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Repercussão
Aluna denuncia fala considerada racista de professora da UFRN
Amanda Pereira, aluna do curso de História, detalhou situação durante aula virtual na última terça, quando uma professora acusou a estudante de praticar “racismo reverso”
Redação
04/02/2021 | 08:58

O Centro Acadêmico de História da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) denunciou uma fala considerada racista de uma professora durante aula nesta terça-feira 2. O Centro publicou uma nota de repúdio no perfil do Instagram contando detalhes do ocorrido.

Segundo o Centro, a docente deu a entender que existe culpa dos povos negros pela própria escravidão nas colônias americanas. Na ocasião da aula virtual, uma aluna negra questionou a fala da professora e como resposta a docente teria acusado a estudante de persegui-la por ser “branca, intelectual e de classe média”.

O Agora RN entrou em contato com a aluna Amanda Pereira, que relatou como ocorreu o episódio. Segundo a estudante, o conflito já vinha se desenhando desde a semana passada. “A professora falou que não devíamos considerar a África como vítima, uma vez que, quando os europeus chegaram ao continente, já existia escravidão na África”, contou a aluna.

Segundo Amanda, ela perguntou quais eram as fontes usadas pela professora para fazer as considerações e a docente teria dito que existia autores que falam sobre essa perspectiva e que iria compartilhar os conteúdos sobre o tema com a turma posteriormente. Amanda então pediu que a docente tivesse um maior cuidado ao abordar a temática.

A aluna reforçou que não discordava dos pontos abordados pela professora. “Eu disse: ‘professora, a senhora precisa tratar esses temas com um cuidado maior, inclusive, porque tem dores para quem é do povo preto que a senhora não consegue compreender devido ao seu lugar de mulher branca dentro deste espaço’”, relatou.

Na aula seguinte, segundo Amanda, a professora retomou a discussão e, durante uma explicação, a docente falou sobre um autor e usou as palavras “professor negro” sem citar o nome da pessoa em questão. Amanda questionou então no chat da videoaula quem seria esse professor e não obteve resposta. “Ela trouxe imagens e seguiu falando sobre ‘escravos’, e eu escrevi no chat: ‘professora é bom construirmos novas narrativas, no lugar de escravos, vamos falar povos escravizados’. Ela não viu e continuou falando ‘escravos’”.

Na aula de terça 2, a docente, sem citar nomes, comentou que alguém havia feito um comentário babaca na última aula. “Com 20 minutos de aula, ela retomou a fala da última semana e disse que na aula passada teve um comentário babaca de uma aluna porque ela usou ‘professor negro’”, disse. Segundo Amanda, a professora disse que a aluna estava incomodada porque era do movimento negro e que a docente era uma mulher branca. A professora disse ainda, de acordo com a aluna, que não era racista “já que havia se casado com um homem negro”.

A aluna contou ainda que a professora sugeriu que ela trancasse a disciplina para pagar a matéria com outro professor. “Ela disse: ‘você vai trancar essa disciplina, já que você tem problema comigo e, a partir de agora, você vai cursar a disciplina à noite’”.

Amanda afirmou que não vai deixar de cursar a disciplina. “Vou estar na aula, porque acredito que se eu não fizer isso, é capaz dos meus filhos, daqui a um tempo, encontrem essa mulher na universidade, reproduzindo a mesma coisa. É um absurdo ela se sentir confortável de reproduzir todas essas posturas dentro de um departamento de História, que forma professores”, disse.

Segundo Amanda, a professora disse que a aluna havia praticado “racismo reverso”. Este termo é usado para descrever supostos atos de discriminação e preconceito perpetrados por minorias raciais ou grupos étnicos historicamente oprimidos contra indivíduos pertencentes à maioria racial ou grupos étnicos historicamente dominantes.

No entanto, segundo historiadores, o termo é uma contradição porque seria preciso que a população branca tivesse sido submetida ao mesmo período de privações e condições que os negros para defender a existência de um suposto “racismo reverso”.

A coordenação do curso de licenciatura em História afirmou à reportagem que a professora não vai se posicionar sobre o assunto no momento. A coordenação explicou que vai ouvir tanto a docente quanto a aluna a respeito do episódio. A reportagem não citou o nome da professora pelo fato da docente não ter se pronunciado formalmente.

Repercussão

Casos de injúria racial envolvendo a professora são recorrentes, segundo alunos que comentaram a publicação feita pelo Centro Acadêmico de História no Instagram. “Gente, essa pessoa já deveria tá fora da academia desde 2007… Tive uma péssima experiência no curso de ciências sociais quando ela ‘confundiu’ crianças negras com animais ao analisar as pinturas do Debret”, comentou um deles.

“Recorrente o comportamento horrível dela, não só diversos comentários racistas como também humilhação de alunos e cometer erros e não assumir a culpa, mas transferir pros alunos” escreveu outro aluno. “Pessoalmente já presenciei outro caso de assédio por parte da professora citada durante um seminário da mesma disciplina, onde dois colegas de turma (2017.1) foram humilhados após a apresentação. Falta de profissionalismo, bom senso e comprometimento na formação de novos historiadores!”, relatou um estudante.

Vereadora de Natal comenta

A vereadora Brisa Bracchi (PT) comentou o caso em seu perfil do Twitter dizendo que estava revoltada com o caso. “Revoltante o que ocorreu ontem numa turma do curso de História da UFRN! A professora relativizou o modo de produção escravista e acusou uma aluna negra de praticar ‘racismo reverso’ por ter discordado dela. A professora ainda disse que não era racista por ter casado com um negro. Até quando?”, escreveu.

Ouvidoria da UFRN

Questionada pela reportagem do Agora RN se havia recebido denúncias envolvendo o caso, a Ouvidoria da UFRN disse que não pode comentar sobre situações específicas. E completou dizendo que, caso a denúncia seja formalizada na Ouvidoria, a demanda será encaminhada para a autoridade competente após análise. O órgão recomendou que qualquer denúncia seja feita pelo canal (falabr.cgu.gov.br).

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