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Tensão
Alto comando militar americano se preparou para frear tentativa de golpe de Trump
Segundo livro de repórteres do Washington Post, chefes das Forças Armadas discutiram plano para se demitirem, um a um, ao invés de cumprirem ordens dadas pelo presidente que considerassem ilegais ou perigosas
O Globo
15/07/2021 | 14:10

As tentativas do então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de reverter o resultado da eleição de 2020 preocuparam tanto o chefe do Estado-Maior conjunto do país, Mark Milley, que o alto comando militar chegou a discutir planos para pará-lo em caso de uma tentativa de golpe. As revelações foram feitas em um livro que será lançado na semana que vem por Carol Leonnig e Philip Rucker, repórteres do Washington Post, cujos trechos foram obtidos com exclusividade pela CNN.

O livro “I Alone Can Fix It” (Eu Sozinho Posso Consertar Isso, em tradução livre) descreve como Milley e os chefes das Forças Armadas debateram a possibilidade de se demitirem, um a um, caso o presidente lhes desse ordens que considerassem ilegais ou perigosas para se manter no poder. Não está claro, contudo, em que momento o encontro teria ocorrido.

O militar mais graduado do país teria conversado sobre o assunto com amigos, parlamentares e colegas sobre a ameaça de um golpe e acreditava que precisava estar “vigilante” perante os riscos:

“Eles [Trump e seus aliados] podem tentar, mas não vão conseguir merda nenhuma”, Milley teria dito a seus subordinados, segundo o livro. “Não é possível fazer isso sem as Forças Armadas. Não é possível fazer isso sem a CIA e o FBI. Nós somos os caras com as armas.”

Os autores comparam o plano do alto comando militar a um “Massacre de Sábado à Noite ao reverso”. Trata-se de uma referência ao episódio de outubro de 1973, quando o então presidente Richard Nixon deu ordens para que seu secretário de Justiça, Elliot Richardson, demitisse Archibald Cox, o procurador especial responsável por investigar o escândalo de Watergate. Richard e seu vice, William Ruckelshaus, se recusaram a fazê-lo e entregaram suas renúncias.

Leonnig e Rucker, que entrevistaram mais de 140 pessoas — entre elas Trump, por mais de duas horas —, narram em sua obra os bastidores do último ano do republicano na Casa Branca. O foco é as semanas entre o dia 3 de novembro, data da eleição, e a posse em 20 de janeiro, período no qual a cruzada do então presidente para reverter o voto popular submeteu à democracia americana ao seu maior teste de estresse na História recente.

As preocupações de Milley com as possíveis manobras do presidente, diz o livro, teriam se acirrado pouco após e eleição, com as trocas de comando no Pentágono, que puseram no poder aliados do presidente, a demissão do secretário de Defesa, Mike Esper, e a renúncia do secretário de Justiça, William Barr.

Após um mandato marcado pela promoção da agenda de Trump e por críticas de que teria corroído o Judiciário americano, Barr caiu na desgraça de Trump ao afirmar que não havia indícios de fraude no pleito, como o presidente dizia. Menos de duas semanas depois, em 14 de dezembro, ele deixou o cargo.

Nos dias anteriores à invasão do Capitólio, dizem os autores, Milley estava preocupado com a incitação que o presidente fazia de sua base, “dizendo para sua equipe crer que Trump estava fomentando distúrbios, possivelmente com a esperança de ter uma desculpa para invocar o Ato de Insurreição e acionar os militares”.

O general referia-se a uma legislação federal de 1807 que dá ao presidente o poder de pôr soldados e a Guarda Nacional nas ruas em circunstâncias como insurreições, desordem ou rebeliões. De acordo com Leonnig e Rucker, Milley via Trump como “um líder autoritário sem nada a perder” e fazia paralelos entre ele a sua retórica e a de Adolf Hitler:

“Este é um momento Reichstag”, ele teria dito, segundo o livro, referindo-se as declarações do presidente que o pintavam falsamente como a vítima de uma conspiração e como salvador dos EUA. “O gospel do Führer.”

Às vésperas de uma marcha convocada pelo presidente para pouco após a eleição, chamando seus apoiadores para protestar contra a vitória de Biden, Milley teria comparado dito temer que os aliados mais ferrenhos do então presidente fossem os equivalentes americanos da “SA nas ruas”. Era uma referência à Sturmabteilung, o grupo paramilitar que ajudou a levar Hitler ao poder.

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