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Investigação
Ela perseguiu os assassinos de sua filha por todo o México, um a um
Com uma arma de fogo, uma carteira de identidade falsa e vários disfarces, Miriam Rodríguez fez sozinha o trabalho de todo um esquadrão de detetives e desafiou um sistema onde costuma prevalecer a impunidade
Estadão
17/12/2020 | 18:00

Miriam Rodríguez levava uma pistola na bolsa enquanto abria caminho pela multidão que cruzava a ponte para o Texas. Parava a cada tanto para recuperar o fôlego e olhar mais uma vez para a foto de seu próximo alvo: o florista.

Ela o estava caçando havia mais de um ano, “stalkeando” online, interrogando os criminosos com quem ele trabalhava e até mesmo fazendo amizade com seus parentes para obter pistas sobre seu paradeiro. Agora ela finalmente tinha um rastro bem nítido: uma viúva ligara para dizer que ele estava vendendo flores na fronteira.

Desde 2014, ela vinha rastreando as pessoas responsáveis pelo sequestro e assassinato de sua filha de 20 anos, Karen. Metade deles já estava na prisão, não porque as autoridades tivessem desvendado o caso, mas porque ela os perseguira por conta própria, com um ímpeto meticuloso.

Ela cortou e tingiu os cabelos e se disfarçou de pesquisadora, de profissional de saúde e de funcionária eleitoral para saber seus nomes e endereços. Ela inventou desculpas para conhecer seus familiares, avós e primos desavisados que lhe passaram detalhes importantes, por menores que fossem. Ela anotava tudo e enfiava numa mochila preta, assim construindo sua investigação e caçando os criminosos, um por um.

Ela conhecia seus hábitos, seus amigos, sua infância, as cidades onde haviam nascido. Sabia que o florista vendia flores na rua antes de entrar para o cartel Zeta e se envolver no sequestro de sua filha. Agora ele estava tentando passar despercebido, de volta ao velho trabalho, vendendo rosas para sobreviver.

Sem tomar banho, ela vestiu um sobretudo sobre o pijama, pôs um boné de beisebol sobre o cabelo ruivo e botou a arma na bolsa, saindo em direção à fronteira para encontrar o florista. Na ponte, perambulou entre os vendedores em busca de carrinhos de flores. Mas, naquele dia, ele estava vendendo óculos de sol. Quando ela finalmente o encontrou, ficou muito alterada e chegou perto demais. Ele a reconheceu e saiu correndo.

Tentou fugir pela estreita passagem de pedestres, na esperança de escapar. Rodríguez, na época com 56 anos, o agarrou pela camisa e o empurrou contra o parapeito da ponte. Botou o cano da arma nas costas dele.

“Se você se mexer, eu atiro em você”, ela disse, de acordo com membros da família que sabiam de seus esforços para capturar o florista naquele dia. Ela o manteve ali por quase uma hora, esperando que a polícia chegasse para fazer a prisão.

Em três anos, Rodríguez capturou quase todos os membros vivos do bando que sequestrara sua filha para exigir resgate, uma galeria de criminosos que tentavam começar novas vidas – como cristão renascido, motorista de táxi, vendedor de carros, babá.

Ao todo, ela foi fundamental para pegar dez pessoas, uma caçada furiosa por justiça que a deixou famosa, mas vulnerável. Ninguém jamais desafiara o crime organizado dessa maneira, muito menos colocara seus membros na prisão.

Ela pediu escolta armada ao governo, temendo que o cartel finalmente quisesse dar um basta às suas investigações.

No Dia das Mães de 2017, semanas depois de ela ter perseguido um de seus últimos alvos, ela foi baleada e morta na frente de sua casa. Seu marido, que estava assistindo à televisão lá dentro, depois a encontrou caída na rua, o rosto no chão, a mão enfiada na bolsa, ao lado da pistola.

Para muitos na cidade de San Fernando, no norte do país, sua história representa muito do que está errado no México – e diz muito sobre seu povo, sua perseverança em face da indiferença do governo. O país está tão dilacerado pela violência e pela impunidade que uma mãe enlutada teve de solucionar sozinha o desaparecimento de sua filha. E morreu violentamente por causa disso.

