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Amor em 4 patas
Em meio à pandemia, ONGs e protetores lutam para defender a causa animal no RN
Com a pandemia as ONGs e abrigos de animais do Rio Grande do Norte viram suas doações que já eram poucas diminuírem ainda mais, em contrapartida o número de pedidos de resgate subiu
Helliny França
03/11/2020 | 08:46

O abandono de animais é uma triste realidade que a pandemia ajudou a agravar, segundo o Instituto Pet Brasil o país tem atualmente 78 milhões de cães e gatos nas ruas. Ainda de acordo com o instituto, a pandemia provocou um aumento de 20% no número de animais largados. A crise econômica provocada pela pandemia do novo coronavírus, o desemprego, a mudança de casa devido a pandemia, o aumento na quantidade de divórcios e até o medo de contrair a Covid-19 através dos bichos são algumas das respostas dadas para justificar o abandono de acordo com ONGs da causa animal.

Independentemente da justificativa, quem abandona um animal está colocando uma vida em risco, já que esses cães e gatos, que até então estavam acostumados a vida doméstica, ficam expostos a diversos perigos como envenenamento e atropelamento. É o que observou uma das responsáveis pela Associação de Proteção aos Animais- Natal (ASPAN), Marília Morais, de acordo com ela houve um aumento no número de pedidos de resgate de cães atropelados. Alguns desses animais acabam ficando paraplégicos e necessitam de cuidados especiais que geram altos custos para as instituições que os recebem.

Com a pandemia as ONGs e abrigos de animais do Rio Grande do Norte viram suas doações que já eram poucas diminuírem ainda mais, em contrapartida o número de pedidos de resgate subiu. A força de vontade e o amor a causa animal são o que impulsiona esses protetores a continuarem fazendo seu trabalho apesar das adversidades, muitas vezes tirando do próprio bolso para arcar com remédios, exames, vacinas, ração, entre outros gastos.

De acordo com Marília, a ASPAN que atualmente está com 62 cães, mas já chegou a ter mais de 100 ao mesmo tempo, gasta em média R$ 25 mil por mês e as doações correspondem a cerca de 10% desse valor, o restante é custeado pelos membros da organização. “Quando é um caso que ganha mais visibilidade na mídia conseguimos arrecadar mais, porém não é sempre que isso acontece”, contou Marília.

Em meio à pandemia, ongs e protetores lutam para defender a causa animal no rn
ASPAN atualmente está com 62 cães. Foto: ASPAN

A ASPAN recebe cães resgatados pela Delegacia Especializada em Defesa ao Meio Ambiente (Deprema), ou animais que estão em condições extremas com risco de morrer, de março deste ano até outubro a ONG acolheu 216 animais. “Muitas vezes estamos lotados, mas se o animal estiver com risco iminente de morte eu não vou deixar ele morrer na rua, se preciso levo até para minha casa”, disse Marília.

Helena Priscila do abrigo Animal Esperança, que atualmente cuida de 9 cães e 6 gatos, conta que durante a pandemia recebe por média 4 pedidos de resgate por dia, a maioria são denúncias de maus-tratos, antes eram 3 pedidos por semana. As doações também caíram consideravelmente nesse período.

“As doações diminuíram muito, perdi 2 animais a pouco dias e entrei no cheque especial para pagar os velórios”, relatou Helena.

Liebermann Farias do Instituto Senhores Patas relatou que a ONG também sobrevive através de doações, a instituição está com 80 cães, 4 burros (incluindo uma fêmea grávida) e 2 gansos, e atualmente funciona em uma granja. A ONG usa as redes sociais para conseguir arrecadar fundos para manter os animais.

Em meio à pandemia, ongs e protetores lutam para defender a causa animal no rn
Atualmente o Instituto Senhores Patas funciona em uma granja. Foto: Instituto Senhores Patas

“A gente conta com doações mesmo das pessoas, postamos foto dos animais, das nossas necessidades nas redes sociais e através dessa divulgação é que conseguimos as doações. Nessa semana postamos que estávamos sem ração e graças a Deus conseguimos receber ajuda”, contou Lierbermann.

As redes sociais se tornaram a principal ferramenta para angariar recursos e insumos, a maioria dos abrigos utiliza esses canais. Além de postar as imagens dos animais, os protetores também mostram a recuperação dos pets que são resgatados com algum problema de saúde e prestam contas de como está sendo usado os valores arrecadados.

Não são apenas cães e gatos sem raça definida (srd) que sofrem com o abandono, os abrigos já chegaram a receber cachorros de raça como labrador, pitbull, poodle e border collie. As justificativas para o abandono são várias: doenças, comportamento indesejado e até a velhice. Porém durante a pandemia, com a alta no número de pessoas que perderam a renda, o principal motivo foi a falta de condições financeiras de sustentar o animal.

