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Reação
Congressistas reagem a desfile e presidente da CPI faz duro discurso contra Bolsonaro: ‘Ameaça de um fraco’
Relator da comissão afirma que militares devem ter consciência de seu papel e deixar de lado 'loucuras do presidente'
O Globo
10/08/2021 | 13:15

O desfile militar promovido pelo presidente Jair Bolsonaro na Esplanada dos Ministérios nesta terça-feira, mesmo dia em que pode ser votada a proposta de emenda constitucional (PEC) do voto impresso, provocou reação de parlamentares. Integrantes da CPI da Covid foram os primeiros a se pronunciar. O presidente da comissão, senador Omar Aziz (PSD-AM) disse que o desfile é uma demonstração de fraqueza.

Bolsonaro é defensor da medida, mas a expectativa é que o Congresso derrube a PEC. O presidente sustenta, sem provas, que houve fraudes nas urnas eletrônicas e já ameaçou não haver eleições em 2022 se o voto impresso não for adotado.

— Bolsonaro não tem o direito de usar a máquina pública para ameaçar a própria democracia que o elegeu. Em apenas dois anos e meio de mandato, Bolsonaro colocou o país nessa posição vexatória. Degradou as instituições, e rebaixou as Força Armadas, formadas em sua grande maioria por homens sérios e honrados. Todo homem público, além de cumprir suas funções constitucionais, deveria ter medo do ridículo. Mas Bolsonaro não liga para nenhum desses limites, como fica claro nessa cena patética de hoje que mostra apenas a ameaça de um fraco que sabe que perdeu — disse Omar Aziz na abertura da sessão desta terça-feira da CPI, acrescentando:

— Não haverá voto impresso. Não haverá golpe contra a nossa democracia. Instituições, Congresso à frente, não permitiria. Democracia tem instrumentos para defender a própria democracia contra arroubos golpistas. Agressões à Constituição não são legítimas. Defender golpe não é aceitável. Defender o fim da democracia precisa ser punido com o rigor da lei. Nós, os democratas, estamos aqui a postos, para defender a democracia e nosso país.

Operação Formosa: tanques de guerra desfilam em frente ao Palácio do Plnalto e do Congresso Nacional, em Brasília Foto: Cristiano Mariz / Agência O Globo
Operação Formosa: tanques de guerra desfilam em frente ao Palácio do Plnalto e do Congresso Nacional, em Brasília Foto: Cristiano Mariz / Agência O Globo
Demonstração de força dos militares acontece no dia em que a Câmara irá votar a proposta de adoção do voto impresso no país Foto: Cristiano Mariz / Agência O Globo
Demonstração de força dos militares acontece no dia em que a Câmara irá votar a proposta de adoção do voto impresso no país Foto: Cristiano Mariz / Agência O Globo
Bolsonaro recebeu o comboio de blindados e outros veículos militares na rampa do Palácio do Planalto, acompanhado de comandantes militares e do ministro da Defesa, Braga Neto, além de ministros civis Foto: Cristiano Mariz / Agência O Globo
Bolsonaro recebeu o comboio de blindados e outros veículos militares na rampa do Palácio do Planalto, acompanhado de comandantes militares e do ministro da Defesa, Braga Neto, além de ministros civis Foto: Cristiano Mariz / Agência O Globo
Oposição e até aliados do governo analisam o desfile como tentativa de intimidação Foto: Cristiano Mariz / Agência O Globo
Oposição e até aliados do governo analisam o desfile como tentativa de intimidação Foto: Cristiano Mariz / Agência O Globo
Esplanada dos Ministérios recebeu veículos militares, como tanques de guerra e carros com armamentos Foto: Fotoarena / Agência O Globo
Esplanada dos Ministérios recebeu veículos militares, como tanques de guerra e carros com armamentos Foto: Fotoarena / Agência O Globo
O ato provocou manifestações a favor e contra o presidente Bolsonaro Foto: Cristiano Mariz / Agência O Globo
O ato provocou manifestações a favor e contra o presidente Bolsonaro Foto: Cristiano Mariz / Agência O Globo
Manifestantes tenta entregar flores a soldado em frente ao Ministério da Marinha Foto: Cristiano Mariz / Agência O Globo
Manifestantes tenta entregar flores a soldado em frente ao Ministério da Marinha Foto: Cristiano Mariz / Agência O Globo
Manifestantes exibem faixa com pedido de impeachment Foto: Cristiano Mariz / Agência O Globo
Manifestantes exibem faixa com pedido de impeachment Foto: Cristiano Mariz / Agência O Globo

Omar Aziz disse que o desfile mostra a fraqueza de um presidente acuado pelas investigações de corrupção, inclusive da CPI, e pela incompetência que gera fome, desemprego e mortes. Ele afirmou que a democracia é inegociável e fez menção a um episódio ocorrido em 1984, no fim da ditadura militar, quando se discutia se o próximo presidente civil seria eleito de forma direta ou indiretamente pelo Congresso.