Sua impressionante campanha – relatada em arquivos de casos, depoimentos de testemunhas, confissões dos criminosos que ela rastreou e dezenas de entrevistas com parentes, investigadores, amigos, policiais e moradores locais – transformou San Fernando, pelo menos por um tempo. As pessoas se comoveram com sua luta e se indignaram com sua morte. A cidade pôs uma placa de bronze em sua homenagem na praça central. Seu filho, Luis, assumiu o grupo que ela havia formado, um coletivo das muitas famílias locais cujos entes queridos haviam desaparecido. As autoridades prometeram capturar seus assassinos.

A caçada de uma mãe

O walkie-talkie pendurado no cinto do sequestrador zumbia sem parar, interrompendo Rodríguez, que implorava para que lhe devolvessem a filha.

As semanas que se seguiram ao sequestro de Karen haviam se tornado uma sucessão infinda e nauseante de ligações, ameaças e falsas promessas. Para pagar o primeiro resgate, a família de Rodríguez fez um empréstimo junto a um banco que oferecia linhas de crédito especiais para esse tipo de pagamentos.

A família cumpriu todas as instruções à risca. O pai de Karen deixou uma mala com dinheiro perto de uma clínica de saúde e ficou esperando, em vão, que os sequestradores a libertassem no cemitério local.

Com pouco a perder, Rodríguez pediu um encontro com os membros do cartel, os Zetas. Para sua surpresa, eles concordaram. Ela se sentou diante de um jovem esguio no El Junior, um restaurante da cidade.

Luis, irmão mais velho de Karen, havia se mudado para escapar do perigo. Mas Karen ficara para terminar a escola e ajudar a tocar a pequena loja de roupas de caubói de sua mãe, a Rodeo Boots.

Em 23 de janeiro, enquanto Karen se preparava para dar a partida, dois carros pararam, um de cada lado, e a bloquearam. Homens armados entraram na sua caminhonete e saíram em disparada, com ela dentro.

Eles a levaram para a casa da família, onde Karen ficava durante a semana, enquanto Rodríguez, que também trabalhava como babá no Texas, estava fora. Quando Karen já estava deitada no chão da sala de estar, amarrada e amordaçada, alguém bateu à porta: seu tio, que, sem saber o que estava acontecendo, viera fazer um conserto na caminhonete da família.

Os sequestradores entraram em pânico e também o pegaram. Depois fugiram.

Agora Rodríguez estava sentada diante de um deles, implorando para que libertassem Karen enquanto o rádio fazia alguns ruídos esporádicos. Ele garantiu que o cartel não estava com a filha dela, mas se ofereceu para ajudar a encontrá-la por uma taxa de US $ 2 mil. Rodríguez pagou. Em meio à estática do rádio, ela ouviu alguém chamá-lo pelo nome: Sama.

Depois de uma semana, ele parou de atender ao telefone. Outros telefonaram, afirmando que eram os sequestradores. Queriam um pouco mais de dinheiro, disseram, apenas US$ 500. A família duvidava que isso trouxesse Karen para casa, mas mandou o dinheiro mesmo assim.

A cada pagamento, uma nova esperança brilhava para Rodríguez. E, a cada tentativa fracassada de recuperar Karen, ela caía ainda mais fundo no desespero.

Rodríguez, já separada do marido, foi morar com a filha mais velha, Azalea. Certa manhã, algumas semanas depois do último pagamento, ela desceu e disse a Azalea que sabia que Karen nunca voltaria, que provavelmente estava morta. Disse tudo isso com naturalidade, como se estivesse descrevendo sua noite de sono.

Ela disse à filha que não iria descansar até que encontrasse as pessoas que levaram Karen. Iria caçá-los, um por um, até o dia em que morresse. Azalea ficou vendo a tristeza de sua mãe se transformar em decisão, sua esperança dar lugar à vingança.

Sua mãe já era outra pessoa.

A descoberta

Todo mundo posta fotos nas redes sociais, até mesmo pequenos gângsteres. Rodríguez só precisava que Sama cometesse um pequeno deslize.

Ela já havia confirmado seu envolvimento no sequestro de Karen, graças ao tio mecânico sequestrado junto com sua filha naquela noite. O cartel nunca teve a intenção de manter o jovem em seu bando e, depois que o dispensaram, Rodríguez vasculhou a memória do tio para que ele contasse tudo que tinha visto e ouvido.

Ela virou uma detetive de redes sociais, passando incontáveis horas a pesquisar o perfil de Karen no Facebook, em busca de pistas.

