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Investigação
Caso Marielle: Girão é denunciado por morte de rival, crime que reforça elo com Ronnie Lessa, preso pelo homicídio da vereadora
Acusação de promotoras de força-tarefa foi o último ato antes de elas entregarem os cargos alegando “interferências externas” nas investigações
O Globo
19/07/2021 | 11:49

A Força-Tarefa do Caso Marielle e Anderson (FTMA) do Ministério Público do Rio (MPRJ) e a Delegacia de Homicídios da Capital (DH) concluíram as investigações que comprovam a ligação de Cristiano Girão, ex-vereador e ex-chefe da milícia de Gardênia Azul, na Zona Oeste do Rio, com o sargento reformado da PM Ronnie Lessa. Girão teria contratado Lessa para executar o ex-policial André Henrique da Silva Souza, o André Zóio, e sua companheira, Juliana Sales de Oliveira, de 27 anos, crimes ocorridos em 14 de junho de 2014, em razão de uma disputa pelo controle da Gardênia. O vínculo é considerado pela polícia e pelo MPRJ como um passo decisivo na elucidação do Caso Marielle.

A peça que estava faltando para conectar Girão a Lessa foi descoberta pelas promotoras da força-tarefa, Simone Sibílio e Letícia Emile, e pelo delegado Moysés Santana, que indiciou Girão. Em consequência disso, as promotoras denunciaram o ex-vereador. Este foi o último ato do trio que deixou o caso na semana passada. Segundo fontes, as duas promotoras entregaram os cargos alegando “interferências externas” da Polícia Civil no MPRJ. Já Santana foi exonerado do cargo.

Ao provar que Girão contratou Lessa para matar Zóio, é aberta a possibilidade, segundo as investigações, de ele tê-lo chamado para outras empreitadas criminosas semelhantes, inclusive as execuções da vereadora Marielle Franco (PSOL) e do motorista Anderson Gomes, mortos numa emboscada em março de 2018. O ex-vereador é um dos personagens denunciados pela CPI das Milícias, conduzida, dez anos antes do duplo homicídio, pelo então deputado estadual Marcelo Freixo. Ao ser preso, em 2009, Girão chegou a jurar vingança ao parlamentar.

André Henrique da Silva Souza, o Zoio, ex-PM vítima de uma emboscada na Gardênia Azul Foto: Reprodução
André Henrique da Silva Souza, o Zoio, ex-PM vítima de uma emboscada na Gardênia Azul Foto: Reprodução

Quebras telemáticas

Por meio de testemunhos e quebras telemáticas de celulares e computadores dos investigados, chegou-se a um elo em comum: o ex-policial civil Wallace de Almeida Pires, vulgo Robocop, morto em julho de 2019. A polícia acredita que ele tenha sido assassinado como queima de arquivo. Robocop era miliciano e braço-direito de Girão. Era ele quem tocava os negócios, principalmente aluguéis de imóveis na Gardênia Azul, durante os oito anos em que o ex-vereador ficou preso.

Na época da CPI das Milícias, Marielle atuava no gabinete de Freixo, dando apoio às famílias de vítimas das milícias. Com o tempo, passou a ser afilhada política do então deputado estadual, se tornando vereadora em 2017. Como Freixo andava cercado de seguranças, seria necessário buscar um alvo com menos resistência. Daí, segundo a investigação, a escolha pelo nome da parlamentar.

A força-tarefa do Ministério Público e o delegado Moyses Santana encontraram evidências que levaram o ex-vereador à posição de suspeito como mandante da morte da parlamentar, a começar pelas informações obtidas dos celulares e computadores de Lessa, mediante a quebra do sigilo temático. Antes de analisarem o celular de Lessa, o inquérito não apontava a autoria do assassinato de Zóio. Chamou a atenção dos investigadores, no entanto, o fato de Ronnie Lessa ter usado o buscador Google para pesquisar, em 2018, a morte do miliciano e de Juliana, provavelmente, para saber, por meio da imprensa, o que a polícia havia investigado até então. Foi o fio da meada os investigadores apurarem o motivo do interesse de Lessa no crime do suposto rival de Girão.

Após constatar o interesse tardio de Lessa pelo duplo homicídio, o inquérito da Delegacia de Homicídios da Capital concluiu que as caraterísticas do crime contra Zóio e Juliana, na Gardênia, em 2014, foram parecidas com a emboscada que mataria Marielle e Anderson quatro anos depois: tiros disparados de dentro de um carro contra os ocupantes de outro veículo, obstruído pelos criminosos.

