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Fatal
As ondas de calor no Hemisfério Norte e como alguém morre por causa disso
As vítimas são, em maioria, idosos que padecem de males como hipertermia e desidratação
O Globo
05/07/2021 | 14:05

Enquanto boa parte dos brasileiros lidam com uma semana fria do inverno, o verão do Hemisfério Norte vem mostrando sua face mais cruel. No Canadá, uma onda de calor sem precedentes no país já causou dezenas de mortes. Os termômetros também já atingiram recordes em locais como Oregon, nos EUA, e Moscou, na Rússia. Nos últimos anos, sequências de dias com temperaturas muito acima do normal vêm se repetindo na Europa e na América do Norte entre os meses de maio e agosto, levando a milhares de óbitos. Mas quais as causas dessas ondas de calor extremo? E como uma pessoa morre devido às altas temperaturas?

Saltos de temperatura são registrados, esporadicamente, desde o início do século XX, mas a frequência com que ocorrem teve um aumento acentuado nas últimas duas décadas. Cientistas que estudam as mudanças climáticas já diziam que esse problema seria cada vez mais recorrente, conforme a temperatura média do planeta sobe ano após ano. Ainda assim, as autoridades de países europeus ficaram surpresas quando, no início do século XXI, milhares de pessoas começaram a morrer devido às altas temperaturas. Em agosto de 2003, o governo francês estimou que o calor foi a causa direta ou indireta de mais de 3 mil óbitos no país, que, na época, adotou medidas típicas de uma crise sanitária.

– Acho que agora podemos qualificar o que está acontecendo como uma autêntica epidemia – disse o então ministro da Saúde francês, Jean-François Mattei, que mandou interromper as férias dos médicos para reforçar os hospitais, principalmente na capital, Paris.

Pacientes em tratamento devido a efeitos do calor extremo em Paris, em 2003

O drama das mortes por calor é mais frequente em metrópoles do Hemisfério Norte, onde as variações de temperatura se tornaram amplas. São cidades com estruturas e populações pouco adaptadas a essa realidade. As vítimas são, em maioria, idosos que padecem de males como hipertermia e desidratação. O quadro é agravado porque, no verão, muitas famílias viajam de férias e deixam seus parentes mais velhos sozinhos. Em 2003, a polícia de Paris pediu ajuda para remover cadáveres de pessoas que morreram dias antes, sozinhas em seus apartamentos.

– No último verão, a situação foi catastrófica, e, este ano, está pior. Não estávamos preparados, o sistema hospitalar está em colapso – lamentou o médico Muriel Chaillet, em 2003.

No mês passado, um estudo publicado no períodico científico “Nature Climate Change” mostra que 37% das mortes causadas por calor não teriam acontecido se não fossem as mudanças climáticas provocadas pela ação do ser humano. A equipe de epidemiologistas investigou dados de temperatura e mortes no verão de 732 localidades em 43 países, de 1991 a 2018.

Idosa é atendida em hospital de Paris após se sentir mal devido ao calor, em 2003

Manter uma temperatura corporal constante em torno dos 36 graus é essencial para as funções biológicas de uma pessoa. A exposição ao calor extremo interfere nessa capacidade e, se um indivíduo não consegue controlar sua temperatura interna, ele corre o risco de experimentar uma série de adversidades. Cãimbras de calor, exaustão e insolação grave são condições médicas diretamente ligadas a altas temperaturas. Mas o calor extremo também pode levar, indiretamente, a problemas cardiovasculares, o que aumenta a incidência de enfartes.

As câimbras de calor causam forte dor e até mesmo espasmos em músculos das pernas e abdôme, além de intensa sudorese. Já a exaustão pode levar a intensa sudorese, enjoo, fraqueza, pulso fraco e até mesmo desmaios. E a insolação grave gera alterações do estado mental, dor de cabeça, náusea e tonteira, além de aceleração da circulação sanguínea, sudorese e perda de consciência. Dessas três consequências do calor extremo, a insolação é a mais séria e, normalmente, gera a necessidade de atendimento médico.

— Nosso organismo é programado para funcionar numa faixa de temperatura. Quando a temperatura aumenta por causa de febre (quando há agente infeccioso) ou por hipertermia, as proteínas e enzimas do corpo se desnaturam, ou seja, perdem a sua forma, e também a sua função. Mesmo que o corpo chegue a 39°C, ele funciona ainda, pois o nosso mecanismo regulador consegue diminuir a temperatura. Quando alcança 40°C, pode chegar ao coma e, com 42°C, a pessoa morre — explicou a médica Ana Sodré, em entrevista ao GLOBO no ano passado.

Outro problema que pode ser provocado pela exposição ao calor excessivo é a desidratação. Por isso, nos dias mais quentes, é imprescindível manter-se bem hidratado.

— A melhor maneira de avaliar o nível de hidratação da pessoa é analisando a cor do xixi. O ideal é que ele esteja com uma coloração amarelo claro. Se ele estiver alaranjado significa que está muito concentrado, o que pode indicar hidratação baixa — disse a nutróloga Adilia Altgauzen, do grupo Iron.

Orla de Victoria, na British Columbia, Canadá, atingida por onda de calor

O número de óbitos ligados a altas temperaturas na Europa e na América do Norte já vinha causando sustos desde os anos 1980, mas essas ondas de calor se tornaram cada vez mais frequentes e intensas. Em 28 de agosto de 2003, O GLOBO noticiou que quase 20 mil pessoas haviam morrido no verão europeu, sendo que mais da metade desses óbitos ocorreram na França. Apenas três anos depois, uma nova onda de calor levou causou um recorde na média de temperatura para o mês de julho. Mais de mil pessoas morreram apenas na Holanda.

Também em 2006, uma onda de calor causou mais de 220 nos Estados Unidos, cujo governo registra um total de mais de 11 mil óbitos relacionados ao calor entre 1979 e 2018. Segundo estimativas de 2016, nos 60 anos anteriores, o número de mortes devido a altas temperaturas havia se tornado três vezes maior em 50 cidades americanas.

O problema afligia o Canadá com pouca intensidade, mas cenário começou nos últimos dez anos. Com boa parte de seu território situada no Círculo Polar Ártico, o país registrou ondas de calor em 2011, 2013, 2017 e em 2018, quando 74 pessoas morreram apenas na cidade de Qebec. Em 2020, o governo local registrou o maio mais quente de sua história. E, nas últimas semanas,

Centro de resfriamento, com ar condicionado, em Oregon, nos EUA
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