honesto, mas que pela popularidade virou presidente da agora esfrangalhada Polônia. Nem tão bonzinho e honesto, Bolsonaro virou presidente do Brasil.

LADO ERRADO. Não é de hoje que Bolsonaro costuma estar do lado errado da história. É quase um hábito dele. Como bem lembra a economista Laura Karpuska, economista graduada pela FEA-USP e Ph. D. pela Universidade do Estado de Nova York em Stony Brook, em 1994, ele votou contra o Plano Real; em 1995 e 1996 votou contra PECs importantes que acabavam com o monopólio estatal sobre o petróleo e telecomunicações. Não tem nada de liberal e é um reacionário de carteirinha.

EFEITO UCRÂNIA. Com a invasão pela Rússia da Ucrânia, dois principais produtores e exportadores de trigo do mundo, os preços do pãozinho nas padarias e de alimentos base do cereal devem ter alta de preço no Brasil. Já com a gasolina, nem se fale.

DE NOVO. Humilhado em público mais uma vez pelo capitão Bolsonaro, o vice-presidente e general Hamilton Mourão não vai responder à afirmação do presidente sobre a invasão da Rússia pela Ucrânia, segundo adiantou nesta sexta-feira a colunista Malu Gaspar de O Globo. Na tarde de quinta-feira, Mourão comparou a ação de Vladimir Putin à de Hitler, antes da Segunda Guerra Mundial, e assegurou que o Brasil “não está neutro em relação à Ucrânia”.

FREUD EXPLICA. Depois de quase ser expulso das Forças Armadas por indisciplina e por um suposto plano de explodir a represa do Guandu e de quartéis por melhores salários, o capitão Bolsonaro adota humilhações a superiores. Naquela época não foi possível, mas desde que foi eleito em 2018 essa humilhação de patentes superiores virou um hábito do presidente.

SEM PLANO. Até o momento, o Brasil não tem a menor ideia do que vai fazer para ajudar os brasileiros reféns em bunkers na Ucrânia. A Embaixada no país só manda os cidadãos do país se cuidarem, andarem pela sombra. Um belo conselho, muito tranquilizador, diga-se.

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