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Relações internacionais
Governo Bolsonaro ainda nutre esperança de triunfo de Trump, mas atua também junto a Biden
Após se afastar de China, União Europeia e Argentina, política externa bolsonarista vive seu momento mais decisivo
O Globo
03/11/2020 | 06:48

Funcionários ligados à área internacional do governo Jair Bolsonaro não se arriscam a apostar, de olhos fechados, em uma vitória de Joe Biden, apesar de as pesquisas de opinião apontarem vantagem do candidato democrata frente o republicano Donald Trump. Em 2016, Trump surpreendeu o mundo ao derrotar Hillary Clinton. Além disso, o jogo não está decidido, pois não se descarta a possibilidade de a disputa pela Casa Branca ser decidida não nas urnas, mas nos tribunais, o que tornaria mais demorada a formalização do resultado do pleito.

Mesmo assim, a área diplomática já atua para manter as boas relações com os EUA, se Joe Biden vencer a eleição. Em Washington, o embaixador do Brasil, Nestor Forster, mantém contatos com integrantes do Partido Democrata, entre congressistas, ex-funcionários do antecessor de Trump, Barack Obama, e com representantes do setor privado. A ideia é esclarecer e corrigir visões sobre o Brasil consideradas deturpadas pelo governo brasileiro.

Tudo indica, porém que esse esforço terá de ser redobrado, se houver vitória de Joe Biden. Há cerca de um mês, Bolsonaro reagiu duramente a uma declaração dada pelo candidato democrata no primeiro debate com Trump. Ele mencionou a criação de um fundo internacional de US$ 20 bilhões para ajudar países como o Brasil a preservar suas florestas e sugeriu que o país poderá sofrer sanções, caso o desmatamento continue na Amazônia.

“O Brasil mudou e não aceita subornos”, “Nossa soberania é inegociável” e “Lamentável, senhor Biden” foram algumas afirmações feitas pelo presidente do Brasil. A avaliação é que esse gelo precisa ser quebrado, segundo fontes do governo brasileiro ouvidas pelo GLOBO.

Outra constatação é que qualquer tentativa de aproximação depende mais do Brasil do que do lado americano. Hoje, o único grande aliado que o Brasil tem são os EUA. Bolsonaro brigou com China, França, Alemanha e nunca conversou com Alberto Fernández, presidente da Argentina, principal sócio no Mercosul.

“A menção de Biden à Amazônia no primeiro debate eleitoral, em tons pouco elogiosos, foi um importante sinal de que os EUA, sob o partido democrata, não tolerará desmandos ambientais. Semanas mais tarde, Biden chegou a dizer que mudanças climáticas são uma ameaça existencial aos EUA, o que pode, inclusive, colocar Brasília e Washington em rota de colisão. Para evitar que isso aconteça, é bem possível que Bolsonaro modere o tom de sua até então estridente e controversa política externa. Caso isso aconteça, poderá haver mudanças na cúpula diplomática, já que a atual estratégia pró-Trump é articulada pela ala “olavista” do governo, representada pelo chanceler Ernesto Araújo e pelo assessor internacional Filipe Martins”, avalia o o professor da FGV-SP Guilherme Casarões.

Para Casarões, as eleições nos EUA terão grande impacto sobre o Brasil e serão o principal divisor de águas para a política externa do governo Bolsonaro. Ele acredita que uma vitória de Trump será duplamente celebrada em Brasília: representará o triunfo não só da estratégia de alinhamento incondicional a Washington, mas também do modelo populista de extrema direita que chegou ao poder ao redor do mundo — e que tem em Trump e Bolsonaro seus dois principais porta-vozes no Ocidente.

“Até aqui, Bolsonaro fez apostas arriscadas na relação com os EUA, realizando concessões unilaterais em troca de promessas incertas, e demonstrando lealdade incondicional ao presidente Trump, chegando a militar abertamente por sua reeleição. Se isso pode ser recompensado num segundo mandato do norte-americano, a verdade é que não há qualquer garantia de esses benefícios venham. Até aqui, as sinalizações dos EUA mostraram poucos ganhos concretos para o Brasil”, afirmou.

Já em um cenário em que Donald Trump sair vencedor, a situação é menos preocupante, mas não a salvação da lavoura, disse uma fonte graduada do governo Bolsonaro. Com um Congresso que poderá ser dominado por democratas, a concessão de um mandato para fechar novos acordos com o Brasil ficaria difícil. Em um momento de crise fiscal e necessidade de investimentos estrangeiros, o isolamento para o país seria muito ruim.

“Biden defenderá de forma pragmática os interesses dos EUA. Isto é: se o Brasil de Bolsonaro seguir fazendo as concessões que interessa aos EUA, não há porque Washington atuar de forma hostil em relação a Brasília. Porém, o tema ambiental será nevrálgico para a administração Biden. Se o governo Bolsonaro seguir errando a mão, ai Brasil e EUA estarão em lados opostos. E isso vale no campo dos direitos humanos”, afirma Hussein Kalout, cientista político e pesquisador da Universidade Harvard.

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