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Cornetas

01/07/2017 | 10:20

Interino: Rafael Morais*

Poucos são os treinadores no Brasil capazes de fazer silenciar a corneta da torcida. Palavras do apresentador da TV Cultura e ótimo escritor Vladir Lemos, o amigo do bailarino barbudo. De fato, no futebol brasileiro atual é possível contar nos dedos os treinadores que conseguem tal proeza futebolística.

 Chegar a esse ponto de confiança não é tarefa fácil, sobretudo pelas ingratidões que a profissão treinador de futebol reserva para quem se arrisca nela. Ser técnico no Brasil, principalmente, é dormir casado e acordar viúvo sem a morte da esposa anunciada ou sair pra dançar e não ter música na boate. Basta um gol perdido para ser eleito como o culpado da noite. Uma surpresa atrás da outra.

 Principalmente depois das modernidades acusadas pelo 7 a 1 da Alemanha em 2014. A configuração atual do futebol canarinho põe frente a frente uma geração de velhos treinadores, renomados, premiados, e sem espaço, com novos treinadores, jovens, organizados, estudiosos, observadores, criativos e com novas e modernas concepções de jogo.

 É uma espécie de “Apartheid do banco de reservas”. De um lado um pequeno grupo de clubes que ainda valorizam velhos nomes, sobreviventes dessa ventania de agosto, como Abel Braga, Renato Gaúcho, Celso Roth, Cuca, Paulo Autuori e até mesmo Geninho, no ABC. Do outro, o grupo dominante de clubes que apostam nas novas ideias, na criatividade, nos estudos exaustivos dos adversários e no poder de observação da nova geração, que tem figuras como Fábio Carille, Zé Ricardo, Jair Ventura e Roger Machado.

 Um dos sobreviventes é o mais novo ídolo da torcida brasileira. Tite foi um dos que conseguiu vencer na carreira, deixando de lado as feridas do passado. Aliou o estudo às suas imensas qualidades interpessoais e se tornou o treinador unanimidade do torcedor brasileiro. Senti esse poder de convencimento e imposição de respeito quando participei da sua coletiva de imprensa em Natal, após mais uma vitória da Seleção nas Eliminatórias da Copa da Rússia 2018. Era praticamente impossível se opor ou contestar qualquer que fossem suas palavras.

 Outros que conseguem ainda destaque nesse contexto são os treinadores do Palmeiras, Cuca, atual campeão brasileiro, e Geninho, em escala inferior, comandando o ABC desde 2016. É incrível como os dois conquistaram o respeito de suas torcidas. Eles não são imunes às críticas, mas convivem muito bem com seus erros e acima de tudo, conseguem imunidade no cargo, independente de vitórias, empates ou qualquer sequência negativa, de derrotas.

 Suas posições privilegiadas, com justiça e merecimento, perante seus torcedores fazem que os dirigentes, a grande maioria movida pela emoção e a paixão pelo futebol, e pouco resistentes à pressões externas das torcidas e de seus muitos conselheiros em assuntos futebolísticos, a no mínimo pensarem duas, três vezes, antes de tomar a decisão de mudar o comando fora das quatro linhas.

O bailarino de barba mal feita, na terceira saideira da noite, diria que nem o jabá ou o jabazinho, o “faz-me rir”, assim definido pelo publicitário e entusiasta de nascença, Rafael Medeiros, e famoso nas denúncias de Marconi Barretto, fundador do Globo, tem poder para derrubá-los de seus tronos. O bailarino nunca quis ser treinador. Achava que não esquentaria banco quando algum diretor meia-boca tentasse interferir nas suas convicções.

 Maquiavel disse que “às vezes, a aparência impressiona mais que a realidade”. Pode até ser. Mas, nesse caso não podemos negar que aparentemente eles são merecedores do poder que conquistaram. E isso vale muito. É admirável. Afinal, a primeira aparência quase sempre é a que fica e, querendo ou não, a realidade é que todos eles são capazes de fazer silenciar as cornetas de suas torcidas.

 *Rafael Morais é jornalista. Atualmente produz e apresenta o boletim esportivo Super Esporte 95, na 95 FM, e é comentarista do programa Universidade do Esporte, da FM Universitária. Em maio/2017, lançou o livro de crônicas “Futebol com Sotaque Potiguar”.

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