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EUA
Ao silenciar Donald Trump, dois gigantes da tecnologia mostram onde está o poder
Jornalistas e historiadores vão passar anos desvendando a natureza improvisada desses banimentos e examinando por que eles só chegaram quando Trump já estava perdendo poder
Estadão/ The Washington Post
11/01/2021 | 08:57

No final, dois bilionários da Califórnia fizeram o que legiões de políticos, promotores e negociadores haviam tentado e fracassado durante anos:

Eles puxaram o presidente Donald Trump da tomada.

A decisão do Twitter de suspender permanentemente a conta de Trump na sexta-feira, “devido ao risco de mais incitamento à violência”, após a decisão do Facebook de banir o presidente pelo menos até o final do mandato, foi um divisor de águas na história das redes sociais. Ambas as empresas passaram anos defendendo a presença de Trump em suas plataformas, mas mudaram de ideia dias antes do final de sua presidência.

Não é nenhum mistério o motivo pelo qual os CEOs dessas empresas – Jack Dorsey, do Twitter, e Mark Zuckerberg, do Facebook – decidiram agir só agora. Há anos eles estão sob pressão para responsabilizar Trump, e essa pressão se intensificou enormemente na semana passada, quando todo mundo, de Michelle Obama aos próprios funcionários das empresas, pediram o banimento permanente na esteira do motim fatal de quarta-feira no Capitólio.

Essas empresas, verdadeiras autocracias corporativas mascaradas de minidemocracias, muitas vezes retratam suas decisões de moderação como resultados de uma espécie de processo formal, como se “não incitar uma multidão insurgente” estivesse o tempo todo lá nas diretrizes da comunidade. Mas deliberações de alto risco como estas geralmente se resumem a decisões instintivas, feitas sob extrema pressão. Neste caso, Dorsey e Zuckerberg avaliaram as evidências, consultaram suas equipes, ponderaram os prós e contras, calcularam os riscos de não fazer nada – entre eles a ameaça de uma revolta dos funcionários que poderia prejudicar sua chance de atrair os melhores talentos – e decidiram que era hora de dar um basta.

Jornalistas e historiadores vão passar anos desvendando a natureza improvisada desses banimentos e examinando por que eles só chegaram quando Trump já estava perdendo poder e os democratas estavam prestes a assumir o controle do Congresso e da Casa Branca. Os banimentos também aumentaram o fervilhante debate sobre a liberdade de expressão.

Na sexta-feira à noite, republicanos pró-Trump se enfureceram, alegando que a mudança de posicionamento do Twitter era um exemplo dos controles tirânicos do Vale do Silício. E, se muitos liberais aplaudiram a decisão do Twitter como um passo atrasado e apropriado para prevenir mais violência, alguns também se arrepiaram com a ideia de que tanto controle está na mão de tão poucas pessoas.

“Entendemos a vontade de suspendê-lo permanentemente agora”, escreveu Kate Ruane, advogada da American Civil Liberties Union, em comunicado na sexta-feira. “Mas todos devemos nos preocupar quando empresas como Facebook e Twitter exercem o poder irrestrito de remover pessoas de plataformas que se tornaram indispensáveis para a expressão de bilhões de pessoas – especialmente quando a realidade política deixa essas decisões mais fáceis”.

Acima de tudo, a mordaça de Trump traz uma lição esclarecedora sobre onde está o poder em nossa sociedade digital – não apenas no precedente da lei ou nos freios e contrapesos do governo, mas na capacidade de negar acesso às plataformas que moldam nosso discurso público.

Os nomes de Dorsey e Zuckerberg nunca apareceram nas cédulas de votação. Mas eles têm um tipo de autoridade que nenhum representante eleito no planeta jamais terá. Esse poder aparece sobretudo de maneiras sutis e não ditas – como o vídeo assustadoramente calmo que Trump gravou na quinta-feira, horas depois que o Twitter e o Facebook ameaçaram deletar suas contas. No vídeo, Trump reconheceu que havia perdido a eleição e condenou o ataque ao Capitólio, duas coisas que ele teimosamente se recusara a fazer, mesmo quando o Congresso falava em impeachment pela segunda vez e membros de seu próprio Gabinete discutiam invocar a 25ª Emenda para removê-lo do cargo.

