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Pandemia
Curva da epidemia no Brasil fica mais ‘alinhada’, e especialistas começam a ver a Covid-19 como uma endemia sazonal do outono
Diminui o intervalo entre picos de diferentes estados; especialistas veem sazonalidade similar à da gripe e provável necessidade de campanha anual de vacinação
O Globo
25/05/2021 | 11:08

 Em 2021, em 24 estados brasileiros, a pandemia da Covid-19 tem seu ciclo de auge nos óbitos concentrado ao longo de um mês e meio, no outono. Em comparação ao ano passado, quando os picos ocorreram ao longo de quatro meses e meio, há uma temporada de alta mais bem delineada, semelhante à curva da gripe.

Em 2021, porém, uma epidemia de Covid-19 está mais grave: nesta segunda-feira 24, o país ultrapassou a marca das 450 mil mortes causadas por Covid, após muitos estados apresentarem queda na mortalidade em relação aos picos atingidos em março e abril.

– Em 2020, uma epidemia no Brasil foi assíncrona. Já em 2021 é nítida a sincronia das ondas nos estados – afirma Wanderson de Oliveira, ex-chefe da Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde.

Segundo o cientista, em tese, isso implicaria risco menor de uma terceira onda com números maiores do que os observados entre março e abril. Essa sincronia, porém, não significa que para o período de auge o vírus não pode se estabilizar em níveis relativamente altos e preocupantes.

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Como medidas de distanciamento se afrouxaram mais em 2021, uma escalada de casos e mortes para o pico ocorrido de forma mais rápida. Apenas Roraima e Amazonas se anteciparam ao período de sincronia do outono, comportamento típico de gripe na região Norte.

Com os números entrando em queda após abril, diz Oliveira, a curva da epidemia se tornada semelhante não só à do vírus influenza, mas também à de outros patógenos causadores de síndrome respiratória aguda grave (SRAG), como visto em 2018 e 2019.

Segundo Oliveira, porém, mais do que tentar prever quando será o próximo pico, é preciso aproveitar o momento atual para intensificar os trabalhos de vigilância epidemiológica da Covid-19, que é mais efetiva fora do momento de auge.

– Pico é para contar história. Fora do pico é preciso testar mais ainda, ampliar a política de testagem – diz.

Vacinação anual

Uma das previsões de a Covid-19 estar se desenhando como endemia sazonal, diz o pesquisador, é a necessidade de iniciar uma campanha nacional de vacinação anual, como aquela feita para uma reclamação.

No caso de reclamação, a imunização periódica é essencial, pois a proteção oferecida pelas vacinas cai com o tempo, e porque a cada ano circula diferente das variantes do vírus influenza. A Covid-19 também está desdobrando em diferentes variantes, e não está claro ainda se a proteção da vacina será duradoura.

– Ainda é cedo para afirmar, por exemplo, se a vacina de Covid-19 fornecer ser reformulada todos os anos, pois o vírus pode apresentar estabilidade em algum momento – diz Oliveira.

A resposta nacional à pandemia é ainda mais crucial

O atual padrão da epidemia no Brasil, ele diz, deveria inspirar mudanças e adequações na política de combate à doença, o que não está ocorrendo.

– Está claro que as estratégias de resposta estão centradas nas mesmas premissas de 2020 – disse.

No contexto de alinhamento, a necessidade de uma coordenação de escala nacional para a resposta ao vírus se torna ainda mais importante. Uma crítica comum no meio da saúde é que o governo federal se omite da responsabilidade de desenhar essa política e dificultou a coordenação entre estados e municípios.

Um outro motivo para o alinhamento do auge da epidemia em março e abril de 2021, além da chegada do outono, pode ter sido uma reabertura simultânea nacional da economia. A circulação de pessoas destaca Jesem Orellana, da Fiocruz-Amazonas, aumentou consideravelmente e ocorreu muito contato humano no Réveillon e no Carnaval.

– Esse talvez tenha sido o elemento novo, somado à variante P.1 – diz o epidemiologista, em referência à cepa viral da Covid-19 que surgiu em Manaus.

O rápido espalhamento dessa linhagem mais transmissível do vírus também impulsionou a segunda onda. A capital amazonense, além de ter um calendário de gripe diferente, foi a primeira grande cidade a relaxar medidas de contenção do vírus de maneira expressiva.

– Manaus é um grande laboratório a céu aberto – diz o epidemiologista – Para entender o cenário como um todo, é preciso olhar para a P.1, para os relaxamentos precoces, para uma falha de controle da epidemia e também para uma vacinação mirrada nenhum país.

Adaptado ao calor

O epidemiologista Paulo Petry, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, alerta que, mesmo com picos eliminados, a Covid-19 não será um problema só sazonal. Para ele, a alta capacidade de contágio da Covid-19, que supera em muito ao vírus influenza, também pode significar uma mudança significativamente nesta equação.

– A sazonalidade dos vírus respiratórios tem ligação com o fato de que, com a temperatura caindo, como as pessoas tendem a fechar mais os ambientes, e hoje já sabemos que um dos grandes fatores protetores para o Sars-CoV-2 é a Condições dos locais fechados – explica.

– Mas esse vírus não depende muita dependência climática. É verdade que ele começou no inverno da China e da Europa, mas veio para o Brasil e se espalhou em fevereiro e março de 2020, no verão. A Europa também teve uma grande segunda onda no verão – lembra.

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