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Artigo
A ideologia Woke; leia artigo de Dr. Geraldo Ferreira
Confira o artigo desta quinta-feira 30
Geraldo Ferreira
30/11/2023 | 06:33

Acordei, este é o significado literal da palavra Woke, passado do verbo inglês Wake, que significa acordar, despertar. O termo tem ganhado significados mais amplos, identificando posturas políticas com as quais os militantes se identificam, entre elas mais profundamente: “alerta ao preconceito e discriminação racial”.

A partir da década de 2010, passou a abranger uma consciência mais ampla das desigualdades sociais, como justiça racial, sexismo e direitos LGBT. A cultura Woke se vende como o grande despertar progressivo do nosso tempo, para espalhar o amor, derrotar o ódio e criar um mundo melhor sem qualquer tipo de opressão. Não admira que as pessoas façam cada vez mais filas para serem vistas como acordadas e para adotarem a sua linguagem. O vigilante do Woke tem as mesmas características do justiceiro social das teorias críticas e dos militantes do politicamente correto.

Em muitos aspectos sua ênfase busca controlar a linguagem, os ativistas se indignam com qualquer expressão que pareça problemática ou controversa para eles. A ideologia tem enfrentado intenso debate e antipatia em razão da utilização ampla das pautas Woke e a tentativa de implicar aqueles que não estão no clube como adormecidos, iludidos ou errados. Este julgamento instantâneo forma uma linha divisória, forçando o outro lado a ficar na defensiva e consolidando ainda mais o debate, transformando o credo, que se pretendia acolhedor numa palavra tóxica e divisiva, especialmente nos países ocidentais, incluindo os EUA, o Canadá, o Reino Unido e outros países. Um colapso na compreensão comum pode mergulhar a sociedade no caos e na frustração, tornando as pessoas prevenidas, desconfiadas dos outros e mesmo de si próprias e de sua capacidade de captar a realidade.

Com a intervenção bizarra na linguagem, colocando em cheque a intenção de cada palavra, a compreensão comum vê-se em apuros, desorientando não só a vida íntima, mas consideravelmente a vida comunitária. “Não é preciso se esforçar muito para se dar conta de que nossa sociedade, nos tempos atuais, está experimentando uma crise de significado e sentido”, escreve Noelle Mering. “A decadência de um idioma tem, em última instância, causas políticas e econômicas”, diz George Orwell, se as palavras ficam ininteligíveis, perde-se a capacidade de entender fins e intenções, pois o sentido das palavras são indícios e descrição do pensamento do outro. Os três dogmas fundamentais dos Woke são a primazia do grupo sobre a pessoa, o coletivo acima do indivíduo, a vontade acima da razão e da natureza, e o poder humano como superior a qualquer autoridade.

O ponto chave consiste em desestabilizar, fragmentar e erradicar a hierarquia, a história, a noção de sentido e identidade humana, o objetivo é a dissolução de qualquer concepção estável do ser humano, a anulação total das narrações fundacionais. É a ideologia da anticultura, oposta a qualquer autoridade transcendente: “uma pessoa não deve ser nada, a fim de poder ser qualquer coisa”, aponta Noelle. Destruir a família é fundamental nesse processo de sujeição ao tribalismo, sem a família o pertencimento passa a ser procurado em sinais de injustiça e agravos, manipulados por interesses políticos. As relações sociais deixam de ser um manancial de vínculos para serem luta de poder.

Tudo pareceria extravagante e confuso se ignorássemos a história do progressismo radical. A revolução não nasce em uma sociedade estável, com laços sólidos, ela brota numa sociedade dividida, onde as pessoas feridas, absorvidas em tribos ideológicas vêem a desestabização da sociedade e a revolução como única saída. O pensamento Freudiano casa bem com as políticas identitárias, o enredo é que a opressão interna ou externa e a liberação são a definição e a meta da pessoa. Reconhecer, revelar e viver o eu autêntico, onde a vontade está acima da razão ou da natureza, e os desejos sexuais desatados permitem a fruição dos valores da individualidade, da autenticidade e da liberação, se amparam em Freud e sua visão do impulso sexual como motor da personalidade. Não surpreende que a política revolucionária que busca o progresso do homem, acabe por degradá-lo.

A revolução cultural em andamento é alimentada no fogo e na ira, em violência e protestos contra toda autoridade. Autoridade se tornou uma palavra densa, vista com desprezo, inclusive quanto à história e aos antepassados. Tudo no passado vitou injustiça e opressão, então é melhor queimar, destruir e reformar tudo. O mais perverso é que a teoria Woke promete empoderar seus discípulos, despojando-os da bússola moral, incitando-os a serem escravos de seus desejos e definindo-os em torno de um eixo de opressão, onde são apresentados como impotentes frente a forças sistêmicas alinhadas contra eles. Como será o mundo quando os Woke oprimidos tomarem as rédeas do poder de seus opressores? Um movimento baseado em destruição terá que buscar sempre um inimigo novo ou uma nova opressão a desvendar.

O descarte pretendido da razão e da natureza humana, acompanha a substituição do pensamento livre e crítico pelas amarras da teoria crítica. O pensamento crítico se apoia na realidade, na observação, na busca de princípios universais para elaboração de avaliações normativas, e procura validade e verdade no comparativo das ideias. A teoria crítica corrompe a busca, na tentativa de validar a ideologia do marxismo cultural e produzir uma massa de ativistas, em vez de procurar a verdade.

Os Woke enfrentam um problema, a demanda por vítimas aumenta, enquanto proliferam compensações e direitos. Com a aceitação e a difusão do relativismo, cada vez mais a tolerância se converte em uma via de sentido único. Um livre intercâmbio de ideias não é e nem parece interessar os Woke, para eles não há um interior humano, as pessoas não passam de uma coleção de identidades sociais, sem uma história ou um relato que as una como humanidade. A ideologia Woke se apresenta como uma luta benévola por justiça, mas está longe de sê-lo, ao trocar princípios lógicos e inteligíveis por teorias sem sustentação prática, semeia incoerência e colhe o caos.

* Dr. Geraldo Ferreira – Médico, Presidente do Sinmed RN

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