Policiais cumprem mandado de busca e apreensão na casa onde estava o ex-vereador Cristiano Girão, em Arujá (SP) em 09/09/2020 Foto: Edilson Dantas / Agência O Globo
Policiais cumprem mandado de busca e apreensão na casa onde estava o ex-vereador Cristiano Girão, em Arujá (SP) em 09/09/2020 Foto: Edilson Dantas / Agência O Globo

André Zóio e Juliana foram atacados na Gardênia quando o miliciano a levava para o trabalho. O casal foi morto com 40 tiros dentro de um Honda Civic prata, dirigido por Zóio, que foi fechado por uma Fiat Doblo prata ocupada por três homens, em frente à sede da associação de moradores local.

Para os investigadores, a sequência de tiros com o carro em movimento naquele duplo homicídio e a precisão dos disparos indicam que o crime tem a assinatura de Lessa. Juliana morreu como “efeito colateral”, linguagem usada pelos bandidos como uma espécie de consequência da ação para se atingir o objetivo principal: a execução de Zóio, o desafeto. O mesmo ocorreu no Caso Marielle com a morte do motorista Anderson Gomes.

Suel, sargento do Corpo de Bombeiros, de 44 anos, teria cedido carro para esconder armas de Lessa, acusado de matar a vereadora Marielle Franco. De acordo com os investigadores, coube ao bombeiro ajudar, logo após a prisão do sargento, no descarte das armas escondidas por Lessa Foto: Hermes de Paula / Agência O Globo - 10/06/2020
Suel, sargento do Corpo de Bombeiros, de 44 anos, teria cedido carro para esconder armas de Lessa, acusado de matar a vereadora Marielle Franco. De acordo com os investigadores, coube ao bombeiro ajudar, logo após a prisão do sargento, no descarte das armas escondidas por Lessa Foto: Hermes de Paula / Agência O Globo – 10/06/2020
Leonardo Gouvea da Silva , o Mad, é substituto do ex-capitão do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), Adriano Magalhães da Nóbrega, assassinado em janeiro, à frente da organização criminosa de assassinos de aluguel, ligada à execução da vereadora Marielle Franco. Mad foi preso dia 30 de junho Foto: Hermes de Paula / Agência O Globo - 30/06/2020
Leonardo Gouvea da Silva , o Mad, é substituto do ex-capitão do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), Adriano Magalhães da Nóbrega, assassinado em janeiro, à frente da organização criminosa de assassinos de aluguel, ligada à execução da vereadora Marielle Franco. Mad foi preso dia 30 de junho Foto: Hermes de Paula / Agência O Globo – 30/06/2020
Marcada com o número 1, a casa 58 pertence a Jair Bolsonaro, no Vivendas da Barra; o imóvel fica perto da casa 66, marcada com o 2, de Ronnie Lessa. O outro suspeito do crime disse que iria à casa de Bolsonaro Foto: Arquivo O Globo
Marcada com o número 1, a casa 58 pertence a Jair Bolsonaro, no Vivendas da Barra; o imóvel fica perto da casa 66, marcada com o 2, de Ronnie Lessa. O outro suspeito do crime disse que iria à casa de Bolsonaro Foto: Arquivo O Globo
Registro da portaria do condomínio onde o então deputado Jair Bolsonaro morava à época do crime – antes de ser eleito presidente – aponta a entrada de Élcio Queiroz (foto), ex-PM preso por envolvimento da vereadora Marielle Franco, para a casa 58, de Bolsonaro Foto: Marcelo Theobald / Agência O Globo
Registro da portaria do condomínio onde o então deputado Jair Bolsonaro morava à época do crime – antes de ser eleito presidente – aponta a entrada de Élcio Queiroz (foto), ex-PM preso por envolvimento da vereadora Marielle Franco, para a casa 58, de Bolsonaro Foto: Marcelo Theobald / Agência O Globo
O PM reformado Ronnie Lessa, à esquerda, e o ex-PM Élcio Queiroz. Os dois foram presos em março deste ano, acusados de participarem da morte da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, em março de 2018 Foto: Agência O Globo
O PM reformado Ronnie Lessa, à esquerda, e o ex-PM Élcio Queiroz. Os dois foram presos em março deste ano, acusados de participarem da morte da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, em março de 2018 Foto: Agência O Globo
Prisão de Elaine de Figueiredo Lessa (centro), um dos alvos da operação
Prisão de Elaine de Figueiredo Lessa (centro), um dos alvos da operação “Submersus”. Elaine é esposa do PM reformado Ronnie Lessa, que é apontado como o assassino da vereadora Marielle Franco (PSOL) e do motorista Anderson Gomes Foto: Fabiano Rocha / Agência O Globo
O sargento reformado Ronnie Lessa é apontado como o autor dos disparos que mataram a vereadora Marielle Franco e o motorista Anderson Gomes Foto: Marcelo Theobald / Agência O Globo
O sargento reformado Ronnie Lessa é apontado como o autor dos disparos que mataram a vereadora Marielle Franco e o motorista Anderson Gomes Foto: Marcelo Theobald / Agência O Globo
Ronnie Lessa e Élcio de Queiroz foram presos em março de 2019, na Operação Lume. A motivação do crime, segundo as investigações, seria o avanço de ações comunitárias da vereadora na Zona Oeste, região de atuação de milícias Foto: Reprodução
Ronnie Lessa e Élcio de Queiroz foram presos em março de 2019, na Operação Lume. A motivação do crime, segundo as investigações, seria o avanço de ações comunitárias da vereadora na Zona Oeste, região de atuação de milícias Foto: Reprodução
