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Cultura
Alice Carvalho reflete sobre 2020 e conta o que espera para o novo ciclo que se aproxima
Potiguar de 24 anos, Alice Carvalho é atriz, escritora, dramaturga e roteirista, sendo uma das grandes representantes do audiovisual local
Alice Carvalho
31/12/2020 | 07:27

“Se você pudesse, com um estalar de dedos, acabar com a existência do vírus, mas, em contrapartida, tivesse que voltar ao dia 1º de janeiro esquecendo tudo o que passou e aprendeu, o que você escolheria?”. Essa foi a pergunta que constava num print enviado por Larinha Dantas, videomaker potiguar e, particularmente, uma das minhas melhores amigas. Era a última segunda-feira do ano.

Lembro de refletir uns segundos sobre isso e responder, por texto, sem titubear: amiga, eu não mudaria nada. Na verdade, se eu pudesse mudar algo, eu mudaria muita coisa. Não sou do grupo de pessoas que acredita que o vírus veio para mudar a sociedade, para curar o planeta terra ou para trazer evolução, pipipipopopo. Em certas micro realidades, não duvido que isso tenha acontecido, mas de um modo geral o saldo é um: quase 2 milhões de vidas a menos e um pânico geral – com o adendo de que o obscurantismo e o negacionismo é trend, é pop e é tudo.

Não é por aí. Povos foram dizimados, os índices de violência doméstica subiram, vi meus amigos passarem necessidade, perdi um grande mestre que o teatro me deu, me separei, me vi no fundo do poço em um processo de transcendência extremamente pessoal, numa dor intransferível, mas que, como todas as outras, também passou. E tudo que passa também dá lugar para novas outras experiências boas ou más.

Nesses quase 10 anos de trajetória artística, o que pra mim fica, é que as coisas vão – você querendo ou não. Não te escrevo isso hoje a fim de ser simplória ou de reduzir sua agrura. Acredite, para frente ou para trás, as coisas vão – você queira, queira você não.

Me pediram para ocupar esse espaço falando sobre a minha trajetória, sobre o ano, sobre o que vi, mas acredito que não sou capaz de dissertar sobre tudo o que passou a partir de uma primeira pessoa apenas: para falar de 2020, preciso celebrar, também, terceiros.

Vi várias amigas produtoras se reinventando e colocando online edições de projetos presenciais, vi o espírito de coletividade fazendo mais pelos artistas do que o próprio presidente, vi tanta gente que não enxerga o artista como um profissional importante para a economia tendo apenas a arte como válvula de escape nos dias difíceis, vi que estar junto de quem a gente ama é mais eficiente do que a cloroquina – o que não é tarefa muito difícil.

Senti uma saudade arrebatadora de quase 190 mil histórias que morreram com 190 mil pessoas. Senti frio, senti sede, mas senti meus amigos – e, como boa geminiana, me arrependi pelo peito intumescido de tanto não-dito. Senti também que, de um jeito muito estranho, a gente até para, mas o mundo não. O mundo não dá um descanso, menina. Com a internet sendo a nossa pracinha de fim de tarde, então… o mundo continua fazendo a gente passar raiva e chorar de alegria.

Acho que o que fica, também, são os choros de alegria: SEPTO, primeira websérie potiguar criada por mim e meus amigos da Caboré Audiovisual, encerrou seu ciclo de três temporadas com mais de 50 festivais internacionais na conta, me entregando a mais simbólica das premiações: Melhor Atriz, na Austrália, sendo a única negra/brasileira/nordestina concorrendo.

Rodamos o clipe de “Cadernin”, dos meus amigos da Luísa & os Alquimistas, rodamos também “Piscininha”, dos amigos da Dusouto, respiramos aliviados com a chegada da Lei Aldir Blanc – e também prendemos a respiração com a burocracia dos auxílios-emergenciais-que-não-atendiam-a-emergência-do-momento.

O que está posto não desaparecerá com o estouro dos fogos, fato. Assim como o fato de que agora é palpável a falta que faz o ordinário no cotidiano.
Como boa filha de Xangô e Iemanjá, não escolho deletar da minha memória absolutamente nada. E se o próprio Átila Iamarino me perguntasse o mesmo que Larinha me perguntou, a resposta não mudaria: as coisas são como são porque assim precisam ser, cabe ao navegante encontrar sapiência para lidar com o balanço das marés.

Acho que para hoje, 31 de dezembro de 2020, a pergunta é outra: o que você não deletaria da vida caso o vírus nunca tivesse existido? Esse é um manifesto de fim de ano pela força das pequenas coisas. Que você as veja. E que 2021 seja – até porque, ele já é.

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