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Artigo
L’amor Che Move Il Sole E L’altre Stelle (Dante)
Confira o artigo de Geraldo Ferreira desta quinta-feira 24
Geraldo Ferreira
24/03/2022 | 10:06

Houve a queda, a desobediência, e a sentença é aplicada. John Milton, em Paraíso perdido, compõe da voz de Deus: “Comerás do suor do teu rosto o pão, até que ao chão regresses, porque ao chão foste tomado, sabe de onde vens, pois, pó tu és, e ao pó regressarás”. Estabelece-se um conflito, Adão confronta Deus: “Pedi-te eu, Senhor, que ao barro por homem me tomasses, roguei-te eu das trevas promoção, ou transferência para o Jardim das delícias? Obscura parece essa justiça, em bom rigor, contesto”. A afronta prossegue: “Por que me trouxeste ao mundo, pedi-te?” Como perdoar o que aconteceu, como resgatar o homem, agora proscrito? Eis a grande questão. De alguma forma, tudo compreender é tudo perdoar, Adão transgressor de alguma forma seria também vítima. Albert Camus escreveu, em seu romance A Queda, uma perturbadora questão: se Deus, através do filho, teve que sofrer e morrer para que o homem pudesse ser perdoado, por que Deus faria isso?

Para sinalizar que os sofredores são como deuses, a divinização da vítima é a fonte da revolução. Jack Milles em Cristo, Uma Crise na Vida de Deus, em que analisa a Bíblia como enredo literário, observando como as coisas se enlaçam para estabelecerem um elo de coerência, desfere: “O mundo é um grande crime, e alguém deve ser obrigado a pagar por isso. Aquele, que no final é o responsável pelo mundo aceita sua responsabilidade.” E paga o preço, e elimina a culpa. Ninguém mais precisará ser punido, o mundo está perdoado. “Deus deve morrer, sim, contudo ele se levantará, e em seu túmulo vazio, onde ninguém é rei, todos devem ser perdoados”.

Talvez nunca a figura de Jesus de Nazaré tenha sido tão fascinante como agora. Encontrar na história o verdadeiro Jesus é uma obsessão. Revolucionário, hippie, rabino, médico, filósofo, messias, profeta, filho do homem, Deus, qual retrato desvendaria o enigma? “Quem eles dizem que eu sou?”, perguntava um inquieto Jesus. Daniel Marguera, em Vida e Destino de Jesus de Nazaré, se pergunta se Jesus se considerava o Messias, o Filho do Homem, o Filho de Deus e se sua identidade lhe era evidente. O homem das curas, o curandeiro carismático, que anuncia o Reino vindouro pela destruição do mal, se associa à imagem do mestre que reunia multidões fascinadas, ao Profeta que não fala como mensageiro de alguém, mas por sua própria conta e autoridade “em verdade eu vos digo”, e conduz inevitavelmente para os últimos dois títulos de outorga pós páscoa, inseridos na sua biografia, Senhor e Filho de Deus. A figura de Jesus pode ser vista pelos prismas reconhecidos pelas Igrejas cristãs como Deus encarnado e ser humano, e como personagem literário numa linha dedutiva de coerência narrativa de ações.

João, por quem Jesus se fizera batizar, envia num dado momento, já João preso por Herodes, dois discípulos que disparam: “És tu aquele que estava para vir, ou havemos de esperar outro? O que esperava João? Como dizer ao profeta querido que Deus chegava, mas não como um libertador do povo sofrido, “dize o que tendes visto”, a aliança estava sendo revisada, esta aliança não mais falará sobre vitória sobre o opressor, mas só sobre perdão. Uma nova moralidade impressionante é construída a partir de sua interpretação “eu, porém, vos digo”. Nos embates com opositores, a hostilidade contra Jesus avança quando ele diz “Se permanecerdes na minha palavra, sois verdadeiros discípulos, e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. O diálogo vai se desenvolvendo num confronto crescente, até seu clímax:

“Antes que Abraão existisse, EU SOU”. Mas agora, a mão poderosa e o braço estendido, que pesaram sobre o Egito para libertar Israel, enfrentam uma revisão, Deus enfrenta um poder formidável, a situação parece ter saído do controle, um novo modelo de aliança deve ser construído baseado no amor e no perdão. Do ponto de vista literário, o Novo Testamento é compatível com o Velho Testamento? O Novo Testamento é uma revisão do pensamento divino, como colocado por Jack Miles, Cristo representa uma crise no pensamento divino que aponta uma evolução na visão de sua criação: Deus desceu até ela, sofreu tudo que ela sofre e criou “em sua agonia um modo pelo qual pudessem ressuscitar dos mortos e retornar ao paraíso”.

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