Certa manhã, deitada no sofá, ela descobriu uma fotografia do Facebook marcada com o nome Sama. Ela o reconheceu imediatamente: o mesmo corpo esguio, o mesmo rosto bem barbeado.

Na foto, ao lado dele havia uma jovem. Ela estava vestindo o uniforme de uma sorveteria a duas horas de distância, em Ciudad Victoria.

Rodríguez espreitou a sorveteria por semanas até saber de cor os horários da mulher, esperou do lado de fora a cada mudança de turno, até Sama aparecer. Quando ele finalmente apareceu, ela seguiu o casal até sua casa e registrou o endereço.

Mas, para forçar a polícia a agir, ela precisava de mais do que um local. Precisava de um nome. E, para conseguir isso, ela tinha de se aproximar.

Ela cortou o cabelo e o tingiu de vermelho vivo, para que Sama não a reconhecesse. Em seguida, vestiu um uniforme do governo que guardara de um antigo emprego de baixo escalão no Ministério da Saúde. Com uma identidade falsa em mãos, ela passava a maior parte do dia conduzindo uma pesquisa de mentira no bairro, até que conseguiu detalhes básicos sobre um dos captores de sua filha.

Quando o governo emitiu um mandado de prisão, Sama já havia fugido da cidade. Frustrada, Rodríguez redobrou seus esforços para identificar o resto do bando e, em pouco tempo, tinha uma pilha de fotos de Sama posando com outras pessoas.

E então, por puro acaso, Sama apareceu.

Era 15 de setembro de 2014, Dia da Independência do México. Luis, o filho de Rodríguez, estava fechando sua loja em Ciudad Victoria para participar das festividades. Mas ele tinha um último cliente: um jovem magro, dando uma olhada nos chapéus. Luis largou o que estava fazendo para vê-lo mais de perto. Era Sama.

Ele ligou para a mãe e começou a segui-lo, tomando cuidado para não o perder de vista antes que a polícia chegasse. Quando o prenderam na praça central, Sama se debateu e gritou, alegando que ele tinha um problema cardíaco.

Sob custódia, ele preencheu os detalhes que faltavam na investigação de Rodríguez, revelando os nomes e paradeiros de alguns cúmplices. Um deles, Cristian Jose Zapata Gonzalez, tinha apenas 18 anos quando a polícia o pegou, jovem até para os padrões do cartel.

Ele ficou assustado durante o interrogatório. Rodríguez estava do lado de fora da sala. O jovem pediu para ver sua mãe.

“Estou com fome”, disse ao policial.

Comovida, Rodríguez entrou na sala e deu seu lanche ao adolescente, um pedaço de frango frito, depois foi comprar uma Coca para ele. Quando voltou, o policial perguntou o que ela estava pensando.

“Ele ainda é uma criança, não importa o que fez, e eu ainda sou uma mãe”, disse Rodríguez, segundo sua amiga, Idalia Saldivar Villavicencio, que estava com ela no dia do interrogatório. “Quando o ouvi agora, era como se fosse meu próprio filho”.

Talvez emocionado por sua gentileza, Cristian contou tudo à polícia.

“Posso levar vocês até o rancho onde eles matavam as pessoas e onde seus corpos ainda devem estar enterrados”, disse ele em seu depoimento à polícia, referindo-se às vítimas da quadrilha de sequestradores. 

A procura

Um trator decrépito marcava a cova no rancho abandonado, ao final de uma estrada de terra. Buracos de bala cobriam as paredes externas da casa de adobe, resquícios de um tiroteio meses antes. Os fuzileiros navais mexicanos mataram seis dos cúmplices, disse Cristian em seu depoimento.

Rodríguez vasculhou os destroços deixados pelos sequestradores: manchas terríveis em tampos de mesa sujos, ossos de tamanhos variados, alguns cacos de alguma coisa. Uma corda pendurada no galho de uma árvore nodosa.

Ela congelou ao se deparar com uma pilha de pertences pessoais jogados num canto. Um cachecol que pertencia a Karen e uma almofada do assento de sua caminhonete estavam por cima, bem à vista.

Agentes forenses alegaram que Karen não estava entre as dezenas de corpos que haviam identificado no rancho. Mas Rodríguez questionou a análise das autoridades – e com razão. No ano seguinte, disse a família, um grupo de cientistas encontrou um pedaço de fêmur pertencente à sua filha.

