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Publicação
Em livro, cocriadora do Black Lives Matter conta como o movimentou surgiu a partir de uma hashtag
Alicia Garza oferece uma narrativa inteligente, atenciosa, introspectiva e decisivamente autorreflexiva sobre como ela se tornou uma das organizadoras do movimento e o que aprendeu ao longo do caminho
Guy-Uriel Charles, Especial para o Washington Post
19/12/2020 | 19:20

Testemunhei meu primeiro protesto Black Lives Matter por acaso. Estava fazendo compras em um shopping de Durham, Carolina do Norte, no ano de 2014, quando um grupo de manifestantes – uns trinta, talvez – começou a entoar palavras de ordem. “Vidas pretas importam”, bradavam, como se estivessem sob algum tipo de encantamento. Vendo-os caminhar em círculos, solenemente, quase que em espírito de oração, eu me senti impelido a me juntar a eles. Há algo profundamente convincente na frase “Vidas pretas importam”. É uma declaração de resistência e afirmação.

Mas também há algo profundamente contraditório. É, em primeira instância, declaração de uma verdade descritiva e evidente: o céu é azul, as vidas pretas importam e importam tanto quanto as vidas brancas. No entanto, o fato de ser necessário proferir essa declaração é uma evidência prima facie de que ela é contestada como uma proposição de verdade. Se as vidas pretas importassem e importassem tanto quanto as brancas, não haveria necessidade de dizê-lo. A declaração é proferida sobretudo em contextos nos quais as vidas pretas claramente não importam, caso contrário, não seriam tratadas como dispensáveis. Assim, a afirmação “Vidas pretas importam” também é uma proposição normativa: diante das evidências em contrário, declaramos que as vidas pretas deveriam importar. Por fim, “Vidas pretas importam” é uma declaração prescritiva. Estipula o que precisamos fazer para garantir que as vidas pretas continuem a importar ou para garantir que as vidas pretas um dia venham a importar. Não é de se surpreender que a hashtag tenha se popularizado e impulsionado um movimento.

Em The Purpose of Power: How We Come Together When We Fall Apart [“O propósito do poder: como nos juntamos quando nos despedaçamos”, em tradução livre], Alicia Garza oferece uma narrativa inteligente, atenciosa, introspectiva e decisivamente autorreflexiva sobre como ela se tornou uma das organizadoras do movimento e o que aprendeu ao longo do caminho. Garza, junto com Patrisse Cullors e Opal Tometi, é uma cocriadora – ela não usa a palavra “fundadora” – do movimento Black Lives Matter. Garza foi a primeira a usar a hashtag #blacklivesmatter em uma postagem de rede social, em julho de 2013, em resposta à absolvição de George Zimmerman por homicídio culposo em segundo grau. Zimmerman atirou e matou Trayvon Martin, adolescente preto que estava visitando seu pai e saíra para comprar doces para seu irmão.

Embora Garza conte a história de como e por que o Black Lives Matter deixou de ser uma hashtag para se transformar em uma organização, uma de suas mensagens mais consistentes é que não basta uma hashtag, por mais viralizada e convincente que seja. “Hashtags não constroem movimentos. São as pessoas que os constroem”, ela escreve. Garza quase despreza as muitas pessoas que procuram seus conselhos sobre como fazer sua marca crescer e viralizar. Uma de suas passagens mais engraçadas fala sobre a “brilhante jovem irmã preta” que lhe deu um cartão de visita que a identificava como “estudante influenciadora”.

Garza é bastante crítica e ambivalente – e perspicaz – quanto ao uso das redes sociais para promover mudança social. “Movimentos bem-sucedidos sabem como usar as ferramentas da mídia e da cultura para comunicar o que defendem”, explica ela, “e para ajudar a pintar a imagem de como o mundo alternativo pode ser”. Mas, para Garza, o que mais importa é o que acontece offline. Como ela explica, “ainda não acredito que os seguidores do Twitter e os amigos do Facebook representem a quantidade de influência que você tem”. Garza quer mudança, quer mudar a implacável precariedade material que aflige aquelas pessoas que estão à margem da sociedade americana. E reconhece que a “mudança requer poder”. Para conseguir poder, você precisa de um movimento social. Não basta acumular curtidas e retuítes.

