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Movimento
Bispos católicos conservadores dos EUA querem negar comunhão a defensores do aborto, incluindo Biden
Episcopado ameaça passar por cima de orientação clara de Francisco, em uma rara divergência explícita com o Vaticano
O Globo
16/06/2021 | 16:35

O Vaticano advertiu os bispos americanos conservadores a pisarem no freio em sua tentativa de negar a comunhão a políticos que apoiam o direito ao aborto legal — incluindo o presidente Joe Biden, um frequentador assíduo da igreja e o primeiro católico romano a ocupar a Casa Branca em 60 anos.

Mas, apesar do sinal vermelho bem nítido de Roma, os bispos americanos continuam pressionando de qualquer maneira, e devem pautar esta questão da comunhão em uma reunião remota que começa nesta quarta-feira.

Alguns bispos importantes, cujas prioridades estão claramente alinhadas com o ex-presidente Donald Trump, agora querem reafirmar a centralidade da oposição ao aborto na fé católica, e buscam estabelecer uma linha dura. Esta urgência aumentou com um católico progressista no Salão Oval.

A disputa ameaça destruir a fachada de unidade com Roma, destacar a polarização política dentro da Igreja americana e definir o que os historiadores da Igreja consideram um precedente perigoso para conferências episcopais em todo o mundo.

— O Vaticano se preocupa em não permitir que usem o acesso à Eucaristia como uma arma política — disse Antonio Spadaro, um padre jesuíta e aliado próximo de Francisco.

O Papa Francisco, que identificou explicitamente os Estados Unidos como a fonte de oposição ao seu Pontificado, pregou este mês que a comunhão “não é a recompensa dos santos, mas o pão dos pecadores”.

Seu principal oficial doutrinário, o cardeal Luis Ladaria, escreveu uma carta aos bispos americanos, advertindo-os de que o voto poderia “se tornar uma fonte de discórdia, em vez de unidade, entre o episcopado e a Igreja mais ampla”.

O resultado é uma rara fenda visível entre Roma e a Igreja americana.

Os oponentes da votação suspeitam de uma motivação política mais crua, destinada a enfraquecer o presidente e um Papa que muitos deles não apoiam, promovendo um debate prolongado sobre um documento, a ser ampliado na mídia católica conservadora e em programas de TV de canais a cabo de direita.

Questionado sobre a questão da comunhão, Andrew Bates, um porta-voz da Casa Branca, disse:

— Como o povo americano bem sabe, o presidente é uma pessoa de forte fé.

O Papa Francisco, junto com o resto da hierarquia de sua igreja, se opõe explicitamente ao aborto, o considera um dos pecados mais graves, e fala incessantemente contra ele. Mas isso não é o mesmo que punir políticos católicos com a negação da comunhão, o que muitos aqui acreditam que seria uma intromissão nas questões de Estado.

