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Editorial
Conivência perigosa
Redação
05/03/2020 | 00:10

Não é, por certo, o caso da Venezuela, cujo ditador Nicolás Maduro cultiva uma profunda cumplicidade com as forças armadas do País e até com o judiciário. Mas a relação extremamente fraterna iniciada pelo presidente Jair Bolsonaro como o movimento grevista da PM no Ceará, endossada pelo ministro Sérgio Moro, da Justiça, abre um precedente perigoso no seio da institucionalidade.

Não é segredo para ninguém que, como força auxiliar das Forças Armadas, em número muito superior ao que compõe hoje as três armas, a Polícia Militar não pode receber nenhuma espécie de estímulo no que diz respeito a movimentos reivindicatórios, a despeito das notórias deficiências vividas pelas corporações.

Quando, ainda na campanha eleitoral, o candidato Bolsonaro cumpliciou com o movimento dos caminhoneiros, as consequências foram aqueles terríveis que se viram: desabastecimento e perdas bilionárias numa economia que luta para aquecer, mas que todo o ano recua, em meio a tantos problemas.

Se há um setor da sociedade que as instituições não podem “brincar” é com aquele que dispõe de milhares de homens armados, sob pena de pagar caro pelo flerte.

É como plantar uma tempestade perfeita num país onde a esmagadora maioria da população vive com menos de um salário-mínimo e não usufrui de esgoto em casa.

O governador Camilo Santa, por isso mesmo, faz bem quando não acena com anistias aos amotinados, enquanto o governo federal faz muito mal em manter lá um representante que promove os “encapuzados” à condição de verdadeiros heróis brasileiros.

A referência aqui tem nome: coronel reformado da PM do Ceará Aginaldo Oliveira, chefe designado da Força Nacional de Segurança no estado.

Hoje, a grande luta que se trava no Brasil, além de crime organizado (e este cresce a olhos vistos), é com as milícias organizadas dentro do Estado brasileiro. Estão longe de influenciar os milhares de homens e mulheres decentes que integram a corporação, mas estão lá, instalados como um câncer em busca de metástase.

São um fenômeno até mais perigoso, já que, enquanto se sabe onde os criminosos estão – ou seja, para além dos limites da legalidade –, as milícias se criam na barriga do Estado brasileiro e não é de hoje.

Legitimar suas ações, a exemplo do que aconteceu no Ceará, a partir de movimentos sindicais, é o mesmo que dar a esses grupos armados a força de pressão contra os governos estaduais, usando a população já acossada pela ação do crime como ativo de uma bolsa de trocas.

E isso é inadmissível.

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