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Série
‘Bridgerton’ lida com a questão da raça, mas o seu cerne é o escapismo
O sucesso da série prova que as pessoas negras não precisam ser canceladas ou existir unicamente como vítimas do racismo para que um drama de costume britânico tenha sucesso
Estadão/ The New York Times
08/01/2021 | 21:00

“Éramos duas sociedades separadas, divididas pela cor até que um rei se apaixonou por uma de nós”, diz Lady Danbury (Adjoa Andoh), uma mulher perspicaz, ao seu protegido, o duque de Hastings. “Olhe o que faz conosco, o que permite que nos tornemos”. E insiste: “O amor, Vossa Graça, conquista a todos”.

Esta conversa do quarto episódio de Bridgerton entre os principais personagens negros da série é a primeira menção explícita à raça em uma história que gira em torno do duque, um homem negro chamado Simon Basset (Regé-Jean Page), e a sua corte apaixonada de Daphne (Phoebe Dynevor), a filha mais velha da rica família Bridgerton, branca nobre. Bridgerton é primeira série produzida por Shonda Rhimes como parte do seu impressionante acordo com a Netflix.

A diversidade do elenco da série é a sua qualidade imediatamente mais impressionante, não apenas no que se refere a personagens negros nobres, como o duque e lady Danbury, mas também na empreendedora Madame Genevieve Delacroix (Kathryn Drysdale) e o casal da classe trabalhadora Will e Alice Mondrich (Martins Imhangbe e Emma Naomi). Todos eles são centrais no complexo sistema social de castas na versão da série sobre a Londres do início dos anos 1800.

Bridgerton não é o primeiro namoro de Rhimes com um elenco multirracial em um drama britânico de época. Em 2017, ela produziu Still Star-Crossed na ABC, uma história que começou depois das mortes de Romeu e Julieta que focaliza os seus primos Benvolio Montecchio e Rosaline Capuleto, que foram obrigados a casar a fim de acabar com a divisão da família.

Embora Benvolio e Rosaline tenham sido intencionalmente colocados como um casal interracial, a raça não foi nem um ponto de debate nem um tema de comentário social. Ao contrário, os espectadores foram solicitados a suspender as nossas percepções raciais contemporâneas a fim de aceitar a Verona daltônica do passado. (Esta estratégia, entre outras, foi em grande parte mal-sucedida. Still Star-Crossed foi cancelado depois de apenas uma temporada.)

Ao contrário, os personagens de Bridgerton aparentemente nunca esquecem de sua negritude, mas em vez de entendê-la como uma das muitas facetas de sua identidade, enquanto ainda prospera na sociedade do período da Regência. O sucesso do programa prova que as pessoas negras não precisam ser canceladas ou existir unicamente como vítimas do racismo para que um drama de costume britânico tenha sucesso.

Chris Van Dusen, o showrunner de Bridgerton, foi um dos roteirista de Grey’s Anatomy antes de se tornar um dos produtores executivos de Scandal, um programa que reconheceu, mas não girou inteiramente em torno das tensões interraciais nas relações românticas de Olivia Pope. Aplicando o mesmo esquema a suas adaptações dos romances de Bridgerton de Julia Quinn, Van Dusen nos coloca em uma Grã-Bretanha do início do século 19 governada por uma mulher negra, a rainha Charlotte (Golda Rosheuvel).

“Isto me levou a imaginar como poderia ser”, disse Van Duren ao jornal The New York Times em um artigo recente sobre o programa. “Acaso ela poderia ter usado o seu poder para elevar a condição de outras pessoas negras na sociedade? Poderia ter dado a estas pessoas títulos, terras, ducados?”

Este enfoque vai contra a homogeneidade racial de época de dramas de sucesso como Downton Abbey, que o produtor executivo desse programa, Gareth Neame, insistiu ser necessário por uma questão de precisão histórica. “Não é uma época multicultural”, ele disse em uma entrevista com a Vulture de 2014. “Não podemos começar de repente a povoar o programa com pessoas de todo tipo de etnias. Não seria correto”.

Bridgerton oferece um esquema para os programas de época britânicos em que os personagens negras podem crescer segundo as linhas das histórias melodramáticas, costumes extravagantes e beleza bucólica que tornaram estas séries tão atraentes, sem que precisem ser servos ou escravos. Isto pode por sua vez criar aberturas para atores talentosos que os evitaram no passado.

“Eu não posso fazer Downton Abbey, e nem Victoria, nem Call the Midwife”, disse a atriz Thandie Newton ao Sunday Times de Londres em 2017. “Bom, posso, mas não quero fazer o papel de alguém que está sendo vítima de abusos raciais”. E prosseguiu: “Parece apenas  haver um desejo de um drama sobre a família real, sobre coisas do passado, o que é compreensível, no entanto faz apenas escolhas limitadas para pessoas negras”.

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