Preocupações jurídicas e políticas certamente pressionaram o presidente a adotar uma postura mais conciliatória. Mas havia uma outra interpretação para sua mudança: Trump prefere perder a presidência do que o privilégio de postar.

De certa forma, Trump – que costumava se gabar de que as plataformas “nunca” o baniriam – teve razão em priorizar suas contas nas redes sociais durante os últimos dias no cargo. Um impeachment bem-sucedido seria um fim embaraçoso para a carreira política de Trump. Mas perder seu enorme número de seguidores on-line – 88 milhões no Twitter e 35 milhões no Facebook – o privaria de influência cultural por muito tempo no futuro. E lhe tiraria o privilégio que ele mais parece cobiçar: a capacidade de dominar a atenção do mundo ao apertar um botão.

Trump não é um preso comum na prisão do Twitter. Ao contrário de outros partidários sem plataforma, ele tem um enorme aparato de mídia de direita que o seguirá aonde quer que vá e legiões de seguidores que amplificarão o que ele disser, não importa onde ele o diga. Na sexta-feira, seus seguidores prometeram fugir para as chamadas “plataformas alternativas”, como Gab e Parler, que têm regras menos rígidas. Mas esses aplicativos são minúsculos em comparação com as redes sociais mais conhecidas e, por não serem moderados, muitas vezes constituem a última opção de caixa de ressonância para extremistas nocivos.

Se nenhuma das plataformas alternativas for suficiente, Trump pode muito bem fundar sua própria rede social, onde ele poderá postar à vontade. E, se todas essas tentativas falharem, ele sempre vai poder ligar para a Fox News.

Mas reconstruir uma grande audiência em uma nova plataforma não é tão simples assim, mesmo para um ex-presidente, e essas plataformas alternativas enfrentam suas próprias batalhas técnicas e jurídicas. A própria Parler sofreu um grande golpe no sábado, quando a Apple se juntou ao Google para bloqueá-la em suas lojas de aplicativos, citando as políticas de moderação negligentes do aplicativo.

Onde quer que ele acabe postando, é duvidoso que Trump algum dia tenha o que tinha no Facebook e no Twitter – um palanque imediato onde ele podia bater boca com seus inimigos e também se deleitar com a adoração de seus fãs, uma linha direta para todas as redações do país.

O resultado mais previsível da expulsão de Trump do Twitter – e, provavelmente, de um banimento semelhante que ele enfrentará no Facebook depois do dia da posse – é que isto se tornará um grito de guerra para os conservadores que se veem como vítimas da censura do Vale do Silício.

“Estamos vivendo o 1984 de Orwell”, comentou o filho do presidente, Donald Trump Jr., em sua conta no Twitter (ainda operante, com 6,5 milhões de seguidores). “A liberdade de expressão não existe mais na América. Morreu com as gigantes da tecnologia”.

O banimento de Trump terá efeitos tangíveis na propagação de desinformação sobre as eleições de 2020, muitas das quais se originaram nas contas do presidente. É provável que também venha a acelerar a fragmentação da internet americana em linhas partidárias, um processo que já estava em marcha, e que intensifique os apelos ao direito de revogação da Seção 230 da Lei de Decência nas Comunicações, que protege as empresas de mídia social contra responsabilidade legal pelas postagens de seus usuários.

No curto prazo, as pessoas preocupadas com a escalada da censura no Twitter e no Facebook podem se consolar com o fato de que Dorsey e Zuckerberg parecem odiar a ideia de cumprir o papel de policiais dos discursos alheios e evitam fazê-lo sempre que possível. Para eles, o caso de Trump é diferente de qualquer outro – uma celebridade que se valeu de suas plataformas para chegar à presidência e depois as usou para encenar um ataque à própria democracia americana – e suas decisões de bani-lo dificilmente abririam qualquer precedente.

Mas seria um consolo frio para Trump, que agora se encontra do lado errado da linha que essas empresas traçaram.

O presidente protestou contra o banimento do Twitter na noite de sexta-feira, divulgando uma declaração inflamada por meio da assessoria de imprensa da Casa Branca, a qual afirmava: “Não seremos SILENCIADOS!”.

Mas, da maneira que mais lhe importa, ele já foi.

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