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Comemoração
Infectologista conta o que é possível fazer neste Natal com a pandemia
Algumas famílias estão optando por trocar as tradicionais comemorações com toda família por pequenos encontros, apenas com o núcleo mais próximo. Ainda que não seja o desejo, é o possível se levarmos em conta a saúde geral da população
Estadão
14/12/2020 | 18:00

Quem diria que a pandemia do COVID-19, que começou em março, se estenderia pelo ano e bateria na porta do Natal. Quem diria! Passamos, praticamente o ano, fazendo isolamento social e sempre na esperança de que até o final do ano estaríamos melhor. Mas não. Chegamos em dezembro com os números em crescimento e alguns Estados tendo que recuar de fase. Relaxamos demais. Abrimos as portas além da conta. Vivemos um desgoverno. E será que ainda é possível celebrar? Dá pra ter Natal?

“Com o novo aumento das infecções pelo SARS-CoV-2, este ano irá exigir muita criatividade, bom senso e um olhar especial de cuidado para com o outro, para, de alguma forma, vivenciarmos estes momentos das festas de final de ano sem trazer a sombra do risco.”, fala a médica infectoligista Christina Gallafrio.

“Uma estratégia muito interessante é o modelo do ‘queijo suiço’, um modelo já existente para outras questões, que vem sendo discutido como estratégia epidemiológica para o controle do novo coronavírus. Podemos trazer a mesma imagem para o nível individual. Assim, apenas usar máscaras, mas ficar próximo não é proteção suficiente. Se somarmos máscara, distanciamento e ambiente ventilado, todos estão mais protegidos. Ter isso em mente nos ajuda a planejar como vamos festejar nosso final de ano”, reforça Gallafrio.

Algumas famílias estão optando por trocar as tradicionais comemorações com toda família por pequenos encontros, apenas com o núcleo mais próximo. Ainda que não seja o desejo, é o possível se levarmos em conta a saúde geral da população. Tios, primos e agregados ficam pro ano que vem. Fernanda Brito conta que vão fazer uma mini ceia só para a casa mesmo. “Não vamos nos reunir com outros familiares por causa do aumento de casos. Não fiz isolamento até agora pra por todo o sacrifício a perder! Ano que vem a gente comemora todos juntos”, conta.

Fernanda prefere não arriscar, ainda que um lado da família ache tudo uma bobagem. “Família gigante tem de tudo! Tanto tem gente fazendo festa, convidando a gente e tirando sarro porque não estamos indo, como tem aqueles mais chegados que, além de entender, seguem fazendo contato por chamada de vídeo ou telefone mesmo. Não tô mais na neura de fiscalizar a quarentena alheia, mas a regra aqui não mudo por nada. Aqui moram eu, minha mãe, que tem 79 anos e minha filha de 8. Essa vai ser nossa ceia”.

A escolha de fazer um Natal menor nem sempre agrada a todos. Bruna Melo de Andrade foi taxada na família. “Foram 4 anos tentando uma nova gravidez e agora que o bebê está pra nascer, só penso em protegê-lo”, conta. Por lá será apenas ela, marido, o filho de 7 anos e o pequeno que nasce ainda essa semana. O mesmo deve acontecer na casa da Renata Braghini que fará o Natal apenas com os pais. “Mas como tem sido até agora: uma visita rápida, todos de máscaras e no quintal, com distanciamento. Devo revezar essa visita com as minhas irmãs e combinamos de fazer a ceia todos no mesmo horário, juntos, por vídeo chamada. Óbvio que, nem de longe, será parecido com nossas reuniões de todo ano, mas é o necessário pra esse momento. Esse ano, é assim que a gente demonstra amor!”.

Demonstrar amor é o que se mais quer nesta época do ano. O espírito natalino carrega exatamente essa mensagem. Mas o ano tem nos desafiado, constantemente, a reaprender formas de demonstrar amor. Beijos e abraços estão suspensos. Grandes encontros também.