Presidente iraquiano, Barham Saleh, dá as boas-vindas ao Papa Francisco, no palácio presidencial, na Zona Verde de Bagdá. O Papa Francisco desembarcou no Iraque devastado pela guerra na primeira visita papal, desafiando os temores de segurança e a pandemia para confortar uma das comunidades cristãs mais antigas e perseguidas do mundo Foto: VINCENZO PINTO / AFP
Presidente iraquiano, Barham Saleh, dá as boas-vindas ao Papa Francisco, no palácio presidencial, na Zona Verde de Bagdá. O Papa Francisco desembarcou no Iraque devastado pela guerra na primeira visita papal, desafiando os temores de segurança e a pandemia para confortar uma das comunidades cristãs mais antigas e perseguidas do mundo Foto: VINCENZO PINTO / AFP
O primeiro-ministro iraquiano, Mustafa Al-Kadhimi, caminha com o Papa Francisco em sua chegada ao Aeroporto Internacional de Bagdá Foto: VATICAN MEDIA / via REUTERS
O primeiro-ministro iraquiano, Mustafa Al-Kadhimi, caminha com o Papa Francisco em sua chegada ao Aeroporto Internacional de Bagdá Foto: VATICAN MEDIA / via REUTERS
O primeiro-ministro do Iraque, Mustafa al-Kadhemi dá as boas-vindas ao Papa Francisco na Sala VIP do Aeroporto de Bagdá Foto: AYMAN HENNA / AFP
O primeiro-ministro do Iraque, Mustafa al-Kadhemi dá as boas-vindas ao Papa Francisco na Sala VIP do Aeroporto de Bagdá Foto: AYMAN HENNA / AFP
Papa Francisco encontra-se com o presidente iraquiano Barham Salih no Palácio Presidencial em Bagdá Foto: VATICAN MEDIA / via REUTERS
Papa Francisco encontra-se com o presidente iraquiano Barham Salih no Palácio Presidencial em Bagdá Foto: VATICAN MEDIA / via REUTERS
Primeiro-ministro Mustafa al-Kadhemi recebendo o Papa Francisco em sua chegada à capital Bagdá Foto: - / AFP
Primeiro-ministro Mustafa al-Kadhemi recebendo o Papa Francisco em sua chegada à capital Bagdá Foto: – / AFP
O Papa Francisco faz um sermão na Catedral Siro-Católica de Nossa Senhora da Salvação Foto: AHMAD AL-RUBAYE / AFP
O Papa Francisco faz um sermão na Catedral Siro-Católica de Nossa Senhora da Salvação Foto: AHMAD AL-RUBAYE / AFP
Em um discurso, o pontífice expressou sua gratidão a seus colegas clérigos por apoiarem os cristãos do Iraque, cuja população diminuiu devido ao conflito Foto: AHMAD AL-RUBAYE / AFP
Em um discurso, o pontífice expressou sua gratidão a seus colegas clérigos por apoiarem os cristãos do Iraque, cuja população diminuiu devido ao conflito Foto: AHMAD AL-RUBAYE / AFP
Policiais fazem guarda diante de cartaz de a boas-vindas ao Papa Francisco em Bagdá Foto: VINCENZO PINTO / AFP
Policiais fazem guarda diante de cartaz de a boas-vindas ao Papa Francisco em Bagdá Foto: VINCENZO PINTO / AFP
O Papa Francisco é recebido pelo presidente iraquiano Barham Saleh no palácio presidencial em Bagdá em 5 de março de 2021, na primeira visita papal ao Iraque. - O Papa Francisco começou sua viagem histórica ao Iraque, marcado pela guerra, desafiando as preocupações com a segurança e a pandemia do coronavírus para confortar uma das comunidades cristãs mais antigas e perseguidas do mundo. (Foto de Sabah ARAR / AFP) Foto: SABAH ARAR / AFP
O Papa Francisco é recebido pelo presidente iraquiano Barham Saleh no palácio presidencial em Bagdá em 5 de março de 2021, na primeira visita papal ao Iraque. – O Papa Francisco começou sua viagem histórica ao Iraque, marcado pela guerra, desafiando as preocupações com a segurança e a pandemia do coronavírus para confortar uma das comunidades cristãs mais antigas e perseguidas do mundo. (Foto de Sabah ARAR / AFP) Foto: SABAH ARAR / AFP
O Papa Francisco ajusta seu fone de ouvido enquanto o presidente iraquiano Barham Salih fala durante uma cerimônia no Palácio Presidencial em Bagdá, Iraque, 5 de março de 2021. REUTERS / Yara Nardi Foto: YARA NARDI / REUTERS
O Papa Francisco ajusta seu fone de ouvido enquanto o presidente iraquiano Barham Salih fala durante uma cerimônia no Palácio Presidencial em Bagdá, Iraque, 5 de março de 2021. REUTERS / Yara Nardi Foto: YARA NARDI / REUTERS
O primeiro-ministro iraquiano Mustafa Al-Kadhimi caminha com o Papa Francisco durante uma cerimônia de boas-vindas no Aeroporto Internacional de Bagdá, em Bagdá, Iraque, 5 de março de 2021. Escritório de mídia do primeiro-ministro iraquiano / Folheto via REUTERS ATENÇÃO EDITORES - ESTA IMAGEM FOI FORNECIDA POR UM TERCEIRO PARTE. Foto: IRAQI PRIME MINISTER MEDIA OFFIC / VIA REUTERS
O primeiro-ministro iraquiano Mustafa Al-Kadhimi caminha com o Papa Francisco durante uma cerimônia de boas-vindas no Aeroporto Internacional de Bagdá, em Bagdá, Iraque, 5 de março de 2021. Escritório de mídia do primeiro-ministro iraquiano / Folheto via REUTERS ATENÇÃO EDITORES – ESTA IMAGEM FOI FORNECIDA POR UM TERCEIRO PARTE. Foto: IRAQI PRIME MINISTER MEDIA OFFIC / VIA REUTERS
Membros das forças de segurança iraquianas ficam de guarda perto de um pôster do Papa Francisco antes de sua chegada à catedral siro-católica de "Nossa Senhora da Salvação" em Bagdá Foto: THAIER AL-SUDANI / REUTERS
Membros das forças de segurança iraquianas ficam de guarda perto de um pôster do Papa Francisco antes de sua chegada à catedral siro-católica de “Nossa Senhora da Salvação” em Bagdá Foto: THAIER AL-SUDANI / REUTERS
O Papa Francisco visita a catedral siro-católica de "Nossa Senhora da Salvação" em Bagdá Foto: REUTERS TV / REUTERS
O Papa Francisco visita a catedral siro-católica de “Nossa Senhora da Salvação” em Bagdá Foto: REUTERS TV / REUTERS

Entre os que lideram o esforço está o arcebispo José Gomez, de Los Angeles, presidente da Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos, que foi repetidamente preterido por Francisco para o posto de cardeal.

