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Declaração
Mandetta alerta que plano de Pazuello é “igualzinho ao da gripe”
Segundo o médico, o Plano Nacional e Imunização apresentado pelo ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, é uma cópia do plano de vacinação da gripe
Estadão
09/12/2020 | 14:45

Em conversa com o BRP, o ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta lamentou nesta quarta 9 a falta de um plano nacional de vacinação para imunizar a população brasileira de forma célere e científica contra a covid-19, uma vez que duas importantes agências reguladoras de saúde no mundo, a dos EUA e do Reino Unido, deram sinal verde para o imunizante produzido pela Pfizer. Segundo o médico, o Plano Nacional e Imunização apresentado pelo ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, é uma cópia do plano de vacinação da gripe. Leia a íntegra do papo.

BRP – Do ponto de vista médico, o que significa o Brasil ficar atrás no processo de imunização da população?

Luiz Henrique Mandetta – Significa que vamos ter mais casos por mais tempo. Isso aí implica numa série de desdobramentos, por exemplo, se você não tem um quociente de vacinação, como vai fazer viagem internacional, como você vai receber os congressos científicos, como você vai participar das trocas de experiências mundiais? Você perde integração. Se você continua tendo a doença de forma endêmica, continua tendo casos e os outros países vão zerando, você começa a ter restrição de viagem de seus habitantes.

O Brasil priorizou a vacina da AstraZeneca (Oxford). Pensando na rapidez da Pifzer, como funciona essa relação entre agências regulatórias do mundo?

Você tem várias maneiras de fazer a certificação e dar o registro. Uma delas é por acordos entre agências. Elas são todas ranqueadas, tipo A, B, C ou D. A inglesa é uma das pioneiras do mundo em regulação. O padrão dela é muito alto. Não teria problema nenhum em se guiar pelos critérios da Inglaterra. É só o governo pedir ao país que se compartilhe os dados e os analise com lupa.

Desde que eu estava no ministério, a única questão que se solicitava à Anvisa era que ela, como estamos em situação de emergência, de calamidade, não poderia manter seus ritos burocráticos intactos, que ela fizesse as análises das vacinas junto ao desenvolvimento, ou seja, enquanto o produtor vai fazendo, a Anvisa vai certificando para que na hora que se consolide o documento, ela já esteja com o processo analisado. Mas não, ela ficou sentada em Brasília, esperando o papel. Se a agência americana, que é a maior do mundo, a FDA, tem o registro, você acha que a Anvisa tem que aguardar?

Me parece um erro de compasso, de estratégia. Paralelo a isso, politizaram a vacina Coronavac (parceria entre China e Instituto Butantan).

A preocupação maior que eu tenho é que estávamos caindo e voltamos a subir. É uma continuidade da primeira onda porque a segunda só vem depois que você zera, e nós nunca zeramos. É um repique. Agora o momento mais dramático é outono e inverno, a partir de março e abril, quando começa a sazonalidade. Se entrarmos com baixa vacinação no outono e inverno, nós vamos ter, aí sim, uma segunda onda muito grande.

E me preocupa também o fato de que, não sei se é fato ou não, de que não adquiriram as seringas e as agulhas. E você tem 8 bilhões de pessoas no mundo e todos querem vacinar. Não vai ter seringa e agulha. Perigoso você fazer a licitação agora e dar vazio.

Acredita que só em 2022 seremos todos vacinados?

Acho que vamos atravessar 2021, mas não acredito que cheguemos em 2022 porque o SUS tem uma coisa que muitos países não têm: uma rede pronta para vacinar. Você tem um carro que roda bem, que tem piloto bom, mas o dono do carro não põe gasolina, então o carro não anda. Como os laboratórios, a partir do momento que vai havendo demanda, eles vão produzindo, acho que vai chegar uma hora em que o governo vai ter de comprar. Na hora dessa compra, a única coisa que eu posso lhe dizer é que você tem um sistema de saúde que é muito bom em vacina. O SUS tem uma história, mas eles (governo) não estão usando a expertise do SUS em vacina para fazer o plano de vacina. Se perderam.

Eles apresentaram um plano igualzinho ao da gripe. Por favor, essa (situação) agora é mais complexa. Primeiro que não vamos ter uma única marca de vacina que vai suprir a necessidade inteira. Se você não tem freezer com -70 graus (exigido pela vacina da Pfizer) em cidades pequenas, utilize essas vacinas nas cidades médias e grandes. Nas cidades de pequeno porte, utilize a vacina de 4 a 8 graus, já que tem geladeira até na aldeia indígena dos Yanomamis.

Depois você tem que pegar os grupos de risco maiores, que são os idosos, e fazer a distribuição por faixa etária, gradativamente cobrindo por risco, já que não haveria para todos. Eles não fizeram nada disso. Foram pressionados para fazer um plano, pegaram o plano da gripe que se faz anualmente e falaram que vai ser esse aí.

Ao meu ver, o grande tropeço da ideia deles é que eles apostaram na da Oxford, botaram muito dinheiro. O Bolsonaro chegou até a comemorar, dizendo que ganhou do Doria. Na hora que a AstraZeneca foi mostrar a fase 3, aconteceu um erro, em vez de dar dose inteira, deu meia dose. Disse que os que tomaram meia tiveram resposta melhor que inteira. Mas, espera, a comunidade cientifica cobrou e apontou a falha grotesca do protocolo. Isso atrasou o processo.

Por isso a Coronavac está chegando na fase 3 e a da AstraZeneca está ficando para março. Eles não querem assumir que a primeira vacina é a Sinovac, e estão tentando ganhar tempo para ver se empurra a Coronvac para frente e antecipa ao máximo a outra. Saindo as duas, vão dizer que o critério é preço. Como já pagou por uma, vão dizer que não vão querer pagar duas vezes.

É burro porque não tem dose suficiente nem da Pfizer, nem da Coronavac, nem da AstraZeneca. O ministério teria que fazer um pool para comprar as três. E preparar a estratégia, que é diferente para cada uma das vacinas. Não é fácil essa logística. É para gente profissional. Não adianta falar que vai botar um milico lá especializado em logística porque ele vai se ferrar.

E não funcionou, como visto com os testes encalhados.

Acho que ele (Eduardo Pazuello) é especializado em balística, e confundiram com logística. É um papelão. É igual você pegar um médico e colocar para ser ministro da Defesa. Médico não é feito para matar. O outro aprendeu a matar, mas estão querendo que o cara se vista de branco e cure a população. Não vai curar. Não é a praia dele, não conhece os personagens, não sabe quem é quem. As pessoas olham com desconfiança. O pessoal do Mercosul às vezes me liga, perguntando onde está fulano ou ciclano. Eu digo: é isso aí, vai tocando, esquece um pouco o Brasil.

O Brasil sempre liderou no tema da vacinação. Tinha que estar falando de pool de fábrica para vacinar todo mundo, no Paraguai… politicamente seria interessante. Agora, briga com todo mundo, dizendo que a OPAS só tem gente de esquerda, que a Fiocruz só tem comunista, a USP só tem comunista… é uma paranoia. O Brasil vai assim se isolando, como em vários outros temas. Esse é só mais um. https://outline.com/NanyP9

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