BUSCAR
BUSCAR
Editorial
Dúvidas de um ministro
Redação
23/04/2020 | 00:30

Em sua primeira entrevista coletiva, dada nesta quarta-feira, o novo ministro da Saúde, Nelson Teich, não deixou exatamente claro o que ele entende pelo relaxamento do isolamento social, tema tão caro ao chefe dele, o presidente Jair Bolsonaro.

Ao mesmo tempo em que justifica o relaxamento por regiões mais ou menos atingidas pela pandemia do novo coronavírus, o ministro admite ainda não dispor de dados sobre o tamanho da transmissão, por conta de uma subnotificação justamente abafada pelos efeitos do isolamento imposto até aqui nos estados.

Explica-se. Na medida em que mais pessoas se isolaram em casa, deixando de ganhar as ruas com a mesma intensidade de antes, fatores que as levavam normalmente aos hospitais e pronto-atendimentos registraram queda significativa.

Com menos carros transitando, o número de acidentes caiu, fazendo diminuir também o volume de clientes desse tipo de evento no sistema de saúde.

Nos EUA, o efeito do isolamento foi tão grande que até casos de enfarte e AVC caíram em Nova Iorque, epicentro no país da pandemia, para o espanto de intensivistas de hospitais.

Isso, porém, não parece ter reduzido as estatísticas de internação por eventos ligados ao Covid 19 em algumas regiões do País, notadamente São Paulo, Rio de Janeiro, Manaus, Ceará e Pernambuco, onde os números dispararam.Sabe-se, a partir do exemplo de outros países duramente atingidos pelo coronavírus, que a tendência é o deslocamento rápido dos contágios das áreas mais populosas, onde metrôs, ônibus e vida cosmopolita nutrem o vírus das concentrações de que ele tanto precisa para se espelhar.

Não que o ministro esteja errado ao preconizar isolamentos maiores em certas áreas e menores em outras. O problema – como ele bem admite – é que os dados que permitirão esse manejo são exatamente escassos pela brutal subnotificação dos casos pelas razões já conhecidas, entre elas, a falta de testagem na população.

Considerando que, diferentemente de outros países, o Brasil nunca entrou em regimes próximos de uma quarentena – aliás, bem longe disso – a única coisa que seguramente se sabe está no volume de corpos que andam descendo a mais nos cemitérios. E eles são muitos.

Como contra fatos não há argumentos, o que fica claro até a presente data é que a carência de dados reconhecida pelo ministro só reforça a suspeita de que ele ocupa um cargo pela metade, que não lhe dá liberdade alguma de exercício pleno de suas próprias convicções.

Não é novidade neste governo em que ministros transitam pelo fio de uma navalha manejada a partir da estrita vontade de um presidente que não convive nada bem com o contraditório, por menor que ele seja.

Que Deus permita que os dados dos quais carece o ministro da Saúde para exercer suas meias funções nos ajudem neste momento.

Sede: Av. Hermes da Fonseca, 384 – Petropolis – Natal – RN – Cep. 59020-000
Telefone: (84) 3027-1690 / 3027-4415
Redação: (84) 98117-5384 - redacao@agorarn.com.br
Comercial: (84) 98117-1718 - publica@agorarn.com.br
Copyright Grupo Agora RN. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização prévia.