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Marcelo Hollanda

Brasil vai experimentando, aos poucos, os reveses de um governo completamente disfuncional

Confira a coluna de Marcelo Hollanda desta quinta-feira (18)
Marcelo Hollanda
18/11/2021 | 09:07

O jogo bruto do golpe
Quando se aposta tudo é prudente estar preparado para perder tudo. Mas quando a aposta é com dinheiro alheio, a responsabilidade cresce em proporções que não dá nem para imaginar. Felizmente, o povo brasileiro não é um agiota disposto a quebrar as pernas de devedores. Até poderia. O jogo das emendas do relator (RP9) é uma maneira abusada de gastar dinheiro dos outros em benefício político próprio sem dar satisfação.

Basta ver os limites de 100 anos sobre qualquer informação que nos permita entender as maracutaias em curso. As manobras para apressar aposentadorias no Judiciário e assim ampliar a porcentagem de mando político no Poder Judiciário e a volúpia do Centrão no Congresso em abocanhar mais do que pode comer indicam que o incumbente maior do Brasil pôs todas as fichas na mesa. Agora, é tudo ou nada.

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Brasil em crise. Foto: Reprodução

Mas jogar quando só se têm espertos ao redor significa que o blefe vai correr solto. E contar com essa súcia para apostar, só com as fichas entrando. E, definitivamente, as torneiras já estão se fechando dado o rombo fiscal extraordinário que está se formando. Até quando a disfuncionalidade do governo será encoberta no Congresso com recursos da União, só Deus sabe. Há uma corrida frenética no Planalto para se ocupar lacunas no STF, no TCU e em outras Cortes, mas o tempo urge.

O disfuncional – e você sabe quem é – já está prometendo reajuste salarial para o todo o funcionalismo federal sem nem saber que fim vai levar a votação da PEC dos precatórios. E ainda quer um partido político onde possa controlar até o cafezinho quanto mais à gorda verba partidária, com direito irrestrito às indicações de candidatos em todos os estados. Isto é o que Lênin queria dizer quando falava em “centralismo democrático”, um termo atribuído originalmente a um aristocrata alemão, Jean Baptista von Schweitzer, na segunda metade do século 19, que descambou para o sindicalismo.

Ou seja, há uma democracia, mas quem manda é o partido e quem manda no partido é ele. Logo…

É o que o presidente da vez do Brasil quer. Um partido forte, que todos temam e que dirija o país com mão de ferro atropelando a soberania das demais instituições a partir do aparelhamento delas, mas todos obedecendo à figura do mandatário. Ora, que história conhecida essa! Basta abrir o Google para elas desabarem sobre sua cabeça como uma chuva de granizo. O problema do nosso incumbente é que o tempo é curto demais e os atalhos em péssimo estado de conservação, com muitas barreiras ao autoritarismo pelo caminho.

Glória não é tudo
O Consultor da Fiern, José Bezerra Marinho, disse acertadamente a este jornal, em entrevista esta semana, que muitos experientes alpinistas perdem a vida na descida e não na subida, quando já conquistam a glória. Explica que na subida as pessoas estão tensas e focadas no objetivo, o que implica dizer que estão cuidadosas para atingir a meta. Mas na descida, quando já conquistaram o cume, costumam ficar desatentas, desleixadas, achando que o pior já passou. É aí que a vaca vai pro brejo.

Lógica ilógica
Aí cabe perguntar: que adianta o sucesso quando não se tem vida para desfrutá-lo? E, mesmo obtendo o resultado, como mantê-lo pelo maior tempo possível para que ele financie seus objetivos de longo prazo? A talentosíssima Marília Mendonça estava prestes a abraçar uma carreira internacional quando seu pequeno avião caiu. Isso também aconteceu com o ator Paulo Gustavo de outro jeito. Essas coisas são fatalidades da vida e que, nesses casos, poderiam ter sido evitadas, só que não foram. Da mesma maneira que é difícil ganhar na loteria, o improvável está sempre à disposição. Na política é a mesmíssima coisa.

Contradições
Mesmo assim, o pensamento lógico é o que nos diferencia no mundo. O seu exercício diário é que nos permite prever minimamente as coisas, buscando a decisão mais sábia dentro das possibilidades. Exatamente tudo que não existe mais no Brasil, especialmente desde a eleição (legítima) de um homem que mal participou dos debates públicos, convalescendo que estava de uma facada. Neste caso, o que poderia ter matado, deu vida.

Boi louco
Aos poucos o Brasil experimenta os reveses de um governo disfuncional. A paralisação das exportações de carne brasileira para a China pode ter alguma coisa a ver com dois casos de vaca louca num rebanho de 200 milhões de cabeças, mas também pode ter a ver com as provocações de um único boi louco da manada contra os chineses. Que o diga a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, que tentou conversar virtualmente com a principal autoridade chinesa para esse assunto, mas recebeu a desculpa de agenda cheia, mesmo antes que ela pudesse estabelecer a data da reunião.