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Futebol
Impactados pela pandemia, semifinalistas da Copa do Brasil recebem premiação alta
Com equipes enfrentando grave crise financeira agravada pela fuga de patrocinadores, ausência de público nos estádios e perda de sócios-torcedores, a premiação da Copa do Brasil passou a ser ainda mais valorizada e virou sinônimo de alívio imediato às contas dos clubes
Agência Estado
22/12/2020 | 15:09

Em uma temporada em que a pandemia do novo coronavírus afetou as finanças de todos os clubes brasileiros e as principais equipes do País, que ganharam menos pelos contratos de televisão e ficaram sem bilheteria com a falta de público nos estádios, registraram receitas até 46% menores em relação a 2019, a premiação da Copa do Brasil vai ajudar, e muito, os quatro semifinalistas, especialmente o campeão. Com orçamentos e planos diferentes, América-MG, Palmeiras, Grêmio e São Paulo certamente vão festejar o dinheiro proveniente da competição.

Com equipes enfrentando grave crise financeira agravada pela fuga de patrocinadores, ausência de público nos estádios e perda de sócios-torcedores, a premiação da Copa do Brasil passou a ser ainda mais valorizada e virou sinônimo de alívio imediato às contas dos clubes. O torneio é o que mais distribui dinheiro aos clubes no País. Ao campeão, por exemplo, a CBF pagará R$ 54 milhões, R$ 2 milhões a mais do que o Athletico-PR recebeu no ano passado.

A CBF vem valorizando a Copa do Brasil a cada ano. Para se ter uma ideia, em 2016 uma vaga nas oitavas de final rendia R$ 840 mil aos clubes. Hoje, estes valores mais do que triplicaram. Com isso, os times passaram a dar ainda mais importância para a competição. Os jogos de ida das semifinais acontecem nesta quarta-feira, às 21h30. O Grêmio recebe o São Paulo em Porto Alegre e o Palmeiras encara o América-MG no Allianz Parque. A volta será no dia 30, com a inversão dos mandos. Não há gol marcado fora de casa como critério de desempate.

Parte do dinheiro da premiação é usado como bônus aos atletas e outra parte serve para pagar despesas de manutenção, logística, fornecedores, impostos e folha salarial e também pode ser utilizado em contratações para a próxima temporada.

O azarão

O América-MG destoa dos outros três semifinalistas por mais de um motivo. É o que tem o menor orçamento atualmente, de cerca de R$ 40 milhões, segundo o superintendente geral do clube, Dower Araújo, o único que está na Série B do Campeonato Brasileiro e também o único que disputa competição desde o seu início, já que os outros três entraram direto nas oitavas de final por terem vaga na Libertadores. Com isso, o time mineiro já tem assegurado 17,6 milhões em premiação, considerando os pagamentos recebidos pela CBF por cada fase superada, enquanto que Palmeiras, Grêmio e São Paulo garantiram R$ 12,9 milhões por enquanto.

O valor que o América ganhou representa mais de três vezes a quantia prevista de receita, no orçamento de 2020, para “competições e jogos”: R$ 5.755.449. O clube, naturalmente, comemora os cofres mais cheios, mas não está satisfeito. A equipe treinada por Lisca quer surpreender e chegar à final pela primeira vez.

O fato de ter alcançado a semifinal da Copa do Brasil pela primeira vez na história ajuda o América-MG a se manter financeiramente organizado. A equipe tem mantido os salários em dia neste ano e pode virar clube-empresa em breve. A consultoria Ernest & Young (EY) está na fase final do projeto que mudará completamente a forma como a agremiação é administrada.

O trabalho começou com o ajuste da governança corporativa da entidade mineira em algo semelhante à de uma companhia de capital aberto. O organograma passou a ter um CEO, um diretor financeiro e demais posições executivas. Para atrair investidores, é preciso que a engrenagem de gestão funcione e as decisões não dependam apenas da paixão pelos resultados esportivos. E o resultado desse processo será uma NewCo, ou seja, uma nova empresa que vai explorar apenas o futebol.

A busca do time mineiro é por um investidor estrangeiro. A desvalorização do real frente ao dólar e ao euro é vista como um facilitador para atrair um parceiro. Afinal, com cerca de 10 milhões de euros, o orçamento da Série A passa a ser coberto. A equipe é uma das principais candidatas a voltar à elite do futebol brasileiro e hoje ocupa a vice-liderança da segunda divisão, atrás apenas da Chapecoense.

