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Preconceito
Contra o racismo no país, atletas brasileiros evitam expor opinião
No Brasil, apesar da proliferação de casos de violência contra negros, o cenário é diferente, e são poucos os atletas que se manifestam contra a discriminação racial
Redação
15/09/2020 | 17:04

A paralisação da NBA e de outras ligas nos Estados Unidos por alguns dias em apoio aos protestos contra o racismo e a brutalidade da polícia, que baleou Jacob Blake, um homem negro, com sete disparos, em Kenosha, Wisconsin, reacendeu a discussão sobre a importância do posicionamento dos jogadores diante da discriminação racial.

No Brasil, apesar da proliferação de casos de violência contra negros (pretos e pardos são 75% dos mortos pela polícia, segundo relatório da Rede de Observatórios da Segurança), o cenário é diferente, e são poucos os atletas que se manifestam contra a discriminação racial.

Segundo especialistas ouvidos, os atletas brasileiros não são os únicos responsáveis pela omissão diante da pauta antirracista. A questão é complexa e o problema é estrutural, de modo que há fatores que desencorajam o atleta a se posicionar.

“Não depende só deles. É preciso que as entidades, clubes e federações incentivem essas manifestações porque o que estamos vendo nos EUA, além de ser algo coletivo, é também algo apoiado por essas instituições”, diz Marcelo Carvalho, fundador e diretor do Observatório da Discriminação Racial no Futebol, que mapeia casos de racismo no País e exterior.

O relatório mais recente, ainda não lançado, aponta que houve 65 denúncias no futebol brasileiro em 2019 – 13 a mais do que em 2018. A entidade ainda monitora outros preconceitos como xenofobia e homofobia.

Outro fator que desmotiva o jogador a se posicionar é o medo de represálias, algo que acontece até com famosos, como Colin Kaepernick, astro da NFL. “Aqui no Brasil a gente está voltado para o individual, desejando que os atletas se manifestem e que desse posicionamento saia algo coletivo. Mas a gente esquece que o histórico mostra que quem se posicionou sofreu represálias. Então, isso faz com que muitos, por mais que queiram, não o façam porque têm medo, receio”, diz Carvalho.

“O sistema não quer que ele fale sobre isso. O sistema e a estrutura são racistas. Se ele se manifestar, vai perder patrocínio, possibilidade de transferência. Vai ser visto como um negro encrenqueiro”, destaca o ex-árbitro Márcio Chagas, um dos poucos negros que apitou partidas de futebol no País.

Ele fala com a experiência de quem já foi vítima de injúria racial. Em 2014, teve bananas atiradas em seu carro após trabalhar no jogo Esportivo e Veranópolis, em Bento Gonçalves. Não teve apoio da Federação Gaúcha e encerrou a carreira mais cedo. “O sistema desenhado no futebol nada mais é do que uma representação contemporânea da escravatura. Paguei o preço quando denunciei.”

A questão, porém, vai além do medo das represálias. Está ligada à cultura brasileira, na qual impera a falta de conhecimento dos atletas, e da sociedade no geral, sobre a história dos negros. Além da educação, o lado financeiro é ainda um empecilho para que haja avanços.

“O pessoal aprende na escola a dar importância para a princesa Isabel, e não valoriza nossos heróis negros, Malcom X, Zumbi dos Palmares etc. Os jogadores não têm conhecimento para lutar contra esse sistema racista”, enfatiza Wilson Santos, ex-jogador que passou por São Paulo e Inter, por exemplo.

Wilson é sobrinho de Wladimir, jogador que mais vezes vestiu a camisa do Corinthians, com 805 jogos, e figura importante na Democracia Corintiana, movimento que lutou contra a ditadura militar. “Venho de uma família em que conversávamos sobre racismo, com meu tio Wlad. Nossa autoestima sempre foi alta. Por mais que a gente escutava muitas coisas sobre tipo de cabelo, cor da pele, a gente conversava em casa e reforçava que éramos bonitos, nosso cabelo era bom. Não deixávamos nos abalar”, reitera.

“O racismo é um crime perfeito no Brasil porque quem denuncia acaba se tornando vilão e quem comete vira vítima. O jogador ou quem se posiciona é vitimista, oportunista, ‘mimizento’. Quem denuncia se sente sozinho e não tem acolhimento algum”, observa Márcio.

O esporte brasileiro carece de um LeBron James. Não conta com astros como a tenista Naomi Osaka e o piloto de Fórmula 1, Lewis Hamilton. Todos eles ecoaram os protestos nos EUA. “Os atletas de nome que têm voz na NBA vivem a realidade lá. Os nossos melhores não estão nem aqui, não vivem a realidade do Brasil”, diz Carvalho.

Falta Estudo

No geral, a construção moral do atleta americano passa pelas universidades, ao contrário do que ocorre com os jogadores brasileiros de futebol, que não incentivados a estudar as mazelas sociais e criar uma visão crítica. Existe o agravante de que são condicionados, pelas pessoas ao seu redor, a só focarem no futebol e se fecham num bolha.

Esse ambiente impede que enxerguem o que ocorre no mundo. “Quando jogava, sentia na pele, mas estava tão concentrado no jogo que encarava como uma forma de o rival me tirar do sério. Escutava, mas relevava. Ficava bravo, mas não queria me desconcentrar”, diz o ex-zagueiro Wilson. Ele cobra apoio de federações, clubes e entidades esportivas no envolvimento das causas sociais, como nos EUA.

Neymar se diz de ‘cabeça fria’ e afirma que deveria ter ignorado insulto racista

O atacante Neymar, do Paris Saint-Germain, voltou a se manifestar nesta segunda-feira sobre o caso em que alega ter sido vítima de racismo durante jogo pelo Campeonato Francês. Em texto publicado nas redes sociais, o camisa 10 afirmou que agora, de “cabeça fria”, analisa que deveria ter ignorado as palavras do espanhol Álvaro González, do Olympique de Marselha, mas lamenta que não conseguiu se conter.

“Deveria ter ignorado? Não sei ainda… Hoje com a cabeça fria respondo que sim. Mas oportunamente eu e meus companheiros pedimos ajuda aos árbitros e fomos ignorados. Esse é o ponto!”, escreveu o jogador. Neymar publicou a mesma mensagem também em inglês, além de ter colocado na sua página no Instagram diversos recados de apoio e também de repercussão sobre o incidente.

Durante a discussão com o espanhol, Neymar acabou expulso. “Achei que poderia sair sem fazer nada porque percebi que os responsáveis não fariam nada. Não percebiam ou ignoravam. Durante o jogo queria dar a resposta como sempre, jogando futebol. Os fatos mostram que não consegui. Me revoltei”, escreveu o jogador, que conta ter refletido bastante sobre o episódio.

O camisa 10 afirmou que no futebol os insultos fazem parte das provocações, porém tudo tem limite. “No nosso esporte, as agressões, insultos, palavrões são do jogo, da disputa. Não dá para ser carinhoso. Entendo esse cara (Álvaro González) em parte Faz parte do jogo. Mas o preconceito e a intolerância são inaceitáveis”, comentou Neymar.

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