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Violência
Casos de estupro no RN caem quase 30%; Pandemia pode ter causado redução
De janeiro a julho deste ano foram contabilizados 88 casos de violência sexual contra mulheres
Anderson Barbosa
25/08/2020 | 05:31

Os casos de estupro caíram no Rio Grande do Norte. Segundo a Coordenadoria de Informações Estatísticas e Análise Criminal (Coine) da Secretaria de Segurança Pública e da Defesa Social (Sesed), de janeiro a julho deste ano foram contabilizados 88 casos de violência sexual contra mulheres. No ano passado, no mesmo período, foram 124. Em todo o ano de 2019, foram 222 registros.

A redução, no entanto, pode não ter qualquer relação com a conscientização masculina. Não é que os homens estão mudando de comportamento, que a alma tenha evoluído ou que as mulheres, enfim, estejam conquistando o  tão merecido respeito. Nada disso. A resposta, aparentemente, está na pandemia do novo coronavírus.

“Primeiro, é importante observar que estes dados da COINE são dados do estado todo. Então, fica difícil a gente, que se limita a fazer investigação de crimes sexuais da cidade de Natal, dar este diagnóstico do estado todo. Mas, acredito que uma hipótese da diminuição, já que não há estudo científico sobre isso, mas uma hipótese que a gente pode verificar é a questão da pandemia, porque as pessoas se isolaram mais, e a criminalidade diminui”, analisou a delegada Helena de Paula, titular da Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher da Zona Sul da capital potiguar.

Ainda de acordo com a delegada, apesar dessa aparente queda nos casos de estupro no estado, a situação ainda é preocupante. “O estupro não acontece apenas na rua, acontece inclusive dentro dos lares, em locais que as vítimas se deparam apenas com parentes e pessoas que coabitam com elas. Existe ainda esta preocupação nossa porque existe uma cultura do estupro muito forte, e é possível que muitas mulheres estejam nos seus lares sofrendo estes crimes sexuais e que, justamente por determinação de não saírem de casa, elas tenha essa limitação de não conseguirem procurar uma delegacia para denunciar”, ressaltou. “O estupro é uma cultura que ainda tá muito enraizada na sociedade”, acrescentou.

Natal é a cidade mais perigosa para as mulheres

O Agora RN teve acesso aos dados da Secretaria de Segurança por meio da Coordenadoria de Informações Estatísticas e Análise Criminal. Além dos números absolutos de casos registrados, a Coine também revelou as regiões onde mais acontecem os crimes sexuais. Natal é a cidade mais perigosa para as mulheres. A capital potiguar contabilizou 48 casos nos primeiros sete meses de 2019. Este ano foram 28 crimes sexuais de  janeiro a julho – redução de 41,7%.

Em segundo lugar aparece Parnamirim, na Grande Natal, com 8 casos denunciados de janeiro a julho de 2019. Este ano, no mesmo período, pelo menos 10 casos já foram registrados em Parnamirim, o que significa um aumento de 25%.

Em terceiro está Mossoró, na região Oeste do estado. Lá, foram 6 casos de estupro registrados de janeiro a julho de 2019, contra 8 casos já registrados no mesmo período deste ano – aumento de 33,3%.

Números

Casos registrados pela Sesed

  • Estupros registrados de janeiro a julho de 2019 no RN: 124
  • Estupros registrados de janeiro a julho de 2020 no RN: 88
  • Redução: 29%

Cidades com mais casos de estupro registrados

  • Natal: 48 (jan a jul/2019) e 28 (jan a jul/2020) – redução de 41,7%
  • Parnamirim: 8 (jan a jul/2019) e 10 (jan a jul/2020) – aumento de 25%
  • Mossoró: 6 (jan a jul/2019) e 8 (jan a jul/2020) – aumento de 33,3%

Menina de 10 anos engravidada pelo próprio tio e adolescente de 16 que relatou estupro nas redes sociais chamam a atenção do Brasil e do RN

Foto: Ilustração

O Brasil e o Rio Grande do Norte viveram dois casos de estupro bastante emblemáticos recentemente. Em todo o país ainda repercute o caso de uma menina de 10 anos que foi violentada e acabou engravidando do próprio tio. O crime aconteceu no município de São Mateus, no Espírito Santo, e ganhou notoriedade no dia 8 deste mês. Para a polícia, a menina contou que era vítima de abusos desde os 6 anos e que não denunciou o tio com medo das ameaças.

