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Projeção
Desigualdade e concentração de vacinas em países ricos ameaçam adiar fim da pandemia da Covid-19
Em corrida contra o tempo, tentativas de garantir imunização igualitária esbarram em protecionismo e na corrida por doses; apenas 0,1% dos imunizados até o fim de março estão em países pobres
O Globo
04/04/2021 | 08:22

A desigualdade na vacinação contra a Covid-19, disse recentemente o diretor da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, torna-se “mais grotesca a cada dia”. Até o fim de março, segundo levantamento do New York Times, 86% das doses aplicadas no planeta foram para nações ricas ou de renda média-alta. Apenas 0,1% dos imunizados estão em países pobres.

Se o argumento moral não é suficiente para convencer da necessidade de uma vacinação mais igualitária, apontam especialistas ouvidos pelo GLOBO, os riscos sanitários deveriam ser. Conforme o vírus continua a circular, maiores são as chances de surgirem variantes mais contagiosas e resistentes, afirmam eles, prolongando a pandemia até mesmo para quem já está vacinado.

— Ninguém está seguro até que todos estejam seguros. É do interesse coletivo que se trabalhe em conjunto — disse Olivier Wouters, professor da London School of Economics e coautor de um artigo publicado pela revista Lancet sobre os desafios do acesso igualitário à vacina.

Hoje, o contraste se reflete na velocidade com que os países devem conseguir vacinar 75% de sua população, patamar em que se estima que a imunidade de rebanho comece a ser atingida. Estados Unidos, Reino Unido e Chile devem precisar de apenas três ou quatro meses. Nigéria, Ruanda e Irã levarão mais de uma década caso mantenham o ritmo atual. No Brasil, a estimativa é de um ano.

Desigualdade e concentração de vacinas em países ricos ameaçam adiar fim da pandemia da covid-19
Desigualdade e concentração de vacinas em países ricos ameaçam adiar fim da pandemia da Covid-19

Foi o temor da concentração de vacinas que fez a OMS, junto com organizações parceiras, lançar em abril de 2020 o consórcio Covax. Na busca de uma solução coletiva, a iniciativa promete garantir a todas as nações, independentemente de sua renda, doses suficientes para inocular 20% de sua população em 2021.

— É um dos melhores veículos que nós temos neste momento para garantir ao menos algum acesso igualitário aos países de menor renda — disse Chris Dickey, diretor de Saúde Pública Global na Universidade de Nova York.

O objetivo central é que 92 dos países mais pobres do mundo tenham acesso a estas doses, subsidiadas por doações de nações mais ricas e organizações diversas. Até o momento, a iniciativa arrecadou US$ 6 bilhões (R$ 34,3 bilhões), mas precisa de ao menos mais US$ 2 bilhões (R$ 11,4 bilhões) para cumprir a meta.

Alternativa Covax

O Covax serve ainda de intermediário entre laboratórios e governos com condições de arcar com suas próprias vacinas, mediação usada por cerca de 50 nações. Encomendas em maior quantidade teriam custos menores, enquanto as nações esperariam sua vez na distribuição.

Cento e noventa países — a quase totalidade dos 193 membros da ONU — aderiram ao consórcio de algum modo, mas vários mais abastados optaram por firmar contratos por conta própria. A estratégia diminuiu a confiança no mecanismo, e acirrou a disputa pela vacina.

— Os países ricos basicamente esvaziaram as prateleiras recorrendo diretamente aos produtores de vacina — disse Gavin Yamey, professor de saúde global e políticas públicas da Universidade Duke e integrante de um conselho não remunerado que ajudou na elaboração do Covax.

A disputa foi intensificada ainda por governos que investiram na pesquisa das vacinas e exigiram acesso prioritário à distribuição, como o americano e o britânico. Muitos apostaram na compra de grandes volumes de vários laboratórios na fase de testes. Se alguma não fosse eficaz, haveria alternativa.

O Canadá, por exemplo, assegurou doses suficientes para imunizar sua população cinco vezes, mesmo que agora encontre dificuldades para recebê-las, seja por atrasos na produção, apostas erradas ou pelo protecionismo de outros países. O mesmo vale para a União Europeia, que comprou mais que o dobro das doses necessárias, mas trava uma batalha com laboratórios para ter acesso às remessas e acelerar sua campanha de vacinação.

Ambos, ainda assim, devem conseguir imunizar 75% de suas populações até o meio de 2022. Em contraste, a previsão é que vários países periféricos só comecem a vacinar em grande escala após 2023.

