BUSCAR
BUSCAR
EUA
Cem anos após conquista do voto feminino, recorde de mulheres se candidata ao Congresso americano
Número de candidatas democratas concorrendo a uma vaga para a Câmara é hoje o mesmo de dois anos atrás: 356. O de republicanas é que disparou: de 133 foi para 227, segundo dados da Universidade Rutgers
O Globo
27/08/2020 | 10:52

Cem anos depois da emenda à Constituição dos Estados Unidos que criou o sufrágio feminino, o número de candidatas mulheres tentando uma vaga no Congresso americano é o maior da História. Há dois anos, quando a estrela progressista Alexandria Ocasio-Cortez foi eleita, o número já havia sido recorde, impulsionado por novatas do Partido Democrata. Agora, quem puxa o crescimento são as republicanas.

O número de candidatas democratas concorrendo a uma vaga para a Câmara é hoje o mesmo de dois anos atrás: 356. O de republicanas é que disparou: de 133 foi para 227, segundo dados da Universidade Rutgers. No Senado, as democratas trazem seis candidatas a mais neste ano, contra uma a mais dos republicanos.

Além de nomes e sobrenomes tradicionais, como Liz Cheney, que hoje ocupa a cadeira que no passado foi de seu pai, o ex-vice-presidente Dick Cheney, os republicanos também tentam emplacar uma nova geração de candidatas trumpistas.

“A vaga à qual estou concorrendo nunca foi ocupada por uma mulher”, conta a republicana Kim Klacik, explicando que algumas opiniões que carrega não são consideradas “muito republicanas”. ” Não sou feminista per se, mas definitivamente sou pró-mulher. Sou uma mulher antes de ser uma republicana. Acho que algumas pessoas poderiam dizer que estou mais do lado feminista, mas, de verdade, sou só a favor de mulheres terem mais escolhas”.

Klacik “quebrou” a internet trumpista ao colocar nas redes, na semana passada, um vídeo em que caminhava pelas ruas de Baltimore conclamando a população local a apoiá-la para combater o crime. No ranking do Conselho Cidadão para a Segurança Pública, que divulga listas anuais das cidades mais violentas do mundo, Baltimore aparece em 11º lugar. Só há uma cidade brasileira com mais homicídios proporcionais à população: Vitória da Conquista.

“Você se importa com vidas negras? As pessoas que governam Baltimore não”, diz a candidata de 38 anos no comercial, caminhando por bairros abandonados em cima de um sapato vermelho de salto fino e vestido combinando. “O Partido Democrata traiu as pessoas negras de Baltimore”, afirma, ao passar por casas com janelas cobertas por tapumes. O vídeo ganhou mais de 300 mil curtidas no Twitter. Foi compartilhado até pelo presidente Donald Trump.

Em 2016, Trump conseguiu apenas 4% dos votos das mulheres negras. O grupo é o que mais rejeita o presidente. Klacik mesma já foi democrata: votou em Barack Obama antes de mudar de lado em 2009. A ideia de ter uma candidata com esse perfil concorrendo como republicana mexeu tanto com os dirigentes do partido que ela ganhou espaço de honra no primeiro dia da Convenção Republicana, na segunda-feira.

Klacik não é a única representante de minoria nas hostes republicanas. Nascida na Índia, Manga Anantatmula, de 58 anos, tenta conquistar uma das vagas da Virgínia.

“Para as mulheres votarem, demorou 72 anos. Elas lutaram, foram presas, protestaram, por quê? Por direitos iguais. E hoje a representação das mulheres no Congresso ainda é muito baixa”, diz Anantatmula, que acredita que a baixa participação dificulta o acesso a direitos, como licença maternidade. “Deveríamos encorajar mais e mais mulheres a entrar na política.”

De 1848 a 1920, quando passou a valer a 19ª Emenda à Constituição dos EUA, o movimento sufragista organizou passeatas e fez lobby no Congresso para lutar pelo direito ao voto para as mulheres, em vigor nacionalmente desde 26 de agosto de 1920, há exatos cem anos. O direito estava longe de ser consenso: dezenas de mulheres foram presas e até o New York Times se posicionou contra. “Os benefícios do sufrágio para as mulheres são quase completamente imaginários”, dizia editorial do jornal de 1913.

Anantatmula emigrou da Índia junto com o filho para se juntar ao marido há 30 anos. Mesmo sendo imigrante, a consultora acredita que não há contradição com a plataforma republicana, já que “não é bem verdade” que os republicanos sejam anti-imigração. Ela diz que as restrições atuais são temporárias, por causa da pandemia — embora as barreiras à imigração do governo Trump tenham começado já em seu primeiro ano de governo, 2017.

