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Ciência
Mais da metade dos casos de câncer podem ser explicados por ‘guardiã do genoma’; entenda
Pesquisa abre novas vias para o diagnóstico e o tratamento da doença; por sua relevância, estudo foi capa da edição mais recente da revista Chemical Science
O Globo
08/06/2021 | 15:26

Cientistas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) descobriram um fenômeno relacionado ao surgimento de mais da metade dos casos de câncer do mundo. São alterações numa ligação chamada P53, uma das mais essenciais do organismo, considerada uma guardiã do genoma. Trata-se de pesquisa básica, mas abre novas vias para o diagnóstico e o tratamento do câncer.

Por sua compreensão na compreensão dos mecanismos do câncer, o estudo mereceu a capa da edição mais recente da revista Chemical Science, referência na área de química aplicada à biologia e à medicina e publicada pela Royal Society of Chemistry, do Reino Unido.

Normalmente, a P53 não existe em grande quantidade no organismo. Mas, quando alterada, ela perde sua função principal original – a de evitar a multiplicação de células doentes e, assim, suprimir o câncer – e forma aglomerados cancerígenos.

A descoberta foi realizada por meio da análise da estrutura na pesquisa de nível atômico. O grupo da UFRJ verificou que os aglomerados surgem em função de um processo bioquímico chamado mudança ou transição de fase, na qual uma proteína passa de um estado para outro. Quando defeituosa, um P53 passa do estado líquido para uma espécie de gel e até para o sólido e aí, tudo começa a dar errado.

– A partir dessa mudança de fase errada, um P53 começa a alterar outras proteínas, gera uma bagunça nas células, e o desfecho trágico é o câncer – explica o coordenador do estudo Jerson Lima Silva, professor titular do Instituto de Bioquímica Médica Leopoldo de Meis e do Centro Nacional de Biologia Estrutural e Bioimagem da UFRJ.

A proteína P53 é ligada pelas células que decodificam as instruções de um gene chamado TP53. Este é um gene supressor de tumores. Sua função é manter o organismo em ordem. Não sem motivo, o TP53 e sua proteína são guardiões do genoma. A P53 tem muitas funções, todas essenciais. Ela é tão importante que, quando alterada, também está envolvida em outras doenças, como mal de Parkinson e esclerose lateral amiotrófica.

Uma das funções do P53 é interromper o ciclo de vida de uma célula, caso esteja errado. Outra é reparar o DNA. Ela interage com outras proteínas. E, caso uma célula esteja além da salvação, a P53 entra em cena para deflagrar um mecanismo chamado apoptose. Este nada mais é do que o suicídio celular. A P53 normalmente manda que as células doentes se matem e, com isso, mantém o corpo saudável.

Origem do surgimento de tumores

Por uma série de motivos, um P53 pode trocar o papel de guardião pelo de vilã. O resultado é que, em vez de suprimir células cancerosas, ela passa a liberá-las. A P53 é tão importante, que se estima estar para trás de mais da metade dos casos de câncer do mundo, como certos tipos de tumores de mama, ovário e próstata, além de linfomas e leucemias.

Células cancerosas representam tudo o que pode dar errado. Elas não cumprem suas funções, roubam nutrientes de outras células e determinam uma rede própria de vasos sanguíneos para se nutrir. Elas se multiplicam descontroladamente – e, por isso, formam, tumores. Também pode se esconder do sistema imunológico, que normalmente detecta e células defeituosas. E cometem ainda a pior das rebeldias. Elas não morrem quando estudadas. E, por isso, matam.

O grupo de Lima Silva descobriu não apenas que os agregados malignos de p53 são causados ​​pelo fenômeno da fase, quanto ele é precedido por processo. Este se chama separação de fases e acontece quando dois líquidos diferentes numa mesma solução se separam.

Esses fenômenos acontecem em escala microscópica, no interior das células. Eles são importantes para que as células cumprem suas funções. Uma vez que uma transição de fase para um estado sólido é formado, os agregados de P53 se tornam irreversíveis, tornam-se a se multiplicar e levam ao surgimento de tumores.

Estudo começou em 2003

O estudo, financiado pela Faperj e o CNPq, é o resultado de anos de trabalho, iniciado em 2003.

– É muito difícil trabalhar com a P53 porque ela está envolvida em processo de processos fundamentais de nosso corpo. Essa proteína é um verdadeiro caso médico que se transforma em monstro por mudanças muito sutis. Mas, seja para o bem ou para mal, ela é fundamental – afirma Lima Silva.

O estudo prossegue, mas o cientista explica que um de seus desdobramentos é permitir um prognóstico mais acurado do câncer, por meio da análise dos aglomerados. Outro é encontrar drogas que evitem os aglomerados. Segundo ele, existem substâncias que impedem a agregação da P53. Outras podem desfazer os agregados.

– Precisamos entender como acabar com os agregados sem interferir in outras funções da P53. Acreditamos que é possível e representa um caminho promissor, contra o câncer e também para o tratamento de doenças neurodegenerativas – diz o cientista.

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