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Artigo
Geraldo Ferreira: A política e o reino do diabo
Confira o artigo de Geraldo Ferreira desta quarta-feira 14
Geraldo Ferreira
14/07/2021 | 11:03

Para Aristóteles a política visa à felicidade humana, do ponto de vista individual e coletivo, “ o objeto da política é criar a amizade entre os membros da cidade”. A política pode ser entendida como a gestão de conflitos entre os diferentes grupos sociais e seus interesses. Uma das obras fundamentais para a compreensão de poder e política é Leviatã, de Thomas Hobbes, que mostra a organização da sociedade como uma limitação dos desejos egoístas que estavam no estado natural da humanidade.

Maquiavel desenvolveu sua filosofia política, passando ao largo dos valores, que não poderiam limitar a prática política, o homem liberto dos freios lutaria pelo poder, honra e glória, à política importaria a estabilidade social e o governo, ao príncipe tudo seria possível para salvar o Estado. Os bens políticos adquiriam assim autonomia. Agostinho dizia que qualquer área da vida que alcance independência e estabeleça por si seus veredictos do que é bom, válido, excelentemente próprio em tal campo recaía sob a influência do Diabo. Se os assuntos da política deixam o campo do direito natural, perde-se a razão da busca da justiça, substituída pelas paixões desenfreadas, lutando umas contra as outras. Se os princípios da política se desligam do direito natural, o tecido social passa a ser “baseado na pura distribuição de forças, governado pelo medo, pela ganância e pela sede de poder”, diz Leszek Kolakowski.

A modernidade que trouxe para o centro da filosofia o ceticismo, estabelecendo que nem justiça, nem lei natural são histórica ou geograficamente universais, levou Espinosa a dizer que se devia governar o povo de modo a parecer que se autogovernavam. No ensaio A Política e o Diabo, publicado em A Modernidade Em Um Julgamento Sem Fim, Kolakowski diz que embora o Iluminismo concedesse autonomia a todos os campos da atividade humana, não conseguiu evitar que o mal se infiltrasse em todos eles, “Parece óbvio, à primeira vista, que o campo de caça favorito do Diabo seja a política (estando o sexo em segundo lugar), pois é diretamente responsável pelas guerras, perseguições e atrocidades que a luta pelo poder provoca”.

Os demônios no departamento de política operam na arte, na filosofia e na ciência, sendo sábios, sutis e perspicazes. O mal produzido por tiranos é fácil de ser identificado, difícil é calcular o resultado da ação sobre a mentalidade humana do trabalho criativo dos que buscam explorar mudanças que façam o inferno sair no lucro. Uma tensão permanente na política é entre objetivos de curto e longo prazo, nenhuma revolução pode ser feita sem o poder das ilusões, das esperanças enganosas e das reivindicações impraticáveis. Misturam-se na luta política, inveja, cobiça pelo poder, desejos de justiça, liberdade, paz, identificação com os oprimidos e mesmo esperança de passar a ser o opressor.

A ideologia totalitária é um sistema de ideias e doutrinas que justifica a ação totalitária com a promessa de um reino de justiça. O Estado passa a ser autoridade suprema nas escolhas sociais, a sociedade passa a ser criação do Estado. Marx definia Ideologia como um “conjunto de ideias, doutrina e mitos que existem devido aos interesses que promovem, e não às verdades que contêm”, assim, diz Roger Scruton, o Marxismo deve sua sobrevivência não ao pensamento que busca a verdade, mas ao poder. Os regimes ideológicos têm sua raiz no ressentimento, resultado da competição em busca do lucro. Os ressentidos, quando assumem o poder, destroem a soberania individual, e punem os que julgam portadores de culpa coletiva, vistos como ricos e privilegiados, cujo sucesso é imerecido e adquirido às suas custas.

“O veto ao direito de resposta é uma das marcas do ressentimento em sua versão patológica”, expõe Scruton, marca dos movimentos radicais que possuem ideias vagas do que desejam criar, mas uma concepção clara do que desejam destruir. Leszek Kolakowski adverte, o pai da mentira opera incansavelmente a ideia de que o progresso da humanidade é feito pela violência, assim “abriu as portas para o conceito de política como mera disputa pelo poder, o poder sendo um bem supremo em si”.

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