O bombeiro Maxwell Simões Correa, conhecido como Suel (de boné vermelho) prestou depoimento na Delegacia de Homicídios na Barra da Tijuca. Ele foi um dos alvos da Operação Lume Foto: Fabiano Rocha / Agência O Globo
O bombeiro Maxwell Simões Correa, conhecido como Suel (de boné vermelho) prestou depoimento na Delegacia de Homicídios na Barra da Tijuca. Ele foi um dos alvos da Operação Lume Foto: Fabiano Rocha / Agência O Globo
Na casa de Suel, os policiais apreenderam uma réplica de fuzil e documentos Foto: Fabiano Rocha / Agência O Globo
Na casa de Suel, os policiais apreenderam uma réplica de fuzil e documentos Foto: Fabiano Rocha / Agência O Globo
Na Operação Lume, também foi preso Alexandre Motta, solto posteriormente pela Justiça Foto: Márcio Alves / Agência O Globo
Na Operação Lume, também foi preso Alexandre Motta, solto posteriormente pela Justiça Foto: Márcio Alves / Agência O Globo
Na casa de Alexandre, foram apreendidos 117 fuzis desmontados. Alexandre declarou que guardava o material a pedido do amigo Ronnie Lessa Foto: Alexandre Cassiano / Agência O Globo
Na casa de Alexandre, foram apreendidos 117 fuzis desmontados. Alexandre declarou que guardava o material a pedido do amigo Ronnie Lessa Foto: Alexandre Cassiano / Agência O Globo
O sargento PM Rodrigo Jorge Ferreira, o Ferreirinha, foi preso na Operação Entourage, desdobramento da investigação das mortes de Marielle e Anderson. Ferreirinha chegou a ser considerado a principal testemunha do inquérito dos assassinatos de Marielle e Anderson. Ele é apontado pela Polícia Federal como o responsável por atrapalhar a investigação Foto: Reprodução / Reprodução
O sargento PM Rodrigo Jorge Ferreira, o Ferreirinha, foi preso na Operação Entourage, desdobramento da investigação das mortes de Marielle e Anderson. Ferreirinha chegou a ser considerado a principal testemunha do inquérito dos assassinatos de Marielle e Anderson. Ele é apontado pela Polícia Federal como o responsável por atrapalhar a investigação Foto: Reprodução / Reprodução
Orlando Oliveira de Araújo, o Orlando Curicica, é acusado de comandar milícia que atua em Jacarepaguá, Zona Oeste do Rio. Foi apontado pelo PM Ferreirinha como um dos mandantes das mortes de Marielle e Anderson Foto: Reprodução / Reprodução
Orlando Oliveira de Araújo, o Orlando Curicica, é acusado de comandar milícia que atua em Jacarepaguá, Zona Oeste do Rio. Foi apontado pelo PM Ferreirinha como um dos mandantes das mortes de Marielle e Anderson Foto: Reprodução / Reprodução
Outro desdobramento da investigação das mortes de Marielle e Anderson desencadeou a Operação Intocáveis, em janeiro deste ano. O major Ronald Paulo Alves Pereira foi um dos cinco presos. Ele é suspeito de chefiar uma milícia que age em grilagem de terras na Zona Oeste do Rio. A polícia considera a prisão do major estratégica para a investigação Foto: Márcia Foletto / Agência O Globo
Outro desdobramento da investigação das mortes de Marielle e Anderson desencadeou a Operação Intocáveis, em janeiro deste ano. O major Ronald Paulo Alves Pereira foi um dos cinco presos. Ele é suspeito de chefiar uma milícia que age em grilagem de terras na Zona Oeste do Rio. A polícia considera a prisão do major estratégica para a investigação Foto: Márcia Foletto / Agência O Globo
O ex-capitão do Bope Adriano Magalhães da Nóbrega, foragido da Justiça, é suspeito de chefiar o grupo paramilitar Escritório do Crime Foto: Divulgação
O ex-capitão do Bope Adriano Magalhães da Nóbrega, foragido da Justiça, é suspeito de chefiar o grupo paramilitar Escritório do Crime Foto: Divulgação
Um dos investigados na Operação Intocáveis é Jorge Alberto Moreth, conhecido como Beto Bomba. Foragido desde janeiro, ele se entregou à polícia no dia 25 de maio. Beto Bomba é ex-presidente da Associação de Moradores de Rio das Pedras, Zona Oeste do Rio, e apontado como um dos líderes da milícia que atua na região. A polícia investiga o grupo criminoso conhecido como Escritório do Crime, apontado como a mais letal e secreta falange de pistoleiros da cidade Foto: Reprodução
Um dos investigados na Operação Intocáveis é Jorge Alberto Moreth, conhecido como Beto Bomba. Foragido desde janeiro, ele se entregou à polícia no dia 25 de maio. Beto Bomba é ex-presidente da Associação de Moradores de Rio das Pedras, Zona Oeste do Rio, e apontado como um dos líderes da milícia que atua na região. A polícia investiga o grupo criminoso conhecido como Escritório do Crime, apontado como a mais letal e secreta falange de pistoleiros da cidade Foto: Reprodução
Familiares de Marielle Franco chegam ao Ministério Público para coletiva sobre a prisão dos executores da vereadora e do motorista Anderson Gomes. Na foto, Antonio da Silva Neto, pai de Marielle; Luyara, filha; e Anielle Silva, irmã da vereadora Foto: Gabriel de Paiva / Agência O Globo
Familiares de Marielle Franco chegam ao Ministério Público para coletiva sobre a prisão dos executores da vereadora e do motorista Anderson Gomes. Na foto, Antonio da Silva Neto, pai de Marielle; Luyara, filha; e Anielle Silva, irmã da vereadora Foto: Gabriel de Paiva / Agência O Globo
Marielle Franco e Anderson Gomes, mortos em março de 2018 Foto: Reprodução
Marielle Franco e Anderson Gomes, mortos em março de 2018 Foto: Reprodução