A gestação, de mais ou menos três meses, foi confirmada por um exame de sangue. No dia 17, com autorização da Justiça, foi feito o aborto legal em um hospital do Recife. A menina passa bem. O tio da menina foi preso no dia seguinte, em Minas Gerais. Ele tem 33 anos e foi indiciado por estupro de vulnerável. O aborto também tornou-se tema de discussão e muita polêmica.

Já no RN, o caso que chamou a atenção aconteceu em Mossoró. A vítima foi uma adolescente de 16 anos, que após contar aos pais que havia sido violentada por um amigo, também menor de idade, ainda teve a coragem de postar a história em suas redes sociais. A publicação viralizou em poucas horas. A denúncia também foi feita à Polícia Civil da cidade.

A garota disse que foi estuprada no dia 17, à noite, por um rapaz que ela considerava amigo, na casa da namorada do primo do rapaz. A menina ainda revelou que decidiu expor o caso publicamente porque, ao entrar em contato com a delegacia para saber o que fazer, ouviu da pessoa que a atendeu que o caso dela não seria considerado estupro. E disse também: “Eu, como mulher, vivendo numa sociedade machista, misógina e sem justiça para mim, me senti na obrigação de vir aqui e expor. O menino não teria pena por ser menor de idade, ter influência e dinheiro. Eu só quero que isso circule e me ajudem a ter a minha justiça, porque nenhuma MULHER merece passar por isso, ter seu corpo abusado e invadido e não ter nenhuma justiça!”, concluiu.

Abaixo, a postagem feita pela menina, cujo nome não será revelado:

“oi, meu nome é (…), e eu fui estuprada com 16 anos. como tudo começou? eu explico, dia 17 de agosto de 2020 a noite, cerca de umas 18:40, eu saí com um menino que minha amiga me apresentou, ou seja, eu considerava ele meu amigo também tecnicamente porque nós conversamos, ele me chamou pra sair pra comer pizza. ok, ele veio me buscar em casa, ele, o primo, e a namorada do primo, não conseguimos entrar na pizzaria porque estávamos sem máscara, mas tudo bem, pedimos a pizza e fomos para a casa da namorada do primo dele. comemos lá, conversamos e depois o primo e a namorada foram para o quarto dela e mandaram eu e o garoto irmos para o quarto da mãe dela! fomos, okay, então ele começou a me beijar, e tudo bem, meu amigo mas tava tudo bem, continuei o beijo, até que ele começou a ficar sem controle, até certo momento foi consensual, até quando ele quis me penetrar, eu tenho um pacto comigo mesma por conta de um trauma em que eu só transaria com alguém que eu me sentisse a vontade, confiasse ou namorasse com essa pessoa, que não foi o caso dele, então ele veio pra cima de mim, e não saia, eu tentava empurrar, e ele não saia, e isso me deixava com mais medo, e então ele fez o trabalho, e eu falava “para”, “por favor, tá doendo”, “eu não quero”, “para, por favor”. eu pedia pra ele ir buscar água pra mim porque eu fingia cede pra ele sair do quarto que aliás estava trancado, e mandava mensagens para os meus amigos, ou se não eu ia no banheiro(que era dentro do quarto). ele falava coisas absurdas como “já tá cansada? eu não quero ir só até aonde tu aguenta, quero ir até onde eu quero”, “eu quero gozar essa noite”. e eu já querendo chorar por estar naquele inferno. quando eu cheguei em casa eu me tranquei no quarto e comecei a chorar, muito, eu urinava e ardia muito. e ele deu o cínico e veio falar comigo dizendo o mesmo que eu consensuei tudo. (prints nos stories, e nos destaques) Quando foi hoje de manhã, eu acordei com dor na virilha/coxa pq foi o lugar onde ele mais forçou e já chorando muito. E tive a coragem de contar para os meus pais, em que o primo, o pai e o garoto se encontraram com meu pai e contaram a versão dele+o primo que é advogado disse a seguinte coisa “eu ouvia ela falando algo/sussurrando, parecia que estava gostando”. e o abusador disse que eu consensuei. meu pai chegou em casa e falou com um advogado, o advogado amigo dele falou que isso sim é caracterizado como ESTUPRO, por eu pedir inúmeras vezes para parar, e ele continuar. mas quando ligamos para a delegacia, para perguntar para qual iríamos para fazer o corpo e delito ou b.o, a moça simplesmente disse que isso não era caracterizado como estupro. “Quando ela tá tendo relação com o namorado(detalhe ele não era meu namorado) e ela pede pra parar isso não é estupro”, “olha se fosse a minha filha, eu levaria ela num psicólogo pra ela aprender a se relacionar melhor”. eu, como mulher, vivendo numa sociedade machista, misógina e sem justiça para mim, me senti na obrigação de vir aqui e expor. o menino não teria pena por ser menor de idade, ter influência e dinheiro. eu só quero que isso circule e me ajudem a ter a minha justiça, porque nenhuma MULHER merece passar por isso, ter seu corpo abusado e invadido e não ter nenhuma justiça!”