No caminho de volta do rancho, Rodríguez passou por uma churrascaria perto da entrada da estrada de terra. Ela havia comido lá com Azalea apenas dois dias depois do sequestro de Karen.

Na ocasião, uma moradora do bairro que ela conhecia bem, Elvia Yuliza Betancourt, estava sentada a uma mesa, sozinha, tomando refrigerante. Rodríguez disse oi e perguntou se ela tinha ouvido falar de Karen. Àquela altura, todo mundo já sabia do caso. Mas Betancourt se fez de desentendida, o que Rodríguez achou estranho.

Agora, depois de passar pelo restaurante mais uma vez, ela se deu conta: talvez a jovem soubesse de alguma coisa. Talvez até estivesse vigiando o rancho, para o caso de a polícia aparecer.

Rodríguez correu para casa e mergulhou de volta na sua pesquisa, descobrindo que Betancourt tinha uma relação amorosa com um dos sequestradores de Karen, que estava na prisão por um outro crime não relacionado.

Assim como na sorveteria, Rodríguez esperou semanas na frente da prisão durante o horário de visitas, até que Betancourt finalmente apareceu. A polícia veio e a prendeu, descobrindo depois que alguns dos pedidos de resgate tinham partido de sua casa.

Com o passar dos meses, Rodríguez continuou a encher sua mochila preta com pistas que levantara dos arquivos do caso. Mas, a cada dia que passava, as trilhas ficavam mais apagadas.

Alguns dos cúmplices estavam mortos, outros na prisão. Os que ainda estavam nas ruas tentavam forjar novas vidas como motoristas de táxi, entregadores ou, no caso de Enrique Yoel Rubio Flores, como um cristão renascido.

Rodríguez foi para Aldama, pequena cidade natal de Flores, cerca de 13 mil habitantes, e fez uma visita à sua avó. Com um suspiro pesado, a idosa disse a ela que o menino sempre fora um problema, mas pelo menos agora ele estava indo à igreja.

Naturalmente, Rodríguez começou a frequentar o culto. E o encontrou lá.

Quando a polícia chegou e o prendeu, dentro da igreja, os crentes mal podiam acreditar, contou ela à sua família. Um pediu misericórdia a Rodríguez. Ela se enfureceu.

“Onde estava sua compaixão quando mataram minha filha?”, ela respondeu, conta sua família.

Morte no dia das mães

Um mês antes de ser morta, Rodríguez quebrou o pé ao perseguir um dos últimos alvos de sua lista, uma jovem que havia deixado a cidade e começado a trabalhar como babá para uma família em Ciudad Victoria.

Fiel ao seu método, Rodríguez passou dias à espreita na frente da casa da família, esperando a jovem aparecer.

Quando a polícia finalmente prendeu a jovem diante da casa, Rodríguez tropeçou ao correr em direção aos policiais e fraturou o pé. Ela ainda estava usando gesso e muletas no Dia das Mães.

Às 22h21, ela voltou para casa; estava mais uma vez morando com o marido na casinha laranja onde Karen vivia. Estacionou na rua e se esforçou para sair do carro.

Uma caminhonete Nissan branca parou silenciosamente atrás dela, de acordo com o relatório da polícia. Treze tiros foram disparados.

Sua morte deu forma à impunidade que perturba a vida cotidiana no México, e o governo decidiu reagir. Em poucos meses, prendeu dois dos culpados e matou outro num tiroteio.

As pessoas que ordenaram a execução continuam envoltas em mistério.

Luis ficou obcecado para descobrir a identidade dos mandantes. Mas até ele havia aprendido a lição que o assassinato de sua mãe pretendia ensinar: não faça nada além de pedir justiça e esperar as autoridades.

“Não cometerei os mesmos erros que minha mãe”, disse ele.

Embora ele tivesse assumido a liderança do coletivo de sua mãe, o movimento desapareceu depois que ela se foi.

Em junho daquele ano, quase um mês depois da morte de Rodríguez, autoridades do estado de Veracruz, agindo com informações que ela havia fornecido, prenderam outra suspeita no caso de Karen. A mulher espancara e torturara Karen durante o sequestro, pendurando-a como um saco de boxe e socando-a.

Rodríguez encontrara mais uma.

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