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Pandemia
Com longo fechamento de escolas, trabalho infantil volta a ganhar força
Funcionários da ONU estimam que pelo menos 24 milhões de crianças no mundo deixarão estudo, ao qual raramente voltam após começar a receber alguns centavos; apenas na Índia, 200 milhões foram afetados pela interrupção de aulas em março
The New York Times
28/09/2020 | 09:21

Todas as manhãs, em frente aos blocos de apartamentos de habitação pública Devaraj Urs, nos arredores de Tumakuru, na Índia, um grupo crianças sai para a rua. Em vez de mochilas ou livros, carregam sacos plásticos sujos. Funcionários da ONU estimam que pelo menos 24 milhões de crianças com realidades parecidas abandonarão estudos em todo o mundo e milhões serão sugadas para o trabalho.

As crianças de Tumakuru, de 6 a 14 anos, foram encaminhadas pelos pais para vasculhar lixões cheios de vidros quebrados e cacos de concreto em busca de plásticos recicláveis. São parte de cerca de 200 milhões de crianças indianas afetadas pelo fechamento das escolas – alguns professores do governo atendem em casa e ensinam em pequenos grupos. Elas ganham alguns centavos por hora e a maioria não usa luvas ou máscaras. Muitos alunos não têm dinheiro para comprar sapatos e fazem seus trabalhos com os pés descalços e sangrando.

“Odeio isso”, disse Rahul, um menino de 11 anos descrito por uma de suas professoras como ‘brilhante’. Em março, a Índia fechou suas escolas por causa da pandemia do coronavírus, e Rahul teve de trabalhar.

Autoridades do governo dizem que o coronavírus lhes dá pouca escolha. Novas infecções às vezes chegam a quase 100 mil por dia. As autoridades dizem que as crianças têm dificuldade em manter o distanciamento social. “Eles podem acabar se tornando vetores de vírus”, argumentou Rajesh Naithani, um conselheiro do Ministério da Educação.

O país já tinha um sério problema de trabalho infantil em razão dos altos níveis de pobreza, sua população de 1,3 bilhão e sua dependência de mão de obra barata. Mas, agora, meninos e meninas em idade escolar fazem todos os tipos de trabalho, desde enrolar cigarros e empilhar tijolos até servir chá fora dos bordéis, de acordo com mais de 50 entrevistas realizadas com as crianças, seus pais, professores, contratantes de mão de obra e ativistas infantis. A maior parte é ilegal.

O mesmo vem acontecendo em muitas outras partes do mundo em desenvolvimento. Famílias estão desesperadas por dinheiro e as crianças são uma fonte fácil de mão de obra barata. Enquanto EUA e outros países desenvolvidos debatem a eficácia da educação online, centenas de milhões de alunos no mundo não têm computadores ou internet.

Crianças de dez anos agora estão minerando areia no Quênia. Outras da mesma idade estão cortando ervas daninhas nas plantações de cacau na África Ocidental. Na Indonésia, meninos e meninas de 8 anos são pintados e pressionados a servir como estátuas vivas que pedem dinheiro.

É o caso de Surlina, de 14 anos. Em Jacarta, capital da Indonésia, ela se pinta de prata e fica parada em um posto de gasolina com a mão estendida. Sua mãe é empregada doméstica e seu pai vendia pequenas esculturas antes que a pandemia lhe roubasse o emprego. Ao final de cada dia, ela dá o que ganha para a mãe, que fornece a tinta para ela e para os dois irmãos de 11 e 8 anos. “Não tenho escolha”, disse Surlina. “Isso é minha vida. Minha família é pobre. O que mais eu posso fazer?”

Ela às vezes tenta estudar com uma apostila da sexta série – ela estava indo para a escola até o fechamento, em março – mas acha difícil ler. “Isso me deixa tonta e ninguém me ajuda”, disse Surlina. “Simplesmente desisto.”

Irreversível

Muitos especialistas dizem que, uma vez que as crianças desistem e começam a ganhar dinheiro, é muito difícil colocá-las de volta na escola. E acrescentam que o aumento do trabalho infantil pode corroer o progresso alcançado nos últimos anos em matrículas escolares, alfabetização, mobilidade social e saúde infantil.

“Todos os ganhos que foram feitos, todo esse trabalho que temos feito, serão revertidos, especialmente em lugares como a Índia”, disse Cornelius Williams, alto funcionário do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).

Se setores como bares, academias, restaurantes e sistemas de metrô foram abertos, defensores da retomada do ensino questionam por que há tratamento diferente. “É porque os adultos têm agência e voz mais alta – e o poder de votar?”, pergunta Williams.

O trabalho infantil é apenas uma peça de um desastre global que se aproxima.

A fome severa está perseguindo crianças do Afeganistão ao Sudão do Sul. Os casamentos forçados de meninas estão aumentando na África e na Ásia, de acordo com funcionários da ONU, assim como o tráfico de crianças. Dados de Uganda mostraram a gravidez adolescentes aumentando durante o fechamento de escolas relacionadas à pandemia, e trabalhadores humanitários no Quênia disseram que muitas famílias estavam enviando suas adolescentes para o trabalho sexual para alimentar a família.

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