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Pandemia
Adiamento do 13º coloca famílias que dependem de idosos em risco
Domicílios em que o rendimento mensal é prioritariamente das aposentadorias estão sem renda extra no fim do ano devido ao adiantamento do 13º e, como a incidência das mortes por covid é maior entre os idosos, há uma ameaça constante de forte queda no rendimento
Redação
08/11/2020 | 07:26

Diante da recessão provocada pela pandemia de covid-19, mais de 65 milhões de pessoas foram beneficiadas pelo auxílio emergencial de acordo com os dados do governo. Contudo, analistas ouvidos pelo Correio chamam a atenção para o fato de os aposentados não terem sido contemplados com medidas fiscais do governo apesar de, muitos deles, serem peças-chave na manutenção da renda de milhões de famílias brasileiras e serem cruciais para a atividade comercial de muitas cidades. Segundo eles, agora, podem ser um fator de agravamento da crise, devido ao alto índice de mortalidade por covid entre idosos. Domicílios totalmente dependentes dos aposentados podem perder 100% da renda de uma hora para outra.

Conforme levantamento feito pela economista Ana Amélia Camarano, pesquisadora do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), 35% dos 72,6 milhões de domicílios brasileiros têm pelo menos um idoso, ou seja, 34,4 milhões de residências. Essa proporção vem crescendo ao longo do tempo devido ao envelhecimento acelerado da população e tende a continuar crescendo, especialmente, devido ao aumento do desemprego. Em 1987, por exemplo, era de 18,9%. Atualmente, o benefício dos idosos é a única fonte de renda de pouco mais de 13 milhões de lares, ou seja, 18,6% do total de domicílios no país.

O estudo feito pela analista do Ipea ainda revela que 75,9% das mortes por covid-19 no país até 27 de outubro foram de pessoas acima de 60 anos. Considerando esse percentual sobre as 162 mil mortes registradas até de sexta-feira, isso representaria 122,8 mil idosos que devem ter deixado de contribuir em seus respectivos lares. Estes, por sua vez, devem registrar perda parcial ou total da fonte de renda. Como esse número cresce a cada dia, o problema tende a se agravar no caso de uma segunda onda de contágio no ano que vem.

Especialistas lembram que essa maior incidência de idosos nas mortes por covid-19 pode ser uma espécie de “reforma da Previdência adicional”, pois vai ajudar a reduzir o número de aposentados indiretamente. Procurado, o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) informou que ainda não tem dados consolidados sobre o impacto da covid na redução do pagamento de aposentadorias neste ano.

“Todos esses 35% domicílios dependem da renda do idoso, integramente ou parcialmente. Logo, há um risco de empobrecimento das famílias no caso de morte por covid”, destaca Ana Amélia. Ela lembra que 18,6% das famílias são totalmente dependentes da renda de idosos. “Isso significa que 5 milhões de pessoas dependem diretamente da renda do idoso, o que é resultado do desemprego”, explica a especialista em longevidade.

Conforme a pesquisa do Ipea, um quarto dos óbitos foram de pessoas com idades entre 70 e 79 anos. Em 2019, a renda mensal per capita de domicílios com a renda do idoso maior do que 50% era de R$ 1.772,2 em 2019. Se todos eles morressem, o rendimento mensal per capita cairia para R$ 529,2, redução de quase 75%.

Menos consumo

Especialistas ainda avisam que a antecipação do 13º salário dos aposentados para abril e maio deve criar um problema adicional para essas famílias que dependem da renda de idosos no fim do ano. Naquele período, foram injetados R$ 23 bilhões para 29 milhões de aposentados e pensionistas, segundo dados do INSS. Logo, esse recurso não vai turbinar as vendas de Natal nos municípios de pequeno porte que dependem dos aposentados que sustentam suas famílias para movimentar o comércio local.

Nos próximos meses e ao longo de 2021, o desemprego ainda deve aumentar em função da redução do isolamento social e o fim do auxílio emergencial e o Bem (programa de benefício para a manutenção do emprego com a suspensão dos contratos de trabalho e redução de jornada), pelas estimativas Bruno Ottoni, pesquisador da consultoria Idados. Ele lembra que há uma incerteza no mercado de que o setor privado compensará essa redução de gastos do governo realizadas neste ano e sobre o novo programa de renda mínima para atender os mais vulneráveis que recebiam o auxílio e emergencial.

Pelas estimativas da IDados, o desemprego, depois de chegar a 14,4%, em agosto, deverá chegar ao pico de 17,3%, em março de 2021, ano em que a média será 15,4%, acima da média de 13,8% deste ano. “Quando vemos mais de 75% das mortes por covid sendo de idosos, que muitas vezes, são chefes dos domicílios, esse é um dado preocupante porque contribuiu para o empobrecimento maior da população tanto em caso de morte por covid quanto em caso de sequelas, porque o gasto com medicamentos deve aumentar”, complementa Ottoni.

Desamparo

De acordo com o economista Marcelo Neri, diretor do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getulio Vargas (FGV Social), grande parte das famílias que dependem da renda de idosos está localizado no interior do país, principalmente, no Nordeste, onde elas são mais numerosas. “Os estados onde há mais idosos são o Rio Grande do Sul e o Rio de Janeiro, mas é muito comum, no Nordeste, um grande número de pessoas morando com idosos, porque a aposentadoria é a principal renda”, explica. Ele reconhece que, com a mortalidade por covid maior entre idosos, as residências que dependem dos aposentados devem ficar desamparadas.

“Os órfãos da terceira idade estão em áreas mais pobres, no interior dos estados, e eles devem sofrer muito nessa crise, porque não estão tendo um tratamento especial durante a pandemia. Não houve aumento da renda para os idosos, em termos relativos, como ocorreu com os beneficiários do Bolsa Família e, provavelmente, a renda dessas famílias tende a cair com o aumento do desemprego”, diz Neri.

O economista Ecio Costa, professor de Economia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), também reconhece que, tanto as mortes de idosos por covid-19 quanto o adiantamento do 13º dos aposentados são dois agravantes para os municípios neste fim de ano e que se somam à redução valor do auxílio emergencial pela metade.

“Existe um impacto no fim do ano que a gente ainda não sabe ao certo o tamanho, mas a certeza é que a atividade econômica não será tão forte como ano passado”, avalia Costa. Ele também acredita que as famílias que dependem das aposentadorias não devem ter um Natal tão promissor este ano e isso deverá refletir no aumento do endividamento das famílias. Além disso, reforça que, como as despesas médicas de idosos aumentam todo ano, aqueles que sobrevivem à covid com sequelas precisarão de ajuda financeira de parentes.

*As informações são do Correio Brasiliense

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