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Corte
Itália inicia julgamento de 350 mafiosos, o maior em 30 anos
Na sala de audiências, serão ouvidas 900 testemunhas e 400 advogados. Pelo menos 58 testemunhas de acusação concordaram em quebrar a chamada “omertà” – o código de honra dos mafiosos

14/01/2021 | 08:16

O maior julgamento da máfia italiana em mais de 30 anos começou quarta-feira, 13, na região sul da Calábria. Estarão no banco dos réus 350 integrantes da temida ‘Ndrangheta, quadrilha especializada no tráfico de cocaína. O julgamento ocorrerá em um luxuoso tribunal de mais de 3 mil m² em uma das regiões mais pobres da Itália. O prédio foi especialmente preparado para as audiências, que terão entre os réus figuras-chave da organização criminosa.

“Hoje é um dia muito importante, porque vamos processar a ‘Ndrangheta, uma máfia que deixou de ser um grupo de pessoas que sequestravam para se tornar uma holding do crime”, explicou o juiz do caso, Nicola Gratteri.

Na sala de audiências, serão ouvidas 900 testemunhas e 400 advogados. Pelo menos 58 testemunhas de acusação concordaram em quebrar a chamada “omertà” – o código de honra dos mafiosos – para revelar os segredos do poderoso clã Mancuso e seus associados.

Uma lista variada de delitos que remontam à década de 90 será julgada, incluindo assassinatos, tráfico de drogas, extorsão, lavagem de dinheiro e abuso de poder. Empresários também estão na lista dos que serão julgados por crimes de colarinho branco. 

Segundo Gratteri, que começou suas investigações 4 anos atrás, o julgamento “é a pedra angular na construção de um muro contra as máfias na Itália”. Gratteri, de 62 anos, disse se inspirar nos dois lendários magistrados antimáfia, Giovanni Falcone e Paolo Borsellino, assassinados por ordem da máfia e famosos por presidir o primeiro grande julgamento contra mafiosos da Sicília, na década de 80.

Nesse julgamento, que deverá durar mais de dois anos, os principais intermediários do tráfico de cocaína entre a Europa e a América Latina vão se sentar no banco dos réus. A ‘Ndrangheta, que ficou rica e se expandiu graças ao comércio de entorpecentes, se infiltrou no mundo corporativo, fundando empresas de fachada e usando laranjas para lavar seus lucros ilegais na economia legal.

De acordo com estimativas das autoridades antimáfia, a ‘Ndrangheta na Calábria é composta por cerca de 150 famílias ou clãs, que têm 6 mil membros e afiliados, sem contar seus parceiros e aliados pelo mundo.

O crime organizado movimenta mais de € 50 bilhões (cerca de R$ 322 bilhões) por ano, segundo Gratteri, que a considera a facção mais rica do mundo. No julgamento, serão reveladas conexões dos mafiosos com política, maçonaria, empresários, advogados, funcionários públicos e policiais corruptos, tendo como alvo a família Mancuso, o sanguinário clã da província de Vibo Valentia.

“Os aparatos do Estado estavam literalmente à disposição do clã”, disse Gratteri após a onda de prisões ordenadas em dezembro de 2019 na Itália e na Europa e que levou ao julgamento.

Para o criminólogo Federico Varese, da Universidade de Oxford, a ‘Ndrangheta está envolvida em todas as atividades legais e ilegais. “Se você quer abrir uma loja, se quer construir algo, tem de passar por eles. Porque eles são a autoridade”, disse o promotor antimáfia, autor de vários livros sobre o assunto juntamente com o escritor Antonio Nicaso.

Cadáveres na estrada

Para Nicola Gratteri, promotor do julgamento mais importante contra a máfia calabresa, a guerra contra a organização criminosa é um assunto pessoal desde sua infância.

“Conheço a máfia desde minha infância, porque pegava carona para ir à escola e muitas vezes via cadáveres na estrada”,  disse à Agência France-Presse poucas horas antes da abertura do processo histórico.

“Então disse a mim mesmo: quando for mais velho, farei algo para que isso não volte a acontecer”, contou o magistrado, que vive ameaçado e sob escolta há três décadas. 

O promotor cresceu em Calábria, a região pobre do sul da península e berço da organização que se ramificou em todo o mundo,  superando a Cosa Nostra siciliana, para tornar-se uma das estruturas criminosas mais poderosas do velho continente.

“Conheço bem a ‘Ndrangheta, de dentro, porque quando era menino, ia para a escola com os filhos dos chefes da máfia”, lembra Gratteri. 

“Os meninos com quem brincava na época se tornaram mafiosos e depois narcotraficantes. Por isso, conheço a filosofia criminosa, a forma de pensar dos membros da ‘Ndrangheta, e isso me ajuda no meu trabalho”, disse.

Autor de diversos livros sobre o assunto, entre eles Irmãos de Sangue (2006) e A Rede dos Invisíveis (2019), Gratteri viajou inúmeras vezes para a América Latina, especialmente para escrever Ouro Branco (2015), sobre o tráfico de cocaína. 

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