Em meio à pandemia, ongs e protetores lutam para defender a causa animal no rn
O resgate é só o começo do trabalho desses protetores. Foto: Patamada

“Nos meses de junho e julho o número de abandonos triplicou, o que não é comum. O número de pessoas que nos procurou para abandonar seu animal foi absurdo”, disse Drica Lima, voluntária há 4 anos na ONG Patamada.

O resgate é só o começo do trabalho desses protetores, quando o animal chega ao abrigo ele é encaminhado a um hospital veterinário para realizar uma série de exames para detectar doenças, recebe um remédio antiparasitário, o vermífugo, as vacinas, no caso de cães eles recebem coleiras ou repelentes de proteção contra o mosquito que transmite a leishmaniose (doença conhecida como calazar), depois passa pela cirurgia de castração e só aí pode ir para a adoção. Todo esse processo é seguido se o animal não apresentar alguma doença e nem ferimentos graves, em alguns casos o animal passa um tempo se recuperando, passando por tratamentos de saúde até ficar disponível para adoção. A parte psicológica também é trabalhada nos abrigos, alguns cães, principalmente aqueles que sofrem agressão, precisam de ressocialização tanto com humanos quanto com outros animais até seguirem para um lar.

Amor em quatro patas: em meio à pandemia, ongs e protetores lutam para defender a causa animal no rn
O abrigo Animal Esperança acolhe 6 gatos. Foto: José Aldenir/Agora RN

A pandemia trouxe por outro lado o aumento no número de adoções, segundo o Instituto Pet Brasil até agosto o país registrou uma alta de 50%. Já um levantamento encomendado pela marca Royal Canin mostra que só em relação a gatos houve um aumento de 30%. O confinamento, a solidão, o isolamento da família fizeram com que alguns procurassem a companhia de um pet.

Essa mudança foi sentida pelo Instituto Senhores Patas, em média 20 animais foram adotados por mês durante esse período, essa alta foi registrada principalmente no início da pandemia, no entanto já é possível ver uma queda nas adoções. Na ASPAN os números também subiram, desde março 110 animais foram adotados através da ONG, esse número mais que dobrou se comparado a todo o ano de 2019, quando foram realizadas 50 adoções.

Para evitar o risco dos animais sofrerem maus-tratos nos novos lares ou serem devolvidos os protetores analisam e entrevistam os candidatos a adotantes. É levado em consideração diversos aspectos como situação financeira, se a família da pessoa concorda com a adoção, se o animal ficará livre de coleira, se o candidato terá tempo para dar atenção ao pet. Após a adoção os abrigos mantêm o contato com os adotantes para acompanhar como está a vida do animal.

“Não doamos cães para intenção de guarda, que não tenham acesso a casa, não doamos também a quem não possa oferecer uma assistência veterinária mínima, pois isso levaria o animal de volta ao ciclo dos maus-tratos do passado de onde foi resgatado”, explicou Drica Lima.

É importante que antes de partir para adoção a pessoa esteja ciente de todas as responsabilidades que envolvem cuidar de um pet, além de paciência para a fase de adaptação do animal ao novo lar. Por isso os protetores alertam que é preciso avaliar bem antes de tomar essa decisão para não haver arrependimentos já que as devoluções geram traumas aos animais.

Lei Sansão

No dia 29 de setembro o presidente Jair Bolsonaro sancionou durante a lei que aumenta a pena por maus-tratos a cães e gatos. O texto altera a Lei dos Crimes Ambientais (Lei 9.605, de 2018), que prevê pena de três meses a um ano de detenção e multa para crimes contra todos os animais. Lei e é originária do Projeto de Lei (PL) 1.095/2019, do deputado Fred Costa (Patriota-MG). O novo dispositivo prevê prisão de dois a cinco anos de detenção, multa e proibição de guarda para quem maltratar, ferir, abusar ou mutilar cães e gatos, especificamente.

A legislação foi apelidada de lei Sansão, em homenagem ao cachorro da raça pitbull Sansão, de 2 anos, que teve as duas patas traseiras decepadas em Confins, na Região Metropolitana de Belo Horizonte.

No Rio Grande do Norte a lei ainda não foi aplicada, a Delegacia Especializada em Proteção ao Meio Ambiente (Deprema), não autuou nenhum flagrante que se enquadre no novo texto, segundo a Secretária Executiva e de Comunicação Social da Polícia Civil do RN, a delegada Dulcinéia Costa.

De acordo com o chefe de investigações da Deprema, Mário Pérsico, a falta de provas e testemunhas são uma das maiores dificuldades que a delegacia encontra quando recebe uma denúncia de maus-tratos. O chefe de investigações relatou que muitas vezes quando os agentes chegam ao local da denúncia o animal não aparenta fisicamente estar sofrendo maus-tratos. 

