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Saúde
Há 20 mil anos, humanidade enfrentou uma epidemia de coronavírus, indica novo estudo
Pesquisa da Universidade do Arizona, nos EUA, descobriu genes humanos que evoluíram rapidamente no antigo Leste Asiático para impedir infecções por coronavírus; eles podem ajudar com futuros medicamentos contra a Covid-19
O Globo
28/06/2021 | 16:39

Pesquisadores encontraram evidências de que uma epidemia de coronavírus atingiu o Leste Asiático há cerca de 20 mil anos e foi devastadora o suficiente para deixar uma marca evolutiva no DNA das pessoas vivas atualmente.

O novo estudo, publicado na quinta-feira na revista Current Biology, sugere que um antigo coronavírus assolou a região por muitos anos, dizem os cientistas. A descoberta pode ter implicações negativas para a pandemia da Covid-19, caso ela não seja controlada logo por meio da vacinação.

— Isso deve nos preocupar. O que está acontecendo agora pode estar acontecendo por gerações e gerações — disse David Enard, biólogo evolucionista da Universidade do Arizona, nos Estados Unidos, que liderou o estudo.

Até agora, os pesquisadores não podiam olhar muito para trás na história dessa família de patógenos. Nos últimos 20 anos, três coronavírus se adaptaram para infectar humanos e causar doenças respiratórias graves: Covid-19, Sars e Mers. Estudos sobre cada um desses coronavírus indicam que eles surgiram em nossa espécie vindos dos morcegos ou de outros mamíferos.

Quatro outros coronavírus também podem infectar as pessoas, mas geralmente causam apenas resfriados leves. Os cientistas não observaram diretamente esses coronavírus se tornando patógenos humanos, então eles confiaram em pistas indiretas para estimar quando os saltos entre espécies aconteceram. Os coronavírus ganham novas mutações em uma taxa aproximadamente regular e, portanto, a comparação de sua variação genética torna possível determinar quando eles divergiram de um ancestral comum.

O mais recente desses coronavírus leves, denominado HCoV-HKU1, cruzou a barreira das espécies na década de 1950. No caso do mais antigo, denominado HCoV-NL63, pode ter sido há 820 anos.

No entanto, antes desse ponto, a trilha do coronavírus esfriou — até que Enard e seus colegas aplicaram um novo método à pesquisa. Em vez de olhar para os genes dos coronavírus, os pesquisadores analisaram os efeitos no DNA de seus hospedeiros humanos.

Mudanças no genoma humano

Ao longo de gerações, os vírus provocam enormes mudanças no genoma humano. Uma mutação que protege contra uma infecção viral pode muito bem significar a diferença entre a vida e a morte, e será transmitida aos descendentes. Uma mutação que salva vidas, por exemplo, pode permitir que as pessoas dividam as proteínas de um vírus.

Mas os vírus também podem evoluir. Suas proteínas podem mudar de forma a superar as defesas do hospedeiro. E essas mudanças podem estimular o hospedeiro a desenvolver ainda mais contra-ofensivas, levando a mais mutações.

Quando uma nova mutação aleatória acontece para fornecer resistência a um vírus, ela pode rapidamente se tornar mais comum de uma geração para a outra. E outras versões desse gene, por sua vez, tornam-se mais raras. Portanto, se uma versão de um gene domina todas as outras em grandes grupos de pessoas, os cientistas sabem que isso é provavelmente uma assinatura de uma evolução rápida no passado.

Nos últimos anos, Enard e seus colegas pesquisaram no genoma humano esses padrões de variação genética para reconstruir a história de uma série de vírus. Quando começou a pandemia da Covid-19, ele se perguntou se os antigos coronavírus haviam deixado uma marca própria que os distinguiriam.

Ele e seus colegas compararam o DNA de milhares de pessoas em 26 populações diferentes ao redor do mundo, observando uma combinação de genes conhecidos por serem cruciais para os coronavírus, mas não para outros tipos de patógenos. Em populações do Leste Asiático, os cientistas descobriram que 42 desses genes tinham uma versão dominante.

Esse foi um forte sinal de que as pessoas no Leste Asiático se adaptaram a um antigo coronavírus. Mas o que quer que tenha acontecido na região parecia ter se limitado a ela.

— Quando os comparamos com as populações de todo o mundo, não conseguimos encontrar o sinal — disse Yassine Souilmi, pesquisador da Universidade de Adelaide, na Austrália, e coautor do novo estudo.

Os cientistas então tentaram estimar há quanto tempo os habitantes do Leste Asiático haviam se adaptado a um coronavírus. Eles aproveitaram o fato de que, uma vez que uma versão dominante de um gene começa a ser transmitida de geração em geração, ela pode receber mutações aleatórias inofensivas. Conforme mais tempo passa, mais dessas mutações se acumulam.

Enard e os demais pesquisadores descobriram que os 42 genes tinham quase o mesmo número de mutações. Isso significava que todos eles haviam evoluído rapidamente mais ou menos ao mesmo tempo.

— Este é um sinal que não devemos esperar que aconteça por acaso — disse Enard.

Genes podem se tornar alvos de medicamentos

Os pesquisadores estimaram que todos esses genes desenvolveram suas mutações antivirais em algum momento entre 20 mil e 25 mil anos atrás, provavelmente ao longo de alguns séculos. É uma descoberta surpreendente, uma vez que os asiáticos orientais na época não viviam em comunidades densas, mas formavam pequenos grupos de caçadores-coletores.

Aida Andres, uma geneticista evolucionista da University College de Londres que não esteve envolvida no novo estudo, disse que achou o trabalho convincente. No entanto, ela não acredita ser possível fazer uma estimativa firme de há quanto tempo a antiga epidemia ocorreu.

— O momento é complicado. Eu pessoalmente acho que não podemos estar tão confiantes em afirmar que isso aconteceu alguns milhares de anos antes ou depois — afirmou.

Os cientistas que procuram medicamentos para combater o novo coronavírus podem querer examinar os 42 genes que evoluíram em resposta à antiga epidemia, disse Souilmi.

— Esses dados estão nos apontando para botões moleculares para ajustar a resposta imunológica ao vírus — disse o pesquisador.

Anders concorda, acrescentando que os genes identificados no novo estudo deveriam receber atenção especial como alvos de medicamentos.

— Você sabe que eles são importantes. Essa é uma coisa boa sobre a evolução — afirmou.

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