BUSCAR
BUSCAR
Marcelo Hollanda
Enfermeira brasileira tentou entrar ilegalmente nos EUA, na semana passada, e morreu no processo
Confira a coluna de Marcelo Hollanda desta terça-feira 21
Marcelo Hollanda
21/09/2021 | 08:14

A fronteira do caráter: ter ou não ter
Uma enfermeira brasileira tentou entrar ilegalmente nos Estados Unidos na semana passada e morreu no processo.

Abandonada por amigos de infância que a acompanhavam nessa empreitada e prometeram voltar para resgatá-la (mas não cumpriram a promessa), uma vez instalados dentro do sonho americano, comemoraram.

A irmã da pobre mulher estava indignada com a festinha daqueles amigos da onça. Ela espera que um dia eles paguem caro pela deslealdade, o que parece mesmo um valor dispensável para muita gente.

Para esses brasileiros que tentam uma vida melhor em outro país, nada abalará a vitória deles, nem um cadáver estirado numa fronteira árida, mesmo que seja de uma velha amiga.

É um problema ancestral a falta de caráter no Brasil.

Não é de hoje que ele está embutido na cultura de pessoas que passam a vida se importando demais com a existência de outras pessoas, mas que são incapazes de um gesto de solidariedade quando convocadas.

Parcela considerável dessa gente costuma entender todos os problemas da existência a partir de seus estreitos pontos de vista e de suas diminutas necessidades.

Ser abandonado no deserto para morrer por desconhecidos já seria vil por natureza; por amigos ou conhecidos de longa data, é simplesmente intragável.

Disse a irmã da enfermeira morta a um jornal que ela chegou a confrontar a comemoração daqueles que conseguiram entrar ilegalmente nos EUA.

Eles lamentaram, mas ainda assim justificaram a comemoração pela conquista. Afinal, poderão agora limpar latrinas e faxinar casas ganhando numa moeda que os permita uma vida mais digna.

O Brasil de hoje faz jus a essas pessoas.

Afinal, dignifica parte da elite brasileira que olha o povo de cima e ainda não resolveu suas dúvidas sobre o que deseja do país: fazê-lo crescer com paridade de oportunidades e ou sugá-lo até a última gota.

Se o mundo tal como conhecemos foi fruto de brutalidades infindáveis, com guerras e genocídios calculados, a civilização só pode olhar o futuro depois de considerar os horrores do passado.
Sem dúvida, o Brasil vive hoje esse grande dilema.

Sempre a inflação
A inflação que assusta os brasileiros mais pobres e extensas faixas da classe média não pretende cair, muito menos com um presidente obcecado com a reeleição. Segundo o correspondente do Valor Econômico em Genebra, Assis Moreira, os estoques globais de alimentos estão menores agora no mundo do que no começo da pandemia.

O que diz a FAO
Assis ouviu a esse respeito o economista-chefe da Organização das Nações para a Agricultura e Alimentação (FAO) Máximo Torero. Ele reconheceu que estoques menores exercem grande pressão sobre os preços agrícolas. E, é claro, repercute no bolso de milhões de pessoas ao redor do mundo, especialmente em países com inflação de preços em alta. Há, por outro lado, uma concentração crescente de alimentos em alguns poucos países, como EUA, Índia, continente europeu, Brasil, Argentina e Rússia, numa impressionante proporção que alcança 76%.

E depois?
Quando terminar a temporada, esses estoques ficarão em torno de 809 milhões de toneladas, com uma relação entre os estoques e o consumo por volta de 28% abaixo dos níveis registrados na safra passada (2020/2021).

Tamanho da fome
Não custa lembrar que a alta nos preços de energia e do câmbio são fatores acessórios que agravam o problema de preços de alimentos e que um clima de tensões políticas não ajuda em nada essa situação. Não é um problema exclusivamente brasileiro, óbvio, mas aqui a massa de 15 milhões de desempregados formais e a resposta minguada da economia são problemas subsidiários que um auxílio de R $300 Reais por mês para as pessoas em estado de insegurança alimentar não bastará.

Fim de festa
Agradar seu grupo mais radical e também cada vez mais minguado de apoiadores está levando o presidente Jair Bolsonaro ao mesmo número de interlocutores que Adolf Hitler tinha no fim da guerra, quando os russos de um lado e os ingleses, de outro, batiam às portas de Berlim. Essa tendência vai se acentuar nos próximos meses, quando parte de seu primeiro escalão se candidatar aproveitando-se dos votos dessa minoria operosa e barulhenta, rezando para que seu passado seja logo esquecido quando os aliados retomarem o poder.

Sede: Av. Hermes da Fonseca, 384 – Petropolis – Natal – RN – Cep. 59020-000
Telefone: (84) 3027-1690 / 3027-4415
Redação: (84) 98117-5384 - [email protected]
Comercial: (84) 98117-1718 - [email protected]
Copyright Grupo Agora RN. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização prévia.