“O foco deste documento de ensino proposto”, escreveu o Arcebispo Gomez em um memorando, “é a melhor forma de ajudar as pessoas a compreender a beleza e o mistério da Eucaristia como o centro de suas vidas cristãs”.

Os bispos americanos conservadores estão em grande medida em desacordo com Francisco e com a sua agenda que coloca a mudança climática, os imigrantes e a pobreza em primeiro plano na Igreja. Mas Thomas Reese, um padre jesuíta e um analista sênior do Religion News Service, disse que os conservadores constituem pelo menos metade da conferência dos bispos americanos, e que poderiam ter os suficientes votos para iniciar o processo de redação de um documento ensinando quem pode receber a comunhão.

É improvável que os conservadores consigam ratificar esse documento, que exigiria o apoio unânime de todos os bispos do país, ou o apoio de dois terços e a aprovação do Vaticano.

Mas o debate promete manter a questão viva e apresentar uma dor de cabeça incômoda para o presidente Biden e outros políticos católicos que apoiam o direito ao aborto.

Uma boa parte dos bispos deseja evitar a questão por completo. Já 67 bispos americanos, cerca de um terço da conferência, incluindo os principais cardeais alinhados com Francisco, assinaram uma carta em 13 de maio pedindo ao Arcebispo Gomez para remover o item da agenda do encontro virtual.

Um desses signatários, o cardeal Wilton Gregory, arcebispo de Washington, tem a decisão final sobre negar a comunhão ao presidente Biden na Arquidiocese de Washington. Ele deixou bem claro que não o fará.

A autoridade do cardeal Gregory no assunto é resultado de um compromisso em 2004, quando ele mesmo liderou a conferência episcopal.

Naquele ano, um grupo de bispos conservadores tentou negar a comunhão ao então candidato democrata à presidência, John Kerry, por seu apoio aos direitos ao aborto. Os conservadores tinham mais apoio no Vaticano então; o principal oficial doutrinário, o cardeal Joseph Ratzinger, que logo depois se tornou o papa Bento XVI, escreveu que os políticos que apoiavam o direito ao aborto eram indignos de receber o sacramento.

Mas em uma reunião em 2004, os bispos americanos optaram por deixar que os bispos decidissem caso a caso individualmente.

Toda a situação teve um impacto político sobre Kerry, que perdeu a eleição naquele ano. Hoje, ele prefere evitar o assunto.

Nesses últimos 17 anos, a política eclesial da América se tornou mais polarizada. Alguns clérigos próximos a Francisco no Vaticano dizem em particular que elementos dentro da Igreja americana se tornaram politizados e extremistas.

O próprio Francisco disse que é “uma honra que os americanos me ataquem”. Mas sobre este assunto, ele, como Kerry, prefere falar sobre outra coisa.

Sandro Magister, um especialista do Vaticano na revista L’Espresso, disse que a questão era exclusivamente americana e basicamente desconhecida na Europa.

— O próprio papa prefere não ter esse debate — afirmou.

O Papa Francisco se encontrou com o então vice-presidente Joe Biden no Vaticano em 2016 Foto: Reuters/Vatican Media
O Papa Francisco se encontrou com o então vice-presidente Joe Biden no Vaticano em 2016 Foto: Reuters/Vatican Media

Mas os bispos americanos conservadores deixaram claro por semanas que querem fazer mais do que falar.

Em 1º de maio, o bispo arquiconservador de San Francisco Salvatore Cordileone publicou uma carta argumentando que os políticos “católicos errantes” que apoiavam o direito ao aborto deveriam ser excluídos da comunhão. A presidente da Câmara, Nancy Pelosi, católica e firme defensora dos direitos ao aborto, é paroquiana em sua diocese.

Logo depois, o arcebispo Gomez enviou uma carta ao principal escritório doutrinário do Vaticano informando que a conferência dos bispos americanos estava se preparando para abordar em sua reunião de junho qual é “o valor de receber a Sagrada Comunhão” por políticos católicos que apóiam o direito ao aborto.

Aquela aparentemente foi a gota d’água para o Vaticano. Em 7 de maio, o cardeal Ladaria escreveu ao arcebispo Gomez pedindo cautela. Ele disse que seria “enganoso” apresentar o aborto e a eutanásia como “as únicas questões graves do ensino moral e social católico”.

Se os bispos americanos fossem abrir a porta para a questão da comunhão, acrescentou o cardeal Ladaria de forma ameaçadora, eles deveriam estar preparados para considerar aplicar a política a todos os católicos, “em vez de apenas uma categoria de católicos”.

O assunto parecia resolvido. Não foi.

Em 22 de maio, o arcebispo Gomez enviou uma carta aos bispos americanos defendendo a decisão de agendar uma votação, justificando — com chocante dissimulação, segundo os críticos — que fazer isso “reflete a orientação recente da Santa Sé”.

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