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Disputa nada acirrada: cidade já tem prefeito e até vereadores ‘eleitos’
Cidade deve ter o mesmo prefeito e os mesmos vereadores que já tem hoje
UOL
12/10/2020 | 06:21

Com 2.200 habitantes, Inhacorá (RS) convive com uma situação no mínimo curiosa nas eleições deste ano: o prefeito e os nove vereadores estão praticamente eleitos. A cidade integra a lista dos mais de cem municípios que tiveram candidato único ao cargo de prefeito. Já na Câmara, o repeteco se deve à falta de candidatos, segundo políticos ouvidos pela reportagem.

Candidato à reeleição, Everaldo Bueno Rolim (PTB) vai concorrer ao lado de seu antigo opositor. Após um acordo entre os partidos, Emerson Cavali de Cargas (Progressistas) aceitou concorrer como vice na mesma chapa. Na eleição passada, o progressista perdeu para Rolim por apenas 49 votos. O UOL tentou falar com Cargas, mas ele não aceitou ser entrevistado.

Na Câmara, quatro dos nove vereadores ocupam a cadeira há oito anos seguidos. Arnaldo Mariano de Oliveira (PTB) é o único que está há 12 anos consecutivo no cargo.

O candidato Roque Clairto da Silva (PSB) também é vereador por três mandatos, mas não seguidos. Em 2012, o socialista disputou a prefeitura ao lado do atual prefeito, mas ambos foram derrotados.

Ao ser questionado por UOL por que não concorrer novamente à prefeitura, Roque rasga elogios ao atual chefe do Executivo. “O prefeito fez um excelente trabalho. Até passou pela minha cabeça tentar, mas, quando eu vi que os partidos maiores decidiram fazer o consenso (pela candidatura única), eu não quis, em respeito ao prefeito.”

Com mais quatro anos avista na vida política, Roque revela que, se dependesse da mulher dele, a nova candidatura não sairia. “Ser vereador numa cidade pequena é bem cansativo, judia. Se tu perguntasse para minha mulher se eu deveria continuar, ela pediria para eu parar. Mas eu gosto, consegui fazer coisas boas para o município.”

Colega de Roque na Câmara, Jeferson Sedinei Moura da Silva (PSD) vai para o segundo mandato. Ao UOL, comentou que desde a eleição passada é o único candidato do partido e, por isso, não há suplentes. Apesar do duplo mandato, garante que traz renovação à política local, já que ele e mais três vereadores são os mais novos.

Quando assumiram, há quatro anos, tinham entre 20 a 30 anos —hoje ele tem 41 anos. Além disso, o político integra um grupo de “oposição de diálogo”. “A gente vai tentar manter o diálogo com o prefeito e com os outros vereadores. Se um projeto não for para o bem da população, a gente vai ser contra. A gente sabe que são nove cabeças e, com certeza, vai ter algum embate.”

Também de oposição, Edelvan Cossentim (Progressistas) se viu sem partido no segundo ano de mandato. O Partido dos Trabalhadores, do qual fazia parte, foi extinto na cidade, após os líderes da sigla irem embora do município. “Aqui foi difícil fazer campanha pelo PT, que tinha coligação com partidos de direita. E também devido à rejeição nacional do PT.” Com isso, ele acabou migrando para o Progressistas, única sigla atualmente com dois vereadores na Câmara.

Apesar da vitória antecipada, o político diz que está fazendo campanha nas ruas. “Eu estou distribuindo adesivos, visitando as casas na cidade e no interior.”

Cidade já teve toque de recolher e morte por eleição

Mas a aparente calmaria na política é algo recente. Conforme o prefeito Everaldo Rolim (PTB), já houve toque de recolher e mortes devido à disputa eleitoral.

Antes dele, duas famílias se digladiavam pelo poder da pequena cidade. Na primeira eleição no município após a emancipação, em 1993, elas formavam uma coligação: com Evoli Neves da Silva, como prefeito, e Agenor Antônio Savariz como vice. Além dos dois, a esposa de Agenor, Cledi Marli, também assumiu o Executivo municipal. Ou seja, desde a criação do município, só houve quatro prefeitos.

“Existia disputa acirrada e dava muita violência no período eleitoral. O novo prefeito era definido por poucos votos. Em 2012, eu perdi para a Cledi por dez votos. Porém, em 2016, eu quebrei essa hegemonia”, relata o prefeito ao UOL.

Após as eleições, a rivalidade continuava, com o perdedor torcendo para o oponente não dar certo, segundo Rolim. “Não adianta falar mal do adversário, se não consigo atender as necessidades. Aí as pessoas começaram a pensar diferente. Antes, gastavam todo o dinheiro com outras coisas. Convenci a economizar e o dinheiro poupado usei em obra.”

Há um outro problema. Sem indústrias e essencialmente rural, a prefeitura é a maior geradora de empregos. No passado, com o racha político, a vitória nas eleições também dava poder de barganha —com troca de apoio por um emprego na prefeitura. Sem candidato opositor, a situação deixa de existir.

Além disso, Rolim exigiu que os secretários tivessem curso superior na área para assumir o cargo. O prefeito é farmacêutico e se formou na UFSM (Universidade Federal Santa Maria), onde permaneceu por dez anos até voltar a Inhacorá.

Finanças na corda bamba

Hoje, a cidade tem um orçamento anual de R$ 15 milhões. Para pagar a conta, a prefeitura depende de repasses do Estado e da União. Metade desse valor vem do FPM (Fundo de Participação dos Municípios), do governo federal.

Outros R$ 3,5 milhões são provenientes do governo estadual por meio do ICMS (Imposto sobre Operações relativas à Circulação de Mercadorias e Prestação de Serviços de Transporte Interestadual e Intermunicipal e de Comunicação). Há ainda o repasse anual de R$ 1,5 milhão do Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica), entre outros.

Com recursos escassos, a prefeitura não consegue repor as perdas salariais do funcionalismo, que está defasado. “Sempre vivemos na corda bamba”, resume o prefeito.

Para mudar o cenário, os vereadores tentam atrair empresas para a cidade. A estratégia, montada pelos políticos mais novos, garante às indústrias isenção de impostos por dois anos e terreno de graça, que será doado para o empreendimento. Por enquanto não houve interessados. “Queremos gerar empregos e movimentar a economia”, afirma Edelvan.

As candidaturas deles ainda vão ser analisadas pela Justiça Eleitoral. A falta de suplentes e o número menor de mulheres concorrendo podem obrigar os partidos a indicar mais postulantes ao cargo, observa Roque. Não há data para a análise ocorrer.

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