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Pandemia
Entenda como a Covid-19 está atrapalhando o desempenho do seu time no Brasileirão
Tanto assintomáticos quanto sintomáticos tiveram perda da capacidade física; queda de rendimento pode chegar até mais de 15%
O Globo
13/12/2020 | 14:49

Quem trabalha com o corpo na mais alta performance sofre com qualquer interrupção da atividade. Imagina ficar totalmente parado por pelo menos 10 dias com um vírus se replicando no organismo capaz de causar as mais diversas inflamações e sequelas.

É nesse cenário de pandemia nunca controlada que o futebol se desenrola no Brasil desde agosto, vê surtos nos elencos — como os de Flamengo, Palmeiras e Goiás — e, consequentemente, queda de rendimento em campo com o rápido retorno dos jogadores. A queda do desempenho vem impactando os resultados dos times.

Ainda pairam perguntas sem respostas sobre todos os efeitos e riscos da Covid-19 , mas a literatura médica já é capaz de afirmar: após a doença, o jogador terá perda de condicionamento físico, em média, mais acentuada do que em outros tipos de viroses e interrupções de treinamentos. Não importa se o caso foi assintomático ou se desenvolveu a doença de forma leve ou grave. Ainda assim haverá algum comprometimento.

Acostumado a avaliar jogadores de futebol em pré-temporada e ao longo do ano, o fisiologista Gabriel Espinoza, do Laboratório de Performance Humana da Casa de Saúde São José, percebeu empiricamente a relação entre a Covid-19 e a redução da capacidade física.

“Temos observado a perda da capacidade aeróbica e da resistência física. Sob o mesmo esforço de antes, o atleta mostrou mais cansaço e frequência cardíaca aumentada. Alguns tiveram perda de mais de 15% da capacidade aeróbica. Normalmente, depois de 15 dias parado, essa perda fica em torno de 5%”, explica.

Exemplificando, aquela descida em velocidade na linha de fundo ou uma puxada a mais no treino vão cobrar um preço logo depois. O cansaço e o tempo de recuperação do esforço têm sido maiores. Logo, é impossível manter a qualidade do treinamento e, consequentemente, em todo o jogo.

“O músculo funciona usando energia e oxigênio. A comunicação é feita pelo sistema nervoso e é integrada com o pulmonar, cardíaco e metabólico. Não sabemos o impacto da Covid-19 no estímulo nervoso, mas sabemos do metabólico, que afeta as mitocôndrias, que são o nosso grande motor de resistência”, analisa o fisiologista.

O impacto se torna maior ainda por causa dos surtos. Um jogador em recuperação mais lenta da Covid-19 terá um peso na composição do time. Mas quando quase toda a equipe é contaminada pelo vírus de uma só vez, não há para onde correr.

Na semana de 18 de novembro, por exemplo, um levantamento feito pelo ge mostrava que 61 jogadores de nove clubes da Série A estavam afastados por Covid-19 de uma só vez. Só o Palmeiras tinha 18 atletas; seguido do Atlético-MG, com 10; do Vasco, com 9; e do Fluminense, com 5. Até agora, a CBF adiou oito jogos das quatro divisões do futebol brasileiro por causa da doença.

Déficit de performance

Com a profusão de casos, os técnicos se veem com poucas opções de jogadores para escalar por até duas semanas. Depois, o departamento médico tem o desafio de recuperá-los rapidamente.

“O déficit de performance está mudando a cara do time de futebol no pós-Covid-19, principalmente por causa do número de atletas contaminados ao mesmo tempo”, afirma o especialista em medicina do esporte Páblius Staduto Braga.

Nem sempre a rápida recuperação é possível. A Covid-19 tem entre suas peculiaridades a heterogeneidade de sintomas e sequelas no corpo. Cada pessoa, incluindo os jogadores de futebol, pode reagir de uma forma completamente diferente da outra. Isso também vale para a recuperação. No pouco que se sabe sobre a doença, não é possível definir quem vai recuperar o condicionamento físico em três semanas ou em três meses, parcial ou totalmente.

O atacante Rafael Moura, do Goiás, revelou que sofreu perda da capacidade pulmonar durante a infeção em outubro e só retornou ao time após sete partidas:

“Tive Covid-19, tive 25% do pulmão acometido. Tomei remédio, fiquei mais debilitado, a gente não conhece essa doença. Tive uma conversa com o Enderson (Moreira), que era o treinador. Depois do falecimento da minha mãe, era óbvio também que não estava na melhor condição física, técnica e emocional. Tivemos uma conversa clara em que ele iria me tirar da equipe”, conta.

Os médicos dos clubes admitem todos os desafios impostos pela pandemia. Num campeonato espremido entre outras competições, o que podem fazer é atenuar os efeitos do pós-Covid-19.

Márcio Tannure, chefe do departamento médico do Flamengo, por exemplo, viu um surto devastar o elenco do rubro-negro no fim de setembro durante a viagem ao Equador pela Libertadores. Para contabilizar os casos, ele prefere enumerar quem não teve Covid-19: apenas três jogadores. Os demais foram retornando em outubro, cada qual com um nível físico diferente, independentemente dos sintomas.

Ele reconhece que a volta quase imediata aos jogos está longe do ideal e tem efeito direto no comportamento do time, além do aumento de lesões e maior demora no retorno. A estratégia tem sido definida em conjunto com a comissão técnica.

“Seria importante que tivéssemos mais tempo para promover um retorno gradual e poder entender as adaptações fisiológicas e metabólicas de cada jogador, além dos efeitos do treinamento nessa nova condição, numa comparação entre o antes e o pós-Covid”, explica.

Retorno com perdas

O Botafogo teve, até o momento, 22 jogadores que testaram positivo para o novo coronavírus desde junho. O clube, porém, não chegou a viver um surto que pudesse impactar no rendimento em campo. Já são cinco rodadas sem novos casos.

“Na maioria das vezes, o jogador voltou com alguma perda. Sabemos que os casos podem acontecer, mas não estamos permitindo que seja em massa, com muita testagem e protocolo rigoroso dentro do clube”, diz o chefe do departamento médico Christiano Cinelli.

O infectologista Hélio Bacha, da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), fala com propriedade dos efeitos da Covid-19 no corpo. Ele teve a doença e chegou a perder 10 quilos. Aos 70 anos, sabe que o vírus é mais perigoso na sua idade. Mas ele ressalta que os jogadores de futebol, mesmo não estando no grupo de risco, precisam se cuidar, pois dependem do corpo:

“Quem vive da atividade atlética deveria se cuidar mais ainda e manter os cuidados de distanciamento do que os outros. Eles vivem disso e o impacto é grande”.

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