Perspectivas de atraso

Das mais de 564 milhões de doses que foram aplicadas no planeta até o fim de março, apenas 6% vieram do Covax. A OMS afirma que deverá cumprir sua meta de fornecer 2 bilhões de doses em 2021, mas até o momento só enviou 32,9 milhões de vacinas para 70 países e territórios.

— É difícil dizer se o consórcio vai conseguir atingir o objetivo diante da competição imposta pelos países ricos — disse Wouters.

A desaceleração das exportações vindas do Instituto Serum, determinada pelo governo da Índia para poder aumentar o ritmo da vacinação internamente, deve atrasar ainda mais a distribuição pelo Covax. Sozinha, a fábrica assinou um contrato para produzir até 1,1 bilhão de doses para o consórcio entre 2021 e 2022.

Para a União Africana, que encomendou por conta própria 500 milhões de doses indianas, o atraso pode ser “catastrófico”, segundo o Centro de Controle e Prevenção de Doenças do continente.

O desequilíbrio entre demanda e oferta de doses, afirmam os especialistas, deve ser reduzido gradualmente, com o aval para o uso de novas vacinas e o aumento da capacidade de fabricação. Imunizantes que não precisam ser congelados e que demandam apenas uma dose devem catalisar o processo, particularmente em países com menos infraestrutura. Ainda assim, um horizonte de vacinação em massa continua distante.

A questão das patentes

Organizações dos direitos humanos defendem que parte da solução passe pela suspensão das patentes das vacinas. A África do Sul e a Índia levaram a questão à Organização Mundial de Comércio (OMC), mas esbarram na falta de apoio das nações ricas, onde as farmacêuticas mantêm suas sedes.

— Os países que acumulam vacinas são os mesmos que bloqueiam o conhecimento e a propriedade intelectual — opinou Yamey. — É uma desgraça moral que deveria nos deixar enojados.

Adeptos da medida argumentam que nenhuma economia ou sistema de saúde voltará à normalidade sem que a maior parte do planeta esteja imunizado. Sem patentes, segundo ele, seria mais fácil aumentar a capacidade de produção.

Adeptos da medida argumentam que nenhuma economia ou sistema de saúde voltará à normalidade sem que a maior parte do planeta esteja imunizada. Sem a propriedade intelectual, segundo eles, seria mais fácil aumentar a capacidade de produção.Grupos favoráveis à quebra de patentes também lembram que vários laboratórios receberam maciços financiamentos de governos e organizações sociais. Alguns, como a AstraZeneca e a Janssen, se comprometeram a vender doses a preços de custo. Outros, não.

Nos EUA, setores do Partido Democrata pressionam para que o presidente Joe Biden ao menos endosse um alívio das restrições, mas há forte oposição do lobby farmacêutico. Já o Brasil é contrário à ideia. Segundo o governo, os as regras atuais da OMC, que permitem a suspensão de patentes por cada país individualmente, são suficientes.

Wouters, contudo, afirma que a quebra das patentes seria apenas parte da solução. Produzir e distribuir doses, ele ressalta, demanda tecnologia e infraestrutura especializada que não existe em muitos cantos do planeta.

— O Brasil está em uma situação melhor devido às colaborações da Sinovac com o Instituto Butantã e da Fiocruz com a AstraZeneca — ponderou o professor.

Desigualdade interna

Mesmo em países onde há doses suficientes para todos, ressaltam os pesquisadores, a imunização coletiva enfrenta barreiras, como o movimento antivacina. Trata-se de um obstáculo não restrito, mas particularmente significativo em nações europeias como a França. Segundo dados do Imperial College referentes ao dia 30 de março, apenas 40,2% dos franceses tomariam a vacina se pudessem naquela semana.

As razões para isso, crê Dickey, variam de caso a caso e transcendem latitudes: vão do medo à desconfiança em governos e laboratórios, passando por informações falsas. Para o professor, é imperativo que as autoridades de saúde se comuniquem especialmente com os grupos mais vulneráveis:

— A desinformação ao redor da vacina é um grande obstáculo — afirmou. — É necessário que se dê um enfoque especial à comunicação com comunidades mais vulneráveis e de baixa renda, que já foram muito ignoradas.

Se os grupos minoritários são proporcionalmente mais afetados pela pandemia em países ricos, a desigualdade também se faz presente no acesso à vacina. Na Inglaterra, por exemplo, 90% dos brancos com mais de 70 anos já foram vacinados, contra 58,8% dos negros. Em 40 estados americanos analisados pela ONG KFF, em média 25% da população branca já foi vacinada. Entre os negros e latinos, as taxas são de 15% e 13%. 

— Isso não tem nada a ver com a hesitação diante da vacina. É racismo estrutural, sem dúvida nenhuma. — ponderou Yamey.

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