Segundo a EY, o endividamento líquido do América-MG é de R$ 82 milhões, ocupando a 15a. posição entre os 20 principais clubes do País. Desse montante, R$ 50 milhões enquadram-se como dívida tributária. A relação entre endividamento líquido e receita recorrente do clube é de 2,96 vezes.

As receitas não são tão expressivas se comparadas às dos rivais da Série A, mas o América é organizado, possui CT, um estádio, uma propriedade comercial e é conhecido por ser formador de atletas. E a próxima temporada pode ser melhor financeiramente Se vencer a Copa do Brasil, o “Coelho” vai embolsar R$ 72, 8 milhões, a premiação máxima, já que disputa o campeonato desde a fase inicial.

O mais organizado

O Grêmio é um dos clubes mais saudáveis financeiramente do País. Mesmo na pandemia, o time gaúcho não teve grandes perdas e se manteve estruturado. O último balanço financeiro aponta superávit – diferença entre receitas e despesas – de R$ 25,6 milhões no terceiro trimestre da temporada O resultado do período proporcionou as contratações de Diego Churín e César Pinares, reforços buscados no futebol sul-americano, e reforçam que a equipe vai sair forte da crise gerada provocada pela pandemia.

“O Grêmio está numa posição de equilíbrio, inclusive em relação às contas de 2021 e 2022, antecipando pagamentos”, diz ao Estadão o presidente Romildo Bolzan. O dirigente prevê que os clubes que ajustarem suas contas serão aqueles que poderão brigar por títulos na próxima temporada. “O dinheiro da Copa do Brasil atenderia nossas necessidades para reforçar o caixa do próximo ano e seu fluxo”, resume o mandatário.

Mudança de estratégia

O Palmeiras mudou radicalmente sua postura de clube comprador, que investe pesado no mercado, e, para equilibrar as finanças, negociou vários jogadores no decorrer do ano e apostou na talentosa base. Em campo, os resultados têm vindo. Fora dele, o clube alviverde já conseguiu ser mais equilibrado em relação às suas contas, visto que registrou um prejuízo de R$ 136,6 milhões em 2020, em balanço feito até o mês de agosto.

Em agosto, o Palmeiras registrou um déficit de R$ 16,6 milhões. Considerando apenas o departamento de futebol, por exemplo, o prejuízo foi de R$ 11,6 milhões no período, cerca de R$ 7 milhões a mais do que o mês anterior. Os dirigentes palmeirenses preveem que aproximadamente R$ 200 milhões não serão mais arrecadados em 2020 por causa da crise provocada pela covid-19.

O clube deixou de receber com bilheteria desde março, assim como todos os outros, e sofre desde então com uma queda de receitas do programa de sócio-torcedor, entre outros problemas nas finanças. Em 2021, é muito provável que a diretoria tenha de vender algumas de suas principais joias oriundas das categorias de base para aumentar a arrecadação. Gabriel Veron, Patrick de Paula, Gabriel Menino e Wesley já receberam sondagens. No entanto, o título da Copa do Brasil – o time já levantou a taça do Paulistão neste ano – pode melhorar a saúde financeira e evitar negociações precoces.

Modernização do Morumbi

O São Paulo chegou a ser um dos exemplos de gestão no futebol brasileiro. Mas de alguns anos para cá, se atolou em dívidas e tem de vender frequentemente jogadores revelados em Cotia para aliviar a crise financeira, que só vem piorando nos últimos anos com a escassez de títulos. A última taça foi levantada em 2012, a da Copa Sul-Americana. Com isso, vencer a Copa do Brasil teria importância em dobro, esportivamente e também nas finanças.

O clube tricolor tem uma dívida de quase R$ 600 milhões e hoje, não pode, por exemplo, realizar uma grande obra no Morumbi, que perdeu o posto de principal palco de grandes shows em São Paulo para o Allianz Parque, a casa do Palmeiras.

O presidente eleito Julio Casares disse que só vai realizar grande obra no Morumbi com investimento do setor privado, mas a verba da Copa do Brasil pode ajudar. Ele apontou as mudanças que vai implantar no estádio caso seja eleito. “Vamos melhorar a precificação do aluguel para shows para competir em igualdade de condições com as arenas. O estádio é nosso, está pago, então podemos cobrar menos e trazer um volume maior de shows”.

O dinheiro da competição também pode ser útil como investimento no programa de sócio-torcedor do São Paulo, que carece de uma reformulação. “Uma das missões do departamento será refundar o programa de sócio-torcedor, que terá 100% da sua receita líquida usada no futebol. Vamos entender que o sócio-torcedor do São Paulo não tem um perfil único, mas vários, e desenvolver planos que façam sentido para cada um deles”, explicou Casares.

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