Sem dúvida, a decisão de não reunir todo mundo e fragmentar as comemorações da família traz uma certa tristeza, vazio. Estamos acostumados com casa cheia, barulho, muita conversa, fartura à mesa e criança de um lado pro outro. Mas nos reinventamos o ano inteiro e talvez agora seja mais um desses momentos. E “a ideia de um encontro ao ar livre, no quintal, mantendo-se o distanciamento e uso de máscaras, com revezamento para não aglomerar toda família de uma vez, como será a opção da Renata, é ótima, porque promove proteção, sem impedir os encontros”, lembra a médica Christina.

“O carinho pode ser demonstrado de outras formas”, reforça. “Como deixar algo gostoso e especial na portaria da pessoa querida. Envolver as crianças nisso as ajuda a entrar no clima de Natal, como fazer um desenho ou origami para pendurar na árvore de natal dos avós (que depois podem mostrar o resultado por vídeo), ou assar biscoitos e embalar de um jeito especial, ou preparar uma música para ser cantada ou tocada do lado de fora da casa, como uma serenata – que avós não amariam isso?! Por sua vez, os avós poderiam escolher uma história significativa para contar por vídeo-chamada para os netos, enquanto os pais preparam a ceia. Há inúmeras formas que, se não podem ser comparadas ao que acontece nos outros anos, ao menos servem de acalanto aos corações de todos”.

Isa Martin também vai seguir as recomendações de distanciamento. “Gostamos sempre de estar com mais gente nessa época, pois faz 2 anos que meu irmão faleceu. Minha mãe gosta da casa cheia, para sentirmos um pouco menos o Natal sem o meu irmão. Até temos convite para ir à casa de amigos, ano passado passamos com eles o Natal, mas achamos que seria muito arriscado já que estamos falando de uma família que totaliza umas 30 pessoas, entre agregados e outros”, conta.

Mas deve-se dizer que, neste momento, festas grandes não são, de modo algum, recomendadas. “Este é um vírus que se propaga muito bem em clusters, em grupos. Pessoas aglomeradas em um ambiente não suficientemente ventilado, com todos falando, por tempo prolongado, é um prato cheio. Nesta situação, basta um infectado, para que se faça o estrago”, alerta Christina Gallafrio.

Para famílias não tão numerosas que decidam manter o formato tradicional, com todos se reunindo ao mesmo tempo, segundo Gallafrio, há formas de tentar reduzir os riscos:

1. Aproveitar o quintal e o ar livre. Se existir a possibilidade de distribuir uma mesa para cada núcleo familiar, distantes entre si, é possível reunir a família. Mas sempre reforçando que, na hora da ceia, em que ficamos sem máscaras para poder comer, e conversamos (ou seja, eliminamos gotículas sem a barreira da máscara), todos devem se manter em suas mesas.

2. Fazer uma auto-quarentena cerca de 10-14 dias antes do encontro (evitando ao máximo sair de casa ou receber), para que reduzam o risco de se infectar neste período e posteriormente de levar o vírus para a festa. A medida só será eficaz se todos os que estarão presentes a assumirem.

3. A medida mais importante – fundamental mesmo – é que, a menor dúvida de sintoma, a pessoa não compareça à festa. Se tiver uma coriza, não vá. Poder ser uma simples rinite, como pode não ser. Se sentir a garganta raspando, não vá. “Falei muito no dia anterior, deve ser isso”… mas pode não ser.

4. Manter distância de 1,5m dos outros familiares, principalmente na hora de comer e beber, e higienizar as mãos com frequência são medidas já amplamente conhecidas.

5. Usar máscaras quando não estiver comendo – e lembrar-se de recolocá-las em seguida.

6. Evitar abusar de álcool, porque ele nos torna mais propensos a deixar de cuidar das medidas de prevenção – lembra daquele familiar que bebeu demais e saiu abraçando todo mundo.

7. E finalmente, no pós-festa: caso alguém comece a ter sintomas até 2-3 dias depois, deve estar ciente de que o vírus pode ter se espalhado a outros (pois começamos a transmitir, em média, 2 dias antes do início dos sintomas), e deverá avisar a todos os presentes para que fiquem atentos e procurem ficar em casa.

Definitivamente, o Natal não será o mesmo. Como não foi 2020. Mas é possível celebrar.

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