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Marcelo Hollanda
Existe uma dificuldade em qualificar o governo de Bolsonaro pelo que ele é: extrema direita
Confira a coluna de Marcelo Hollanda desta terça-feira 14
Marcelo Hollanda
14/09/2021 | 08:32

Extremismo a gente sabe como termina
Há uma dificuldade em qualificar o governo Bolsonaro pelo que ele é: extrema direita.

Michel Temer, por exemplo, teria assim que assumir o fardo histórico de ajudar (como ajudou dias atrás) o mandatário extremista a apagar um incêndio, o que facilmente lhe renderia o carimbo na testa de “colaboracionista” – quando, na verdade, ele está apenas fazendo “política”.

Da mesma forma, tantos outros políticos que já serviram a diferentes governos – ou seja, quase todos – teriam que explicar porque oferecem seu trânsito e talento para um governante que usa seu mandato para dar um golpe de Estado ou pelo menos ameaça isso de uma maneira prodigiosa.

Seria como a marca do batom na cueca – não tem explicação. Isso vale também para empresários e profissionais liberais que pedem a volta da ditadura militar quando suas vidas foram construídas sem ela.

Com exceção de muitos apoiadores do presidente, que realmente desejam esse golpe, extensas parcelas da sociedade, da classe política e até do Executivo e mesmo das Forças Armadas não comungam do ideário da extrema direita, mas fazem o jogo clássico da manutenção de privilégios.

Quando o Rei finalmente estiver “morto” (na linguagem figurada para representar o fim do seu período de poder), estes mesmos atores gritarão novamente: “Viva o Rei!”, olhando para o próximo mandatário e tentando enxergar suas possibilidades de manutenção política com ele.

Uma expressiva parte da direita brasileira, que já desembarcou do bolsonarismo, não é de políticos profissionais. Trata-se de gente opiniosa que foi induzida a votar num conhecido extremista na esperança de que ele seria logo contido pelas Forças Armadas e tutelado por um Sérgio Moro da vida, ícone da Operação Lava Jato.

Só que Bolsonaro deu o troco e fez o que todo o líder autoritário faz para marcar seu território: inventar inimigos e comprar apoio com a sua bic presidencial privilegiada.

Como cooptar todo o mundo seria impossível numa democracia onde ainda vige a barganha política, as prioridades se dirigiram ao Congresso e às Forças Armadas.

Bolsonaro já sabe agora que, a despeito da brutal queda de sua popularidade, o impeachment não vai acontecer e as oposições divididas como estão vão levar seu governo até o último e agonizante minuto, a menos que circunstâncias superiores se imponham.

Esta semana alguns ministros, como o nosso Fábio Faria, ironizaram as fracas manifestações convocadas pelo MBL em favor do impedimento do presidente.

Poderiam até ter maneirado, tendo em vista que parte de seus eleitores estavam lá. Mas as demonstrações de fervor pelo líder falaram mais alto.

Com Hitler também foi assim.

Velhos ensinamentos
Em 1987, um dos líderes da Revolução Tenentista e comandante de uma famosa marcha pelo Brasil, a Coluna Prestes, Luiz Carlos Prestes, líder por mais de meio século do Partido Comunista Brasileiro (PCB), deu uma entrevista ao Canal Livre da TV Cultura e respondeu perguntas espinhosas. A mais afiada delas o questionava porque ele, Prestes, dividiu o mesmo palanque de Getúlio Vargas em 1947 no centro de São Paulo durante um comício político na época em que o PCB aspirava à legalidade. Afinal, Getúlio havia entregado a mulher de Prestes, Olga Benário, grávida, aos nazistas que a assassinaram.

E a resposta foi
“Não houve propriamente uma aliança (ao subir no mesmo palanque de Getúlio), houve apoio. Naquela época, o inimigo principal da Humanidade era o nazismo. Outros não compreendiam isso. A UDN, por exemplo, era contra o envio de militares para a Itália. Achava que primeiro era preciso acabar com o fascismo no Brasil para depois mandar soldados para combater o nazismo na Europa. (…) Eu não faço política baseado em ressentimentos pessoais. Eu faço política baseada nos interesses do povo brasileiro”, afirmou Prestes.

Moral da história
Esse espírito deveria dominar as hostes petistas que se negaram a engrossar as manifestações deste domingo pelo impeachment do presidente Bolsonaro. A recíproca também é verdadeira, pois foram vistos na Avenida Paulista um grande boneco de Bolsonaro ao lado de outro, o Lula presidiário. Os dois lados deveriam prestar mais atenção no que dizia Luiz Carlos Prestes.

Um pouco de história
Para quem não sabe, Prestes cursou a Escola Militar do Rio de Janeiro antes de ser transferido para o Rio Grande do Sul, onde liderou a revolta tenentista contra o governo de Arthur Bernardes em 1924. Os “tenentes”, jovens oficiais do Exército, queriam levantar a população contra as oligarquias e o então presidente Arthur Bernardes. E o objetivo era uma nova Constituição para o Brasil.

Senador
Após ser solto ao pegar carona na redemocratização de 1945, Prestes se elegeu senador pelo PCB com mais de 160 mil votos. Com a cassação do registro do partido, em 1947, no entanto, teve a prisão preventiva decretada e foi obrigado a retornar à clandestinidade por 11 anos, até que teve a ordem de prisão revogada por pouco tempo. Com o golpe militar de 64 continuou escondido até se exilar na URSS em 1971, no auge da repressão do governo Garrastazu Médici (1969-1974).

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