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Artigo
Geraldo Ferreira: A aniquilação da cultura sob o jugo da ideologia
Confira o artigo de Geraldo Ferreira desta quarta-feira 4
Geraldo Ferreira
04/08/2021 | 09:43

Ceticismo, Relativismo, Niilismo e Ideologia construíram a visão de um mundo fraturado, apodrecido, horrível, deprimente, vazio e ininteligível. Na grande literatura ocidental, essa acessão político cultural não se sustenta. “O amor é um teste, Sancho. Aquele que sabe se apresentar melhor perante a amada ganha o papel. Ela vai questioná-lo, e você fará bem em ter as respostas mais nobres às suas perguntas, pois ela as fará também a outros”, diz Quichotte ao filho imaginário, com quem viaja em busca do encontro e da conquista da amada Salma, no livro Quichotte, de Salman Rushdie, que usa como referência o outro Quixote, obra prima de Cervantes.

“Como você acha que vai fazer isso, um pangaré velho e acabado que nem você?”, pergunta o jovem, dando ensejo à resposta do velho à suposta pergunta da amada sobre como ele saberia se é o tipo de homem que ela deseja. “Me conhecerá pela intensidade de minha emoção para com você, e pela escuridão em que sonho com você, e pela beleza dos feitos pelos quais me provarei, pois, a beleza está no fazer. E pela postura resoluta de meu queixo, enquanto dobro o arco de minha vida em sua direção, e pela ideia dominante que me possui, a de que você tem que ser minha. “ Os clássicos sempre ajudam’’, dirá Quichotte em outro diálogo.

Quando aborda em A Casa Dourada a confusão moderna da identidade, Salman coloca nas palavras de Riya a questão: “Minha vida adulta coincidiu com o alvorecer da Era da Identidade, e as discussões, questões e inovações sobre e em torno do assunto, a verdade é que nossas identidades – nacional, racial, sexual, politizado, beligerante – não são claras para nós e talvez seja melhor que permaneçam assim. A Identidade, especificamente a teoria da Identidade de gênero, é um estreitamento da humanidade.” Riya pondera, mas era tarde, D. Golden, perdido nos conflituosos labirintos da Identidade, dera cabo à vida. “As obras literárias têm o poder de invasão de nossa realidade, quando criadas por um gênio.

Os escritos dos gênios constituem o melhor caminho em direção à sabedoria”, diz o crítico literário Harold Bloom. A literatura é uma coisa poderosa, muito longe do amontoado de escritos medíocres, ditados pelo politicamente correto. Os filtros ideológicos se infiltraram na academia e nos críticos, ameaçando matar toda riqueza cultural de séculos, apresentando o cânone literário ocidental como a exaltação a um conjunto de injustiças, que deve ser destruído. Racismo, sexismo, colonialismo dominam os estudos nos departamentos de literatura, com especialistas tentando encontrar nas entrelinhas das obras racismo, misoginia e homofobia. Virtudes heroicas, natureza humana, convenções, gêneros biológicos, a tradição que importa, função da arte que não é incomodar e irritar, o fato do mal-estar no coração humano, todos esses temas da grande literatura são postos em cheque pelo politicamente correto.

Por que eles não querem que as pessoas leiam Shakespeare, se interroga Elizabeth Kantor, para colocar que o conceito de natureza humana sempre foi a chave para o entendimento da obra de Shakespeare, por isso universal. Tal fato é contestado na ideologia dos departamentos de literatura, onde pontifica o relativismo, cada um tentando definir seu próprio conceito de existência. Shakespeare também mostra um mundo ordenado, onde o preço de desafiá-lo é alto, Elizabeth diz que esses professores não querem que as pessoas aprendam com a leitura que algumas escolhas são inerentemente destrutivas. Antes que os professores do politicamente correto a abjurassem, a literatura era a pedra angular da cultura ocidental.

Isso ocorria porque a literatura era capaz de civilizar e enobrecer as pessoas. De uma forma ou de outra, diz Elizabeth Kantor “todos nós apreciamos e desejamos a beleza, admiramos o que é bom e reconhecemos verdades – e nos sentimos constrangidos a buscar estes ideais.” Acima de qualquer viés político, a grande literatura vai mostrar, segundo Kantor, uma dessas três qualidades: “a verdade superior da obra, seu valor moral ou sua beleza desconcertante – ou uma combinação delas.”

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