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Crítica
Captur é ótimo para admirar, nem tanto para dirigir, diz colunista
SUV traz de volta os olhares de paixão para dentro das lojas da Renault, mas algumas escolhas técnicas, em prol do custo, parecem
Por Redação
10/05/2017 | 18:45

Quando eu era adolescente, aquela fase em que não sabemos o que pensar e agir e parece que nossos hormônios também não, tinha um menino da rua que teve mais sorte que os outros. Ele espichou sem ficar magrelo, suas espinhas sumiram e sua voz engrossou, enquanto a de todos os outros garotos ainda era confundida com as de suas mães ao telefone. E as meninas gostaram disso nele. Cada vez menos ele era visto na quadras de futebol e mais nas quinas escuras das casas. Com ele, descobrimos que chamar atenção era uma coisa boa.

Rodar com o Renault Captur nas ruas de São Paulo me fez voltar nesta fase da vida. Desde a Scènic, nenhum outro carro da Renault desviava tantos olhares nas ruas ou despertava puxadas de assunto em postos de gasolina. O Captur tem porte, beleza inegável e faz parte do tão amado segmentos dos SUVs.

Junta-se a isso um preço não muito alto para o segmento, de iniciais R$ 78.900, e o mercado tem nas mãos um produto impactante. Se vai ser um sucesso comercial, não sabemos, as marcas francesas ainda têm, injustamente, algumas famas que atrapalham nas vendas. Então é preciso observar o que os próximos meses dirão, embora abril já seja um bom ponto de partida para ver o que vai acontecer: o Renault teve 793 emplacamentos, contra os 3.940 do Jeep Compass, líder do mês.

Mesmo assim, o Captur tem o trunfo de fugir da linha racional dos últimos lançamentos da Renault/Dacia no País e entrega mais emoção. É o primeiro carro da marca em anos que dá vontade de ficar admirando na garagem. E isso, para mim, que sou apaixonado pelos carros, causa até um boa vontade na hora de avaliar o modelo. Isso, é claro, até abrir a porta e se deparar com um interior que não deveria estar lá.

O habitáculo do Captur é como se hospedar em um hotel lindo, com um lobby de cinema e, na hora de entrar no quarto, encontrar a cama quebrada e o papel de parede rasgado. Não, não há nada rasgado ou frágil a ponto de quebrar dentro dele, mas a decepção é a mesma.

Só há uma textura de plástico duro, o tecido das portas não é o que podemos chamar de refinado e falta inspiração no desenho de forma geral. Não chega a ser o Duster, mas também não é muito diferente. E como passamos mais tempo dentro do carro do que fora, a ruptura é drástica. O grande porta-objetos que fica no console central só tem espaço para um copo, no meio, deixando espaço inútil nas pontas, os direcionadores do ar-condicionado não abaixam, só ficam na altura do rosto e se você pretende dar ré logo ao ligar o carro, é preciso esperar o sistema multimídia acordar para mostrar a imagem da câmera de estacionamento.

Há também aquela velha mania da Renault de colocar botões inalcançáveis debaixo da alavanca do freio de mão. Quer outro anacronismo? Tanque de partida a frio. É, ele ainda tem.

A chave é a mesma do tipo cartão do Fluence, que abre ou fecha o carro estando no bolso, o que é bem legal. Fora isso, o carro tem outros equipamentos bacanas, como controle de estabilidade e tração, controle automático de velocidade, assistência de partida em rampa e um kers, que recupera energia de frenagem para o alternador.

Ao volante, o Captur segue seus altos e baixos. O motor 1.6 de até 120 cv e 16,2 mkgf com etanol não parece ser a escolha perfeita para um carro de 1.273 kg. E isso pesa, literalmente, em baixa, já que o torque máximo só aparece aos 4 mil rpm e o câmbio de cinco marchas não tem relações curtas (e isso no manual, porque há a opção de um pré-histórico automático de quatro velocidades que, em um carro lançado em 2016, não deveria ser sequer considerado). Mas depois que o Captur pega embalo, chega a 120 km/h sem sobrecarregar o virabrequim, mostrando que apesar de ser urbano, ele se dá melhor em estradas sem trânsito.

O que pode ajudar a vida mercadológica do SUV é que, em cidades em que a maior parte das ruas é monitorada a 50 km/h, desempenho não chega a ser um item fundamental mais na escolha de compra. Pode ser para mim, um purista que gosta de velocidade, e mais meia dúzia de “ultrapassados”, mas para o consumidor comum não é mais e nem deve ser mesmo.

Já a suspensão é boa para buracos e curvas leves, mas entrega os pontos em curvas mais rápidas e deixa a carroceria inclinada para a direita ou esquerda, nunca no centro, mais ou menos como nas discussões de política hoje em dia no Facebook.

 

 

Fonte: Estadão

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