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Enem deve ser adiado por causa do aumento de casos de covid? Veja o que dizem especialistas
Provas estão marcadas para os dias 17 e 24 de janeiro, em meio à alta no número de infectados pela covid-19. Mais de 5,7 milhões de estudantes em todo o País estão inscritos para realizar as provas, principal forma de acesso ao ensino superior público
Estadão
08/01/2021 | 19:00

A poucos dias do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), tem crescido a pressão de estudantes pelo adiamento da prova, considerando o aumento de infecções pela covid-19 em todo o Brasil. Especialistas em Saúde ouvidos pelo Estadão consideram que a realização da prova neste momento pode agravar o quadro da pandemia no Brasil e oferece risco aos alunos. O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), responsável pela prova, diz que as datas estão mantidas e afirma que a realização do exame é segura.

A prova está marcada para os dias 17 e 24 de janeiro, em um momento em que o Brasil atinge 200 mil mortes pela covid-19, com curva ascendente de infecções. Algumas regiões, como o Estado do Amazonas e a cidade de Belo Horizonte, já determinaram o fechamento do comércio por causa do aumento das internações pela covid-19. Mais de 5,7 milhões de estudantes em todo o País estão inscritos para realizar as provas, principal forma de acesso ao ensino superior público.

Para a epidemiologista Ethel Maciel, o momento da pandemia no Brasil é grave e várias regiões podem registrar cenas que não viram na primeira onda, como o colapso do sistema de saúde e filas para UTI. “Considero que vamos colocar muitas vidas em risco e alguns candidatos precisam se locomover para chegar até o local de prova, vamos ter de mobilizar muitas pessoas”, diz ela, professora da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). “Esse jovem se contamina na prova, vai para a casa e leva a doença para lá. Estamos em um momento da pandemia em que essa prova seria muito inadequada, fere todas as nossas estratégias sanitárias.”

Ethel vê riscos dentro das salas de aula, mesmo que haja distanciamento entre as carteiras dos estudantes. “Quanto mais tempo você entra em contato com alguém infectado, a chance é maior de se contaminar. Esse tempo na sala não pode ser desprezado, mesmo que haja uma cerca distância”, afirma. As provas do primeiro domingo terão duração de 5 horas e meia. Ethel diz que protocolos como a disponibilização de álcool em gel são insuficientes para minimizar os riscos.

Já para o infectologista e professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Celso Granato, o risco é maior na entrada dos locais de prova. “Na sala de aula, fica todo mundo quietinho em cima da folha de resposta, o ambiente não é tão propício assim (para a contaminação)”, afirma. Já as aglomerações antes de abrir os portões preocupam. “Ali as pessoas estão falando alto, há muita gente junto. Existe uma relação entre volume de voz e a chance de transmitir a covid-19.” Ele considera que o exame deveria ser adiado considerando o momento da pandemia no País.

Nesta semana, o Estadão acompanhou a realização do vestibular da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), prova aplicada para 77 mil inscritos. Os candidatos relataram aglomerações na entrada, embora tenham elogiado o distanciamento dentro das salas. No fim da prova, também houve concentração de alunos. Um candidato foi desclassificado após apresentar febre e tosse. Para Granato, uma situação de provas como o Enem difere da liberação de escolas para aulas regulares, quando é possível escalonar a entrada dos alunos.

O infectologista ainda destaca o risco de que pessoas doentes escondam os sintomas para não perder a data da prova e, portanto, a chance de ingressar no ensino superior. Sobre isso, o Inep afirma que pessoas com sintomas ou confirmação da covid-19 não devem comparecer ao local de prova, mas podem pedir a reaplicação do exame. Nesses casos, é preciso apresentar documentação que comprove sintomas ou a doença na página do participante na internet.

A opção por realizar a prova em janeiro e não em maio de 2021, como preferiu a maioria dos inscritos ouvidos em uma enquete realizada pelo Inep, foi para não atrasar ainda mais o calendário de ingresso no ensino superior. O Inep diz ter investido R$ 69 milhões para realizar a prova com segurança. Nesta edição, devem ser usadas 205 mil salas, em 14 mil pontos de aplicação. Em 2019, o Enem foi aplicado em 145 mil salas, em cerca de 10 mil locais de prova. O uso de máscaras pelos candidatos será obrigatório.

Segundo Alexandre Lopes, presidente do Inep, haverá espaçamento entre os alunos, menos participantes em cada sala e a identificação dos estudantes será feita do lado de fora. Também será disponibilizado álcool em gel para todos os participantes e aplicadores. As salas de aula deverão priorizar a ventilação natural e a aeração dos ambientes.

Mas entidades estudantis temem que os protocolos não sejam suficientes. “Não há confiança por parte de muitos estudantes, seja pelo cuidado com a saúde, muitos em grupo de risco, ou mesmo pelas restrições impostas nos Estados e municípios”, afirmaram em nota conjunta a União Nacional dos Estudantes (UNE) e a União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (Ubes).

Nesta quinta-feira, Ubes informou que entraria com nova ação judicial para que o exame seja adiado. A presidente da entidade, Rozana Barroso, também pediu que estudantes façam denúncias ao Ministério Público Federal.

Para Andressa Pellanda, coordenadora geral da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, não há “possibilidade de realizar prova em um pico de pandemia”. “Os estudantes estão tendo que escolher entre fazer a prova e colocar em risco a si e a seus familiares ou não fazer e cuidar de sua saúde e dos seus”, afirma. Nesta quinta-feira, o deputado federal Bacelar (Podemos) disse que o Congresso pediu explicações sobre o Enem ao MEC, mas não obteve respostas. Ele também vem cobrando o adiamento da prova.

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