Pai suspeito de estuprar filha de 4 anos

Foto: Ilustração

Nesta segunda-feira 24, policiais civis da Delegacia Municipal de São Bento do Norte deram cumprimento a um mandado de prisão temporária em desfavor de um homem de 56 anos. O crime? Ele é suspeito de estupro de vulnerável, praticado contra sua própria filha, uma criança de 4 anos. O suspeito, que é usuário de drogas, foi preso no município de Caiçara do Norte. Ele foi conduzido até a delegacia e encaminhado ao sistema prisional, onde permanecerá à disposição da Justiça.

“Nos casos de estupro, a estatística nunca é real”

“Nos casos de estupro, a estatística nunca é real, porque muitas vítimas não denunciam. Então, dizer que houve uma redução, eu mesma gostaria de dizer que não acontece mais o estupro, mas, infelizmente, ainda acontece. Talvez, por conta da pandemia, as pessoas não tenham denunciado, seja por medo do agressor ou dele fazer algum mal à família”, destacou a delegada Margareth Gondim, chefe da Coordenadoria de Defesa das Mulheres e Minorias do Rio Grande do Norte (Codimm), órgão vinculado à Sesed.

“A maioria dos casos, das vítimas, são de pessoas vulneráveis, menores de idade, e os estupradores são seus parentes, amigos, tios, padrastos, enfim, pessoas que são do seu convívio familiar. Então, essas pessoas geralmente mantêm o silêncio das vítimas com ameaças”, acrescentou a delegada.

Ainda de acordo com Margareth, ela disse estar contente com as estatísticas que mostram a redução dos casos de estupro no Rio Grande do Norte. Porém, ela ressalta que, pela experiência adquirida ao longo dos anos como policial e defensora das classes menos favorecidas, ela ainda mantém uma certa desconfiança dos dados apresentados. ” Eu estou realmente satisfeita com esta estatística, porém, receosa se é ela real ou não. Repito, sem medo de me tornar repetitiva, porque, com tantos anos de militância, de luta no combate à violência de gênero, tenho visto muita coisa que não é real”, afirmou.

Por fim, a delegada fez questão de destacar que é importante levar em consideração que algumas vítimas, quando vêm denunciar, já vêm sofrendo dois ou três anos a violência sexual. “Outras, mulheres adultas, não denunciam por vergonha e também por ameaça, principalmente quando se trata de um conhecido. Quando não é conhecido, temem não denunciar por medo de as pessoas não acreditarem em suas histórias. Aqui na Codimm, temos até casos de violência sexual contra idosas. Lembro de uma senhora que sofreu abuso sexual do próprio filho. As próprias pessoa da casa sabiam, mas não denunciavam”, citou.

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