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Artigo
Élio Wanderley de Siqueira Filho: É preciso voltar a sentir
Confira o artigo de Élio Wanderley de Siqueira Filho desta sexta-feira 6
Élio Wanderley de Siqueira Filho - Desembargador federal
06/08/2021 | 09:08

Nestes tempos de pandemia, é imprescindível voltar a sentir!

Como é amplamente divulgado, são sintomas relativamente comuns da Covid-19 as perdas do olfato e do paladar. A recuperação, para além do retorno da função pulmonar e de outras que venham a ser, eventualmente, afetadas pela doença, requer a volta do sentir gostos e cheiros. Por outro lado, da humanidade, ainda que supostamente sã, exige-se cada vez mais a empatia, o sentir o outro, como se fosse a si mesmo, sob pena de ter perdido a sua própria essência, que lhe faz ser.

A complexa atividade do magistrado reclama inexoravelmente o sentir. Não é à toa que o ato judicial por excelência é a sentença (do latim sententia, derivação do verbo sentire). Não se pode decidir sobre a vida, a liberdade, o patrimônio, os valores mais caros aos seres humanos, prendendo-se, tão somente, de modo abstrato, sem qualquer exercício do sentir, em informações frias, lançadas em autos virtuais pelos profissionais do direito.

Mais do que nunca, urge aperceber-se da angústia daqueles que batem à porta do Judiciário, para pedir que o seu sofrimento chegue a um fim. E, para bem entender os que têm fome e sede de justiça, há que se alcançar a sua verdade, verdade esta que se capta justamente com os sentidos.

Há que se fixar o olhar nos olhos dos que suplicam, captando a verdade ou a mentira que expressam, daí extraindo a solução do conflito que se lhe apresentam. Há que se ouvir o que têm a falar, a chorar, a gaguejar, enfim, deixar que brotem de seu âmago as palavras, rudes ou eruditas, que permitam transparecer os fatos e sobre eles dar uma resposta. Há que se identificar a linguagem corporal, vislumbrando o conteúdo que os olhares e o verbo ocultam ou distorcem. E o tato? Como não ler, nas mãos enrugadas de um agricultor, a prova dos anos laborados na lida no campo, sob o calor ou o frio inclementes e o peso e a rudeza dos instrumentos de trabalho?

Os fatos não acontecem nos autos, como diziam os antigos juristas, estão no mundo e cabe ao julgador apreendê-los em toda a sua inteireza. O juiz precisa, com certa regularidade, sair do fórum ou da frente da tela do seu computador e inspecionar, in loco, as misérias dos que o chamam. Os profissionais do direito, por mais competentes que sejam em seus ofícios, jamais conseguirão, se isolados, reproduzir, com inteireza, os fatos captados pelo conjunto dos sentidos, na sublime e sagrada missão de julgar.

Neste momento histórico em que, felizmente, a ciência começa a oferecer instrumentos para o retorno à normalidade, o Judiciário, igualmente, deve viabilizar esta possibilidade de volta ao contato presencial. Os meios eletrônicos, por mais eficientes que sejam, tão valiosos para propiciar o mínimo de continuidade às atividades judicantes, nunca serão capazes de espelhar, com plena fidelidade, o que só os sentidos proporcionarão. É emergente o decidir com base nos sentidos, e não, tão somente, pela reprodução de imagens e sons por equipamentos tecnológicos. Como aquele que adoeceu da Covid-19 necessita reaprender a respirar, caminhar, viver, cheirar, degustar, o Judiciário precisa voltar a ver o concreto, fora das telas de um PC, a realidade que grita lá fora e ouvir os clamores de uma população carente, angustiada e que confia no Estado Democrático de Direito, como instrumento de construção civilizatória.

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