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Geraldo Ferreira
A bíblia e o drama do homem como pó e imagem
Confira o artigo de Geraldo Ferreira desta quinta-feira 3
Geraldo Ferreira
03/03/2022 | 10:47

A religião desperta fascinação, inveja e até raiva em escritores e críticos literários que se dedicam ao assunto. A Bíblia pode ser considerada como a obra literária mais bem sucedida que qualquer autor ousaria sonhar. Em Deus, Uma Biografia, Jack Miles diz que nenhum personagem, no palco, nas páginas ou nas telas jamais teve o sucesso que Deus sempre teve. Queira-se ou não, Ele é um membro virtual da família ocidental. Os filósofos da religião afirmam que todos os deuses são projeções da personalidade humana, e pode haver alguma coisa de verdade nisso.

Mas há também os que em vez de projetarem suas personalidades em Deus, introjetam em si próprios as projeções religiosas de outra personalidade. Muita gente no Ocidente não acredita mais em Deus, e isso tem consequências duradouras, mas séculos de moldagem do caráter humano à imagem de Deus, ainda é forte, mesmo que para muitos seus fundamentos tenham sido removidos. A apreciação religiosa da Bíblia coloca como foco central a bondade de Deus, origem de toda virtude, justiça, sabedoria, misericórdia, paciência, força e amor. O começo e o fim da Bíblia hebraica são marcados por discursos pronunciados por Deus, depois sobre Deus e por fim um prolongado silêncio. Primeiro a ação, depois o discurso, depois o silêncio.

Vai se formando uma penumbra em volta de Deus, ele não morre, mas não interfere nos assuntos humanos, como no livro de Ester, onde as ameaças já são enfrentadas sem sua ajuda. Podemos perguntar, vendo a Bíblia como obra literária, como as ações primeiras se relacionam com as posteriores, e se teria havido uma bela e comovente reconciliação. Na tradição cristã, tomando a Bíblia hebraica como sua, o editor cristão faz o ordenamento do antigo testamento finalizando nos profetas.

Sendo Cristo o cumprimento das profecias, esta posição dos profetas anunciaria melhor sua relação com os evangelhos, o novo testamento. Na Bíblia Hebraica, o final é diferente, envolvendo o livro de Jó, Ester e o surpreendente Eclesiastes. No início, ao criar o mundo e a humanidade, Deus realiza seu desejo de uma autoimagem, a trama se adensa no correr da história, quando a autoimagem, a humanidade, se destroça moralmente. Miles escreve que é interessante notar que o Tanach, a Bíblia hebraica, não tem nenhuma palavra para história, e o Tanach não termina como uma história com fim, desintegra-se sem desaparecer. A vida do Senhor Deus começa em atividade e discurso e caminha para a passividade e o silêncio. O homem como semelhança de Deus conferiu nobreza à humanidade.

A interação com sua criatura manifesta o desejo de ser conhecido, amado. O desejo de uma auto-imagem, escreve Miles, “traz em si um potencial trágico”, que pode terminar em desespero, e levar ao silêncio. No livro de Jó, a história divina escapa de ser uma tragédia, porque o comportamento de Jó é imaculado, seu coração aberto e adorador, Jó é puro e inocente. No Cântico dos Cânticos o espírito secular empurra o próprio Deus para a margem da história, o silêncio de Deus fica encoberto pela agitação e pelo ruído da vida real. A toada continua em Lamentações, Eclesiastes, Ester e Daniel.

Na evolução emocional do criador do mundo, a piedade assume consequências finais maiores, pois envolvem uma revisão radical do significado do sofrimento. A relação de Deus com a humanidade é um caminhar para um amor piedoso ou uma piedade amorosa, como se sentisse que os acontecimentos escapassem do controle, e merecessem, pelos infortúnios, comiseração e benevolência. No início da história, desde Gênesis, não havia necessidade de piedade, os maus não a mereciam e deviam ser punidos, os bons não precisavam dela, pois eram recompensados.

Em Isaías, aflora o sentimento de aparente remorso, como se as linhas de bem recompensa e mal punição precisassem de correção. Quando o inocente sofre, ele não é simplesmente mau, nem o que ocorre é sem sentido ou vem como castigo. A punição e o sofrimento, levando à dor, mostram a fragilidade humana digna de compaixão. O discurso de Deus, transformado em silêncio, aponta um novo rumo, a humanidade só poderá ser redimida pelo amor.

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