Garza é uma contadora de histórias talentosa. O que faz este livro brilhar, porém, não são as histórias que ela conta, mas sim sua admirável clareza de propósito. Ela emprega aforismos curtos que têm um grande efeito, como “Governança é poder” e “Vencer é mais do que ter razão”. O livro se divide em três partes, cada uma com seis capítulos breves. A primeira parte é mais ou menos autobiográfica. Garza nasceu em 1981, filha de mãe preta e pai judeu cujo relacionamento fracassou bem cedo. Foi criada por sua mãe, a principal figura formadora de sua vida. Sua mãe a ensinou a ser feminista, embora não se identificasse explicitamente como tal. Quando estava na sétima série, Garza e sua família se mudaram para Tiburon, Califórnia, cidade que ela descreve como “um enclave rico e predominantemente branco do outro lado da ponte Golden Gate de São Francisco”.

A experiência de Garza com raça repercute em todas as crianças pretas que cresceram em bairros de classe média predominantemente brancos. “Minha negritude era demonizada e romantizada”, ela escreve. “Muitas vezes eu era a única pessoa preta que meus amigos conheciam – e eu não era como os pretos que eles viam na televisão (…). Eu sabia que as coisas que me deram acesso aos alunos brancos – meu cabelo alisado, minha proximidade com a riqueza e o privilégio dos brancos, os recursos que me permitiam crescer academicamente – nem sempre estavam acessíveis aos meus poucos colegas pretos”. Na Universidade da Califórnia em San Diego, Garza adquiriu a educação e as ferramentas intelectuais para articular as complexas formas pelas quais a raça, o gênero e a sexualidade funcionavam no cenário social e político americano.

Na segunda parte do livro, Garza se concentra em seu crescimento como organizadora. Um programa de estágio de oito semanas lhe proporcionou formação acadêmica e prática, e ela “aprendeu como engajar outras pessoas no lento processo de mudança do mundo”. Sua experiência mais formativa foi a primeira como organizadora profissional. “A Primeira Luta”, capítulo sobre a organização da seção Bayview-Hunters Point de São Francisco, é quase um manual para organizadores iniciantes. Ela escreve que desde cedo aprendeu que você não consegue organizar as pessoas a menos que as ouça e as envolva na luta. Ela aprendeu que você precisa da coalizão mais vasta possível. E às vezes você precisa incluir na sua coalizão pessoas que não compartilham da sua política. “Isso não significava que devêssemos ser menos radicais”, escreve ela. “Significava que ser radical e ter uma política radical não era um pré-requisito para alguém se juntar ou não ao nosso movimento”.

A terceira parte do livro é, em muitos aspectos, a mais estimulante em termos intelectuais. Achei Garza menos convincente quando ela expõe conceitos teóricos não ancorados em suas experiências; ela está no seu melhor quando usa essas experiências para articular sua filosofia política e escavar os desafios e limitações da organização do movimento. Um exemplo notável é a teoria da libertação preta, que está no cerne de sua filosofia política, é seu princípio norteador. Garza quer construir um movimento que coloque a experiência preta no centro e, ao mesmo tempo, seja acessível a todos. “Qualquer agenda progressista que não inclua o bem-estar e a dignidade das comunidades pretas como pilar fundamental não é progressista de verdade, de forma alguma”.

No capítulo “Plataformas, pedestais e perfis”, Garza argumenta que não há nada de errado em líderes de movimentos construírem os perfis e plataformas que são necessários para o poder político. “Para mim”, declara ela, “o único uso possível de uma plataforma ou de um perfil é estar a serviço da estratégia de um movimento”. Ela afirma que não há nada de novo para os ativistas dos direitos civis, desde que o objetivo seja a mudança social. Por exemplo, ela escreve, “uma plataforma dos dias de Martin Luther King Jr. pode ter sido a congregação de uma igreja, enquanto hoje uma plataforma pode ser uma página de rede social”. King e líderes de direitos civis do passado usaram seus perfis e plataformas “para mudar o modo de vida de milhões de pessoas em todo o país”. Garza sabe que as redes sociais possibilitam a rápida construção de um perfil, ao contrário do que era possível na época de King. Mas, para ela, é uma diferença de grau, não de espécie.

The Purpose of Power é um livro admirável, cativante e genuinamente iluminador. Reflete as lições que uma brilhante mulher preta destilou ao longo de vinte anos em sua busca para transformar o mundo ao seu redor em um lugar melhor. Garza projeta idealismo, pragmatismo e realismo. Um dia, talvez em um futuro não muito distante, os historiadores escreverão sobre um dos movimentos sociais mais importantes do século 21. E quando o fizerem, vão escrever sobre Alicia Garza. Escreverão que ela acreditava na resistência e no poder e em garantir que as vidas pretas importassem – e, portanto, que todas as vidas importassem.

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