“Apurar o crime de maus-tratos não é tão fácil, é necessário provas e testemunhas, as vezes vamos ao local e o animal está aparentemente bem e não conseguimos realizar o resgate”, relatou Pérsico.

Quando é constatada uma situação grave ou quando o animal está abandonado em algum imóvel ou terreno sem a presença de tutores, a delegacia entra com o pedido na Justiça para um mandado de busca e apreensão e realiza o resgate. Os animais que a Deprema resgata são encaminhados para ONGs, uma vez que o órgão não possui abrigos.

Pérsico informou ainda que a Deprema realizou uma parceria com o Conselho Regional de Medicina Veterinária, o que vai possibilitar uma maior facilidade para a emissão dos laudos médicos dos animais resgatados.

Antes da mudança na lei após a constatação de maus-tratos o responsável pelo animal respondia pelo crime através de um Termo Circunstanciado de Ocorrência (TCO) , que é um registro de um fato tipificado como infração de menor potencial ofensivo, ou seja, os crimes de menor relevância, que tenham a pena máxima cominada em até dois anos de cerceamento de liberdade ou multa.

Conheça um pouco das instituições

Associação de Proteção aos Animais- ASPAN

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A capacidade do abrigo é de 40 animais. Foto: ASPAN

A ONG existe há dois anos e já teve 350 animais adotados e começou com um resgate de animais de um abrigo clandestino que os usava apenas com a intenção de conseguir dinheiro. Marília Morais, uma das responsáveis pelo abrigo, informou que a ASPAN não realiza os resgates, apenas recebe os animais através da Deprema, porém em casos graves de risco de morte iminente eles acabam acolhendo o animal. O abrigo tem funcionários, sendo 1 administrator e 2 tratadores, e enfrenta dificuldades de encontrar voluntários. A capacidade do abrigo é de 40 animais, porém já aconteceu de estar com 102 animais e foi preciso realizar adaptações para comportar os pets. Durante a pandemia o número de pedidos de resgate aumentou, a maioria de cães abandonados pelos tutores. A ONG possui um site onde são colocados fotos e o perfil dos animais aptos para adoção, também é possível acompanhar o trabalho da ASPAN e através do perfil da ONG no Instagram.

Abrigo Animal Esperança

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Há 1 ano Helena Priscila se juntou a causa. Foto: José Aldenir/Agora RN

A instituição existe há 4 anos e há 1 ano passaram a ter um abrigo, depois que Helena Priscila se juntou a causa, até então eles apenas ajudavam os animais, agora realizam os resgates. No momento estão com 9 cachorros e 6 gatos, recebem o auxílio de um veterinário voluntário. Eles recebem pedidos de resgates através das redes sociais e os acolhem de acordo com o espaço disponível. Durante a pandemia 3 gatos e 3 cachorros do abrigo foram adotados. O lar conta com a ajuda de 4 voluntários. Para conhecer mais sobre o abrigo é só acessar o perfil do Instagram, diariamente é postado atualizações sobre os resgates.

ONG Instituto Senhores Patas

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ONG tem 80 cães no abrigo. Foto: Instituto Senhores Patas

A ONG existe há cerca de 6 anos, atualmente está com 80 cães, 4 burros (uma fêmea grávida) e 2 gansos. Liebermann Farias é um dos responsáveis pelas adoções. É a própria ONG que realiza os resgates dos cães, geralmente animais abandonados na rua. O Instituto mudou recentemente para uma granja, o que permitiu o acolhimento de animais de grande porte. O abrigo se mantém através de doações feitas a partir das redes sociais. Os gastos são muitos, para se ter uma ideia por dia os animais consomem cerca de 25 quilos de ração. O Instituto Senhores Patas divulga suas ações e o dia a dia dos animais através do perfil do Instagram.

ONG Patamada

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Os responsáveis pela ONG Patamada, Drica e Henrique. Foto: Patamada

A Patamada existe há 17 anos, é uma das mais antigas ONGs com abrigo no estado, possui acolhimento rotativo e se mantém com no máximo 200 animais, mas já chegou a ter mais de 900 entre cães, gatos e equinos. Mais de 3.500 animais da ONG já foram adotados. Atualmente só acolhe cães e gatos, os animais são retirados das ruas, a própria ONG realiza o resgate. O atual presidente Henrique Knopik Angelim é filho da fundadora da Patamada, Elenice do Rocio Knopik Angelim que faleceu há 3 anos. Junto a Henrique, Drica Lima cuida da manutenção fixa do abrigo, existem também 6 voluntários que vão uma vez por semana auxiliar na ONG. A Patamada arrecada doações através das redes sociais, para conhecer o trabalho deles é só acessar o perfil do Instagram.

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