Outro ponto em comum foi o uso de uma arma automática — no caso de Zóio, um fuzil M16, arma pequena e de pouco recuo. Na morte de Marielle, o assassino atirou com uma submetralhadora HK-MP5, usada, normalmente, para a segurança de autoridades por ser curta, leve e precisa. Grupos de elite das Forças Armadas também a utilizam, e no Rio, especificamente, é empregada por equipes do Batalhão de Operações Especiais (Bope) da PM e da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core) da Polícia Civil em escolta de presos e de magistrados que estão sob ameaça.

O assassinato do casal foi cometido por volta das 10h. Na época, um morador que não quis se identificar contou à polícia que os assassinos estavam aguardando André Zóio desde as 8h. Nas investigações das mortes de Marielle e Anderson, Lessa teria ficado cerca de duas horas aguardando a parlamentar sair de um evento, no qual participava na Casa das Pretas, no Centro do Rio, para assassiná-la em seguida. O policial ficou num carro fechado e com película escura nos vidros, sem ar-condicionado, num dia típico de verão.

Ao prestar depoimento na DH,em 15 de agosto de 2018, sobre os assassinatos de Marielle e Anderson, Girão declarou que, no momento do crime, em 14 de março de 2018, ele estava na churrascaria Rio Brasa, na Barra da Tijuca, onde teria permanecido por mais de dez horas, saindo à meia-noite. Disse ainda que estava com a mulher e um empresário de São Paulo, do ramo da moda. A polícia e a Força-Tarefa do Caso Marielle e Anderson, no entanto, ao se concentrarem na busca do mandante, acharam estranho Girão ter passado a metade de um dia numa churrascaria. Eles encontraram indícios de que Robocop estaria com ele.

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