Sobre a candidatura política de outra mulher de origem indiana, Kamala Harris, à Vice-Presidência dos Estados Unidos pelo Partido Democrata, Anantatmula pede para “fazer uma correção”.

“Ela de repente se tornou de origem indiana. Até então, eu moro aqui há 30 anos, nunca a ouvi dizer, nem mesmo uma vez, que era uma de nós”, disse Anantatmula, que, apesar da rusga, garante que, se eleita, trabalharia com os democratas por pautas bipartidárias.

Se ganhassem, Klacik e Anantatmula contribuiriam para aumentar o número de mulheres no Congresso, já que concorrem contra homens por vagas atualmente ocupadas por eles. Mas, no caso delas, a chance não é grande. Assim como outras republicanas, as disputas que escolheram são consideradas as mais difíceis.

Kim Klacik concorre contra o democrata Kweisi Mfume, pela cadeira que foi do ativista pelos direitos civis Elijah Cummings até o ano passado, quando faleceu. Em regiões democratas como Baltimore, que não elege um republicano desde a criação do distrito em 1950, a verdadeira disputa eleitoral costuma ser para saber quem será o candidato dentro do partido. A Sabato’s Crystal Ball, que faz previsões para as eleições, classifica a cadeira pela qual Klacik está brigando como “solidamente democrata”, assim como a disputada por Manga.

Nem todas as candidaturas das mulheres trumpistas estão condenadas. Na Geórgia e no Colorado, Marjorie Taylor Greene e Lauren Boebert têm boas chances de ganhar. Ambas adotaram plataformas bem menos moderadas: as duas são adeptas da teoria da conspiração pró-Trump QAnon.

Além disso, encampam temas mais polarizadores. Dona do restaurante “Grill dos Atiradores”, Lauren incentiva os empregados a carregarem armas na cintura e manteve o restaurante aberto desafiando as leis locais de combate ao coronavírus. Já Marjorie chamou a eleição de duas mulheres muçulmanas para o Congresso americano de “uma invasão islâmica no nosso governo”.

Uma das razões que explica o aumento no número de candidatas republicanas é a maior mobilização do próprio partido para recrutá-las, sobretudo depois da onda das mulheres democratas de 2018. Organizações como a “Winning for Women” tentam recuperar espaço perdido pelas mulheres entre os republicanos da Câmara, de 23 cadeiras há dois anos, elas agora têm apenas 13.

São 643 mulheres dos dois partidos concorrendo ao Congresso neste ano. Em 2018, eram 529, e foram elas as responsáveis por aumentar de 20% para 24% a bancada feminina. Foi o maior crescimento no número desde o ciclo de 1992, segundo o Centro de Pesquisas Pew. Os anos 1990 marcaram o maior crescimento no espaço político das mulheres desde que elas começaram a concorrer, no início do século. Ainda assim, o número fica abaixo dos de outros países desenvolvidos.

“Nos Estados Unidos, a representação política está distante de alcançar uma igualdade de gênero. Segundo a União Interparlamentar, a média global hoje é de 25% de representação feminina “,diz Paula Tavares, advogada especialista em gênero do Banco Mundial. — No ranking feito pela UPI, de um total de 186 países, os EUA hoje ocupam o 85º lugar, abaixo de países desenvolvidos como Alemanha, Austrália, Canadá e Reino Unido, mas também de países em desenvolvimento, como Afeganistão, Somália, Timor Leste e Uganda.

Apesar de as democratas serem mais ativas hoje, não foram elas que deram o primeiro passo. Quem primeiro conquistou o posto de parlamentar mulher nos EUA foi uma republicana. Em 1916, Jeannette Rankin foi eleita para a Câmara por Montana, dois anos depois de o estado aprovar o voto para as mulheres. Nacionalmente o voto só passou pelo Congresso três anos depois e só entrou em vigor em 1920, durante o governo de Woodrow Wilson. O presidente acreditava que o sufrágio feminino era o mínimo a se fazer depois da participação das mulheres na Primeira Guerra Mundial.

“Eu posso ser a primeira mulher do Congresso, mas eu não serei a última”, disse Jeannette ao ser eleita. “Quero ser lembrada como a única mulher que votou para dar o direito a outras mulheres de votar.”

Sede: Av. Hermes da Fonseca, 384 – Petropolis – Natal – RN – Cep. 59020-000
Telefone: (84) 3027-1690 / 3027-4415
Redação: (84) 98117-5384 - [email protected]
Comercial: (84) 98117-1718 - [email protected]
Copyright Grupo Agora RN. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização prévia.