— Em 1984, estava eu aqui em Brasília quando o general Newton Cruz colocou seus tanques contra o voto direto. Não houve o enfrentamento, mas a história registra até hoje. Por isso o Congresso Nacional não pode se curvar a isso — disse Aziz.

Assim, o presidente da CPI pediu punição a golpistas:

— É necessário que tome providências. Punição àqueles que, mesmo brincando, falam de golpe como se fosse uma coisa normal. Àqueles que de uma forma de brincadeira tratam a democracia com se fosse uma coisa que não deve ser respeitada. Democracia deve ser respeitada. Divergência de opinião faz parte da democracia, O que não faz parte da democracia é arroubo, mostrar força aos próprios brasileiros. Mostre força para possíveis inimigos de fora do país, aqueles que querem atacar a soberania brasileira, não contra os brasileiros que construíram esta nação. Não vamos permitir isso. E eu espero que a CPI da Covid tome a frente disso e continue mostrando os desmandos que este governo tem em relação à morte de milhares de brasileiros, e de milhões de sonhos neste momento.

O vice-presidente da CPI, Randolfe Rodrigues (Rede-AP) destacou frase de Ulysses Guimarães, que disse “traidor da constituição é traidor da pátria”. Assim como Omar, Randolfe também afirmou que o desfile é uma demonstração de fraqueza.

— O que estamos vendo na Praça dos Três Poderes, na Esplanada dos Ministério é uma patética demonstração de fraqueza. Mais patético que os desfiles de Kin Jong-Un [ditador da Coreia do Norte] em Pyongyang [capital norte-coreana], que são para demonstrar força para inimigos externos. Este daqui é para demonstrar força diante de quem? Talvez não seja para mostrar forçar, mas para esconder e para desviar a atenção do que realmente importa. O que realmente importa é o balcão de negócios em que foi transformado o Ministério da Saúde. O que importa são os esquemas de corrupção que esta CPI está descobrindo. O que importa é a corrupção acumulada de quase 9%. São os 14 milhões de brasileiro desempregados. São mais de 563 mil famílias brasileiras órfãs do conta do negacionismo, do tratamento precoce sem eficácia, da pior gestão da pandemia no mundo.

Outros senadores da CPI também reagiram ao desfile.

— Hoje essa exibição totalmente desnecessária, desproporcional. É verdade que essa operação acontece muitos anos. Mas nenhuma vez nós tivemos a passagem de tanques, lança-foguetes pela frente do Congresso Nacional, pela frente do Supremo Tribunal Federal, especialmente em momentos relevantes como este, em que há debate parlamentar. Ninguém tem direito de ganhar no grito, de intimidar o Parlamento — disse Humberto Costa (PT-PE), completando: — Ele quer um pretexto para o caso de perder eleição acusar fraude e aplicar um autogolpe.

— Não é só dessa vez que o presidente da República busca pelos métodos de usar o “seu Exército” para intimidar o Congresso Nacional, o Supremo Tribunal Federal, os outros poderes. Não tem conseguido. Numa afronta clara à Constituição Federal no seu artigo 5º e também à legislação que garante a democracia — disse Otto Alencar (PSD-BA), afirmando que não se intimidaria.

Eduardo Braga (MDB-AM) disse que o voto impresso é um retrocesso. Ele também lembrou que o desfile ocorre no dia em que, além da Câmara poder votar a PEC do voto impresso, o Senado também pode revogar a Lei de Segurança Nacional da ditadura, substituindo-a por outra.

— Aí vem o presidente da República fazer uma demonstração de força com tanques e aparatos bélicos desfilando sobre a Esplanada dos Ministérios. Quero dizer que fico com a democracia. Fico com o artigo da Constituição que diz “todo o poder emanada do povo, em nome do povo será exercido”. Fico também com a Constituição brasileira que estabelece direitos fundamentais e coletivos que asseguram a liberdade de expressão, da pluralidade da nossa sociedade, o Estado Laico, que asseguram ao Brasil o direito de ir e vir — disse Eduardo Braga.

Rogério Carvalho (PT-SE) lembrou a declaração do deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente Jair Bolsonaro, em 2019 sobre um novo AI-5, numa referência ao ato institucional mais duro da ditadura militar brasileira.

— Não pode tolerar ato contra a democracia de nenhuma natureza, nem provocação, nem bravata. Ainda que o presidente da República seja o maior bravateiro da história deste país, nós não podemos tolerar as bravatas dele — disse Rogério Carvalho.

O relator da CPI da Covid, senador Renan Calheiros (MDB-AL), disse que os militares devem ter consciência e seus deveres constitucionais e deixar de lado as “loucuras do presidente”.

— É muito importante que os militares tomem consciência do efetivo cumprimento do seus deveres constitucionais, deixando de lado essas loucuras do presidente da República. O que está em jogo é a defesa do Estado democrático de direito, da Constituição, da institucionalidade, e eles não podem abrir precedentes com relação a isso — disse Renan em entrevista antes da sessão.

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